sexta-feira, dezembro 30, 2005

A alma cheia...

Foi uma orgia de Amigos.
Uma noite cheia de contentamentos!
Uma data a celebrar no fim do ano em que somei mais Amigos.
Uns eram já conhecidos e leêm-me as rugas das mãos, outros ainda me tacteiam os olhos à procura de algo, e os mais recentes que chegam como uma fornada de pão quente, cheirosos.
Todos importantes porque estiveram lá, a dar e a receber.
Uma mão cheia de Amigos pode salvar um ano de ausências e de falta de pão.
Uma noite cheia de gente unida por tudo e por nada é o que dá sentido à vida que ninguém sabe o que vai exigir no minuto seguinte...


Parei em vários semáforos!
Atrasei assim a marcha e quando lá cheguei já tinha acontecido.
Nunca saberei porque vim pelo caminho mais demorado, mas o facto é que vim...
Minutos antes e estaria no acidente: dois carros - um capotado e ainda intocado, à espera da ambulância; metros à frente uma carrinha com gente para o mercado, destroçada, a olhar o chão. Polícia, luzes e piscas e destinos que se alteram por minutos que se param em semáforos, inúteis e desnecessários. A vida! Ninguém decide nada, tudo está previsto na cabala maior do Universo onde nos sentamos todos os dias em conchas de âmbar.

Uma orgia de amigos e o regresso a casa... de alma cheia, com o contentamento a sustentar a leveza do ser, a tal, por vezes insustentável.



BOM ANO 2006 A TODOS PARA QUEM OS AMIGOS FAZEM A DIFERENÇA!!!!!!
Para um Amigo que precisa... Para todos que precisam!

"Quando eu estiver contigo no fim do dia poderás ver as minhas cicatrizes, e então saberás que eu me feri e também me curei."
Tagore

segunda-feira, dezembro 26, 2005

A propósito de Beleza...



WHERE THE WILD ROSES GROW

"They call me the Wild Rose
but my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day

From the first day I saw her I knew she was the one
As she stared in my eyes and smiled
For her lips were the colour of the roses
That grewn down the river, all bloody and wild

When he knocked on my door and entered the room
My trembling subsided in his sure embrace
He would by my first man, and with a careful hand
He wiped at the tears that ran down my face

On the second day I brought her a flower
She was more beautiful than any woman I´d seen
I said Do you know where the wild roses grow?
So sweet and scarlet and free?

On the second day he came with a single red rose
said: Will you give me your loss and your sorrow?
I nodded my head, as I lay on the bed
He said If I show you the roses will you follow?

On the third day he took me to the river
He showed me the roses and we kissed
And the last thing I heard was a muttered word
As he stood smiling above me with a rock in his fist

On the last day I took her where thw wild roses grow
And she lay on the bank, thw wind light as a thief
As I kissed her goodbye, I said All beauty must die
And lent down and planted a rose between her teeth"


Nick Cave - in Murder Ballads (1996)

domingo, dezembro 25, 2005

Uma reza!

Caiu o último floco de neve amarela.
Caiu a folha do calendário com ela...
O anjo vadio que se deitou com o sol, bateu a porta e atirou-se para a cama vazia.
As luzes piscam ainda, rendidas à sua inércia de condenadas... como uma gaguez para os olhos.
Cães enregelados saiem de debaixo dos carros.
Pessoas de gelo debaixo de cartões de caixas de compras levantam-se com os ossos a estalar e a alma morta...
O mar é o mesmo.
Dominador e belo e rude e mau e suave e feito das lágrimas do céu.
A água de que somos feitos, cheia de seiva azul às vezes verde...
Mar e uma sereia que se espraia nele, violada.

A areia, a submissa.
Sempre ali, sempre pronta, disponível, sem opção.
Batida pelo mar que não a quer mas nao a deixa ser de mais ninguem.
A água e os graos de areia quente, gelada, amiga, amada.
Os caes que passeiam na beira da praia, sem destino, que estao apenas e assim fazem o Mundo.
A gente de coração sem alma que apenas está e assim muda o Mundo.
Não há sol hoje aqui.
Uma certa nostalgia invade o ar numa Terra decrépita
povoada por gente que não é feliz.
Somos nós!
Gente que viaja mas nao chega, nao aporta em lugar algum, nao quer, nao pode, recusa...

O mar e a areia a chamarem-me.
Eu na minha varanda a ver o Mundo acordar.
Tenho fome.
Aqui está um silêncio de tumba e arrepio-me.
Não há sol e arrepio-me.
Estou descalça e arrepio-me.
Estou sozinha e arrepio-me.
A pele arrepia-se sozinha!
Tenho muita fome...
Tenho os olhos esfomeados, mas não há sol nem vida para lá deste meu mundo seguro.
Só os caes vagueiam...
e a minha alma de areia embalada pelo mar.
Molho os olhos no abismo da varanda, no limite.
Não estou triste nem contente e isso chateia-me deveras.
Continuo com fome.
Maos, corpo, alma e sol com fome.
A alma vagueia livre!

"Como não sei rezar, só queria mostrar o meu olhar!"

sexta-feira, dezembro 23, 2005

AGRADEÇO A TODOS QUANTOS ME DESEJARAM BOAS FESTAS E BOM ANO 2006, NÃO SÓ AQUI NO BLOG COMO POR E-MAIL, ETC..
NESTAS OCASIÕES É QUE SE VÊ QUE VALE A PENA TER AMIGOS - SEMPRE!
COM OU SEM BDSM, A COMUNICAÇÃO É QUE LIGA AS PESSOAS E QUALQUER MOTIVO É VÁLIDO PARA CONTINUAR A FAZÊ-LO!!!!!!!
COM AFINIDADE É AINDA MAIS PRAZENTEIRO, E NA PRÁTICA DA MESMA ENTÃO... UI UI!!!! LOL
LAMBUZEM-SE DE DOCES E DEÊM MUITAS PRENDAS, PORQUE...

"SE DEREM O QUE MAIS AMAM, RECEBÊ-LO-ÃO DE VOLTA"!!!

PS: Sejam felizes sff...

terça-feira, dezembro 20, 2005

Natal é a luz que brilha nos olhos da submissa!
Natal é a chibata nova na mão do Dono ou Dominador...
Natal é esperar ansioso que o dia da sessão chegue de novo!
Natal é sentir que se está em paz com o Mundo...
Em paz connosco, porque sabemos perdoar e não odiar!
Natal é a entrega que só uma criança faz, inocente.
Natal é ser grande por dentro e dar-se por fora.
Natal é a troca de poderes ainda que sem laço.
BDSM pode ser Natal todos os dias, desde que a estrela esteja no centro dos olhos!
Feliz Natal a todos e um Ano cheio de BDSM com Verdade.....

terça-feira, dezembro 13, 2005

"A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que que existe o que não existe,
sabe como é que as cousas existem, que é que existem,
sabe que existir existe e não se explica,
sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
sabe que ser é estar em um ponto.
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer."

Alberto Caeiro (Pessoa: 1888/1935)

Poesia

terça-feira, dezembro 06, 2005

Un je ne sais quoi...

O Dono tinha-a mandado entrar na jaula. Ela era pequena, mas a jaula também, quase quadrada... A submissa não hesitou. O Dono ajudou-a a entrar, fazendo-lhe um gesto carinhoso na cabeça. Em redor, curiosos e participantes olharam em silêncio ou a comentarem para o lado; à volta da jaula, o Dono e outro Dominador faziam canas deslizarem como dedos pelas barras de ferro que, entre os espaços, tocavam na submissa na jaula, completamente calma e em contemplação. A música continuava a chamar gente para dançar, e o Dono continuava ali, de pé, em redor da jaula, satisfeito e cheio de orgulho. O seu troféu, a sua dádiva de entrega, rendia-se em cada minuto ali passado, exposta e indefesa, mas segura...
De repente outro Dom decide ordenar à sua submissa que se junte a ela, depois de falar com o primeiro: a porta da jaula abre-se e outra mulher rendida às ordens junta-se à primeira. Acontece a catarse!
A segunda submissa envolve e primeira com os braços e alheiam-se de tudo em volta; estão sozinhas num mundo de silêncio e de ternura. Comovi-me!
Elas unem-se num abraço e em afagos de cumplicidade cadenciados; fazem-se festas nos braços e na cara, apertadas mas serenas. Sempre em silêncio... Duas mulheres expostas a um grupo de gente que partilha a mesma afinidade - duas almas que escolheram o seu caminho - duas servidões a que lhes basta saber que cumprem a sua escolha com honra e distinção. Momentos com um je ne sais quoi de erotismo encapotado, de felicidade e de entrega; momentos feitos de escolhas e de certezas; momentos cheios de momentos dentro dos momentos. Fiquei a olhar sem me mexer. Senti-me sozinha, mas sorri por as saber unidas, maiores e mais fortes, por as saber realizadas; fiquei a olhar também em silencio, certa de que aquele momento jamais morrerá. Para a escrava. Para a submissa. Para mim!

sábado, novembro 26, 2005

" Nenhum prazer é comparado ao de sentir-se poderoso na posição vantajosa da Verdade!"

Francis Bacon

A Solidão é Um Universo de Uma Nota Só

"Há muitos anos li uma teoria interessante que diz sermos, cada um de nós, um universo pessoal. Desde a nossa maneira de vestir até aos nossos hábitos mais frequentes, as nossas amizades e relações, a nossa maneira de pensar e os nossos comportamentos mais frequentes, tudo isto (e muito mais) constitui um universo. O autor afirmava que somos como colares de pérolas vagueando num espaço com biliões de outros colares de pérolas. Às vezes há dois colares que quase se tocam, mas poderão passar toda a sua existência assim, no quase, sem nenhum dos dois colares alterar, mesmo que momentaneamente, a sua composição de pérolas, para que possa haver uma intersecção. É claro que esporadicamente um desses colares se abre e entra em intersecção com outro, criando um verdadeiro desastre. Mas, em muitos casos, a solidão deve-se exclusivamente à teimosia em manter o colar fechado a toda e qualquer possibilidade de contacto."

"Solidão, Nunca Mais - Reconciliando-se Com o Amor"
Roberto Bo Goldkorn (2003)

sexta-feira, novembro 25, 2005

O sentir da Felicidade...

"Por mero acaso acabei “tropeçando” no seu site.
Tomei a iniciativa de lhe escrever por ter ficado muito interessado na pessoa por detrás deste perfil. Tenho muito interesse em a conhecer melhor e em saber mais sobre a atitude que preconiza. Pelo que me deu a entender assume-se inteiramente como praticante da filosofia BDSM. Essa sua atitude fascina-me e ficaria muito agradado se tivesse disponibilidade para discutir comigo alguns assuntos relacionados com esta prática.

Já li algo sobre o assunto mas sinceramente acho que a maioria dos relatos provém de pessoas que nem sequer estiveram próximo de viver este tipo de situações. É fácil qualquer um escrever um conto ou emitir uma opinião e publicar o texto na Internet. Difícil, parece-me, é encontrar os verdadeiros praticantes desta filosofia de vida. O seu site parece-me sincero daí o ter-me despertado especial interesse.

Penso que neste momento deve ter um dono e não sei se ele lhe proibirá este tipo de contactos. No entanto se não houver nenhum impedimento a que possamos dialogar eu teria algumas questões a colocar-lhe para as quais gostaria de ter o seu ponto de vista.

Talvez a primeira questão que me ocorre seja: o porquê da atracção pela submissão e dominação? É certo que todos procuramos a felicidade. Normalmente associada a prazer e bem estar. O que tento compreender é em que medida o sentir-se dominada e totalmente submissa a outra pessoa lhe pode trazer essa felicidade e prazer. Não seria também feliz sem se sentir dominada por outra pessoa?

Interessa-me também entender como consegue conciliar uma vida em sociedade com este tipo de práticas. Vê o seu dono como uma presença 24h por dia, 7 dias por semana ou como uma relação apenas existente nas sessões de BDSM? Ou prefere mesmo viver em casa do seu dono e dedicar inteiramente a sua vida a satisfazer os desejos dele? Não sair de casa, cuidar de tudo para ele e esperar pacientemente que ele volte do trabalho para se dedicar a ele e receber os castigos inerentes a algum mau comportamento ou descuido que possa ter tido. Em suma abdicar da sua vida para se entregar totalmente ao seu dono.

Outra questão prende-se com o nível de entrega ao seu dono. Vejo que a resposta clássica é que a entrega tem de ser total. Mas e se o seu dono a encaminhar a fazer algo que está para lá do que poderá admitir. Imaginemos que a encaminha para um relacionamento com outra mulher, gang bang, sexo com animais ou com menores,... enfim algo que não pudesse mesmo admitir. Como reagiria? Isto levanta mesmo outra questão: Deve a submissa exprimir claramente o que espera da relação e quais os seus limites ou deve o dono ir descobrindo? (...)"



Sempre fui a vítima nas minhas fantasias masturbatórias e antes disso era inevitavelmente o cowboy escalpelado pelos índios, apesar de ser a mais matulona do grupo; adorava ser amarrada ao poste e humilhada por ser a vencida... Nunca dei grande importância a isso, até ter descoberto a prática do BDSM e com ela a necessidade de olhar para trás e procurar entender! E entendi! Gosto do que sinto a servir um Dominador, gosto da liberdade de sentir coisas novas na pele e nos sentidos, de expandir os meus limites que sempre foram os estipulados por convenções e socializações baratuchas... Mas com conta, peso e medida - não arvoro bandeiras em arco, nem seguro estandartes que não consigo elevar; gosto de bom-senso e do que se pode fazer com ele. No BDSM como na vida. Arriscar mas nao ser um suicida.
O prazer é como o bom sexo - carece de tempo e de habilidade e... entrega!
A tal que tem de ser honesta antes de ser total!
Não acredito em representar para agradar; em embalagens vazias para serem "recicladas" numa sessão; nada contra as sessões - só nao admito é gente feita embalagem... Desumanização pode ser isso, mas até aí tem de haver limites.

Felicidade pode ser qualquer coisa! Já fui feliz no BDSM, várias vezes. No entanto, Felicidade é algo egoista e de cada um, algo narcísico e individual, logo único! Já fui feliz várias vezes no BDSM. Mas tal está numa equação dependente de terceiros na prática desta afinidade. Já fui feliz só por mim, só para o Dono/Dom e para ambos... E entendo k é assim k deve ser! O BDSM e a vida vivem de momentos e de situações, de decisões e causa/efeito. Apenas isso! Já fui muito feliz fora do BDSM também e até com pessoas k conheci no BDSM. Ser feliz sem ser dominada por outra pessoa claro k é possivel e até talvez seja uma meta k todos deviamos ter, pois só assim os contrastes acontecem, dando valor aos actos e alterando as definições. Mas é obvio k alguem com tendencia submissa pode ter-se realizado muito mais, toda a vida, fora do BDSM, na realização (por ex.) de rough sex ou de cenas elaboradas sexuais, sem lhe dar um nome. Não é raro ter sexo mais "interveniente" e que me satisfaz mais do que o simples baunilha, sem riscos, mas isso não significa k não saiba ou/e não queira ter sexo fora da submissão.
Há tanto a dizer sobre BDSM e a sua prática...
Mas aconselho o sentir! Esse não dá direito a fugas...
Embora defenda que antes da prática os intervenientes se devam conhecer minimamente e, sim, a submissa se deva revelar por inteiro, ansiedades, limites e desejos. Claro que na prática isso será gradual e muito será descoberto em sessões e intimidades, mas não concebo BDSM sem alguma certeza no que ambos desejam e querem evitar...
Submissa e Dom estão um para o outro e devem faze-lo em unissono se pretendem uma relação que determine uma entrega incondicional de ambas as partes. Se for apenas manutenção, a entrega nao será tão cabal porque os objectivos não são tão maiores, o que não significa que na hora do acto a entrega nao seja honesta. Defendo as sessões eventuais como a abertura de porta para uma eventual relação mais profunda e incontornável.

No fundo, temos todos de nos dar uma chance, dando-nos e recebendo...
Recentemente tive uma crise de identidade no BDSM e questionava-me se devia arriscar sessões, pois tinha medo de falhar. Um Dom amigo disse-me: "Falhar é nem começar, não é desistir a meio!"
Que fazemos nós na vida? Vamos recomeçando sempre, em ciclos, como as horas e as ondas da Virginia Wolf.
Só podemos mesmo é tentar! Honestamente! Com medos!
"E se doer, é porque vale a pena!"






quinta-feira, novembro 17, 2005

As personagens que nos fazem chorar!

Todos os dias páro um pouco... cinco minutos antes de deitar, com um cigarro a queimar devagar, no wc, última paragem antes do leito!
Todos os dias tento entender as incongruências de mais um dia na vida, e é frequente empancar nalgum momento mais surreal do quotidiano que então adormeço...
Nos últimos meses vivi momentos difíceis, situações complicadas, convivi com gente diferente, amigos, conhecidos e alguns verdadeiros idiotas sem cura.
Difícil mesmo é-me entender a Mentira e a Dissimulação - de tudo na vida, a ausência de Verdade dá cabo de mim como uma sessão de BDSM mal conseguida ou um casamento traumático! Por vezes tira-me o sono. Outras a vontade de acordar. Por vezes até só me faz chorar, sózinha, em silêncio, a escutar o mar que me quer entrar em casa... Mas a realidade é que fico sempre mais pobre quando acredito em quem não merece.

O MITÓMANO (ou como urdir uma personagem)

"O que é a mitomania? É uma forma de
mistificação para consigo próprio e para com os outros, afim de se fazer valer
ou obter uma vantagem material, subtrair dinheiro, por ex., ser hospedado, etc..
O mitómano cria uma personagem valorizadora, tomada de outrem ou inspirada nas
suas leituras. E adere a essa ficção com uma tal determinação que consegue
convencer os outros. Atenção, não confundir: o mentiroso compulsivo
mente contra vontade. Por outras palavras, a mentira vem-lhe do fundo da alma,
sem que ele possa controlá-la! Sente-se geralmente culpado. O mitómano, por sua
vez, mente por cálculo e malevolência.
(...) A motivação do mitómano está ligada
à sua estrutura psíquica. Se tem o sentimento de que os outros podem não se
interessar por ele, ou que um parceiro/a é demasiado indiferente às suas
solicitações, o seu objectivo é entao a sedução. Estamos então perante um
neurótico, mais propriamente um histérico. A dimensão de castração é
aqui primordial: o indivíduo tem a impressão de não se poder comparar ao pai
- no caso de ser um homem - a mentira permite-lhe parecer
ultrapassá-lo.
Quanto ao perverso, experimenta grande
prazer em enganar o outro - isso conforta o seu sentimento de omnipotência: ele
não reconhece o valor e a sensibilidade próprias do outro; em vez disso, procura
exercer sobre ele um poder, uma influência, com o fim de o aniquilar. Ele sabe
que a confiança desarma, que a crença é sinal de amor; a adesão que suscita,
para ele não é mais do que um engodo, um meio de sedução. Obtém igualmente uma
satisfação secreta na confissão da sua impostura e no ver o outro sentir-se
ridículo, infeliz, enganado face a essa revelação.
As relações humanas baseiam-se na
sinceridade: temos necessidade de acreditar no outro, não podemos estar sempre à
defesa. Em consequência, a decepção perante uma mitomania revelada pode ser
perturbadora.
(...)Para convencer melhor os outros, os
mitómanos devem acreditar sinceramente nas histórias que contam e na personagem
que inventam. Mesmo que no princípio isso não aconteça, acabam por ficar presos
no seu próprio jogo. Podem, igualmente, funcionar por clivagem: vivem com esta
mentira sem nela acreditar verdadeiramente; porém, no seu foro íntimo, estes
diversos aspectos de si mesmos coabitam de forma assaz harmoniosa. O mitómano
adopta a personalidade de uma outra pessoa porque não se sente verdadeiramente
satisfeito com aquilo que é. Precisa de se aproximar do seu eu ideal,
construindo para si uma personalidade melhor, mais prestigiosa."
Pequeno Tratado das Perversões
Morais
Alberto Eiguer
(1997)


quinta-feira, novembro 10, 2005

As lágrimas que caiem!

"(...)Rompido abruptamente o contrato, resolveu fugir daquele
seu mundo conhecido. Não desejando recomeçar a vida de palhaço, entregou-se à
vagabundagem. Desconhecido, ninguém o reconhecendo, flutuava entre os milhões a
quem tinha ensinado a rir. No seu coração não havia ressentimento, apenas uma
tristeza profunda. Era uma luta permanente para conseguir suster as
lágrimas."


"O Sorriso Aos Pés da Escada"
Henry Miller (1948)

quarta-feira, novembro 02, 2005

"In My Life" - The Beatles

"There Are Places I Remember All My Life,
Though Some Have Changed,
Some Forever, Not For Better
Some Have Gone And Some Remain.

All These Places Had Their Moments
With Lovers And Friends I Still Can Recall
Some Are Dead And Some Are Living
In My Life I´ve Loved Them All.

But Of All These Friends And Lovers,
There Is No One Compares With You,
And These Mem´ries Lost Their Meaning
When I Think Of Love As Something New.

Though I Know I´ll Never Loose Affection
For People And Things That Went Before,
I Know I´ll Often Stop And Think About Them,
In My Life I´ll Love You More.

Though I Know I´ll Never Loose Affection
For People And Things That Went Before,
I Know I`ll Often Stop And Think About Them,
In My Life I´ve Loved You More..."

Lennon & McCartney (1965)


Um sorriso num dia de chuva!


Nem sempre é fácil, mas às vezes conseguimos!
Hoje sorrio a ver a chuva espreguiçar-se na vidraça da minha varanda junto ao mar...
Desde o último post muita coisa mudou e, na generalidade, a dar-me um alento merecido para prosseguir. Um dia a dor suaviza-se e voltamos a sorrir...
O dia foi anteontem, mas mantenho-me estupidamente de careta arreganhada! E sinto-me bem por isso! Durante meses achei que nao voltaria a acontecer o milagre de voltar a acreditar... Que tinha perdido o que de mais precioso tinha - a capacidade inata de acreditar, crer!
Por um qualquer prodígio da Vida, estou pronta para voltar à estrada...
Por causa dos Amigos e para os Amigos também!!!
Obrigada por nao se terem ido embora, por terem esperado por mim!!!

Post Scriptum: A foto k aqui incluo devia ter sido inserida no post sobre o meu primeiro Dono, mas por dificuldades técnicas então não foi possivel... Desconheço a sua autoria, mas agradeço a quem ma indicar!
A legenda nao existe, porque há coisas que têm de ser disfrutadas em silêncio... de olhos arregalados... e alma escancarada!

domingo, outubro 30, 2005

A Amizade... A Falta Dela!

Faz hoje seis meses que tive de abater a minha cadela. Que perdi alguem que me deu lições de vida todos os dias nos 12 anos que passou comigo. Era como minha filha, e só me dava um olhar de frente quando a chamava, enquanto abanava o rabo... Tinha olhos castanhos/mel e era preta. E é o mais parecido com um filho que voltarei a ter.
Sei que nem todos terão sensibilidade para entender esta minha analogia -que me perdoem!... Foi o único cão que tive na minha vida e que provavelmente vou ter, e senti a sua passagem por mim como um bebé que ajudei a crescer até ao dia em que morreu. No meu caso, tive de a matar, porque sofria! Faria de novo o mesmo. E sofreria de novo o mesmo.
Seis meses depois, faz-me falta como ninguem pode imaginar e a dor é maior e a saudade enorme. Quando eu estava feliz ela brincava comigo e fazia-me sentir realizada porque eu tinha-a feito um cão feliz...
Quando eu quase desisti, em tempos, ela não deixou: se eu nao comia ela nao comia, se eu estava triste ela nao brincava, se eu chorava ela gania comigo, a dar-me cabeçadas nas pernas, se me isolava nao se calava a ladrar até eu a levar à rua, e por aí fora!!!! Um verdadeiro amigo, que não adormece quando ficamos triste, antes nos mantém acordados com ele.

Tenho tido um ano de perdas graves.
Tenho tido meses de angústia profunda a tentar entender a maldade do Homem, a indiferença com que anda no Mundo, a tentar arranjar sentido na minha cabeça e coração sobre coisas que me ultrapassam.
Trouxeram-me de Londres algo k diz: "Família são os amigos que escolhemos para nós próprios!" - concordo.
A minha cadela escolheu-me como família, nunca fugiu de mim... e senti a morte dela como de família! Sinto todos os dias... Como dos amigos que perco, A, B, C, que me têm dado provas que para amigo lhes serve qualquer um.

Talvez seja um facto k não sei gerir a Amizade, porque como dou tudo, quero tudo também. Mas não engano ninguém; pelo contrário, acusam-me de falar demais e confiar demais sempre... É um facto e não vou mudar! Vou morrer assim, como outros morrem a ser desconfiados a vida toda. Gosto de pensar que fiz escolhas certa na Amizade ao longo da vida. Mas ultimamente não sobra nada para eu avaliar - tornei-me mais céptica e a Amizade já não é o que era. Ressalva feita aos amigos k mantenho à vinte anos e já me salvaram muitas vezes, o paralelo que me permite avaliar... comparar!

A minha vida tem estado embrulhada e já carpi aqui muitas vezes no ultimo ano; nao tenho vinte anos e cada vez custa mais a recomeçar. Palhaços esquecem-se depressa, mas gente a quem demos algo que nos era dificil dar ou inpensável entregar, não é assim tão fácil.
Nao me armo em coitadinha porque nunca fui. Se alguém precisar de força, eu nao falho e viro o mundo do avesso... Mas as vezes tenho pena de que se desperdice a vida com tanta ninharia, e nao se acalentem os Amigos devidamente. Claro k já falhei muitas vezes e paguei o preço. Claro k não sou a melhor do bairro, mas sei k nao é porque nao tente estar a altura.

Não sou orgulhosa e se me dispo aqui, por ex., é porque nao tenho medo da pena; se conseguir que alguem fique solidário com a minha tristeza, que a entenda ou a tente sofrer comigo, para mim isso não é pena. É apenas uma alma grande, receptiva, gente com capacidade para dar...
Julgo que um amigo é isso! Alguém que tem para dar.
Passei metade da minha vida a dar mais do que recebi. De tanto me chamarem a atenção para mudar o meu rumo, acabei por conseguir obrigar-me a pensar em mim. E quando o faço, sou acusada de egocentrismo. Ain´t life funny?

A verdade é que não sei mais como agir no Mundo.
"Que se abra uma fenda no rochedo do Mundo para eu me esconder!"
Já me tentei esconder numa fenda várias vezes, como todos aqui, nem duvido; mas quando o primeiro injustiçado se levanta, levanto-me com ele. Foi sempre assim!
Ultimamente não consigo acreditar.
Todos os dias me fazem uma sangria no crer!
Todos os dias.
Não sei bem porque, nem para que... Mas que ao menos alguém saia bem da chacina k fazem a quem não quer mais do que acreditar em alguém... Que quem passa por cima dos sentimentos e da vontade de acreditar dos outros, saiba que se torna mais pequeno por isso.
Uma vez apenas!
Incondicionalmente...
Alguém que não queira nada de ninguém, só a paz no acreditar; dormir descansado pork sabe que alguem o tirará do hospicio. Porque conhece por dentro alguem, e isso deve ser cuidado como uma honra!
Uma vez... apenas!
Incondicionalmente!

quinta-feira, outubro 27, 2005

VALSINHA

"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a para rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado, cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E aí dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos
Como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"

Chico Buarque/Vinicius de Moraes

O MEU PRIMEIRO DONO...

No início deste mês fez um ano que eu aceitei a coleira do meu primeiro Dono.

Estava activa no BDSM há pouco tempo, aqui pelo IRC, ele destacou-se pelo bom-senso na abordagem e pela excitação que me provocava nas nossas conversas, e daí a darmos um passo mais largo, não demorou muito. Conhecemo-nos em sessão, mas só na terceira vez ele me tirou a venda e o conheci realmente, e só aumentou o meu prazer em estar com ele... Por uma sucessão de factos, e porque felizmente as pessoas não são todas iguais, acabámos por nos separar, mas continuamos amigos até hoje, em maior ou menor entrega de Amizade, mas amigos sim.Quando nos separámos, disse-lhe que iria ser sempre o meu Dono, porque há coleiras k se colam na alma - e mantenho o k disse!

Tive outro Dono depois dele e igualmente importante, mas de forma diferente, noutro estádio da minha evolução neste universo. Também a relação acabou e também continuamos amigos. Muita gente não entende como se pode achar tanta gente importante ao mesmo tempo... Eu consigo!Ninguém sente o mesmo por pessoas diferentes, ainda que aparentemente a situação seja idêntica ou igual; o sentir nunca é igual apenas porque a causa/efeito do sentir se manifesta do mesmo modo! Posso amar dez pessoas na minha vida - aparentemente é tudo Amor, mas a verdade é que dentro de cada rótulo, há amores diferentes. Se por um lado os rótulos são necessários, dizem, por outro só complicam tudo!

Tudo isto para dizer k a primeira vez em que se experimenta determinado sentimento é a mais marcante, quer se queira ou não...No dia em que o meu primeiro Dono me pôs a coleira, em minha casa, esperei que ele chegasse a casa dele para entramos juntos no canal de IRC onde nos conhecemos...Tinha o coração aos saltos, estava corada como uma virgem, e os parabéns que recebi fizeram-me explodir de contentamento; um pouco envergonhada também, porque de certo modo me sentia uma "coisa", e nunca na minha vida me imaginei com coleira e trela antes do BDSM...

Cem coleiras que aceite, o sentimento nunca vai ser igual.
Cem Donos que tenha, nenhum é igual a outro.
Fez um ano este mês, dia 12 se não me engano, mas, por razões paralelas e tão próprias da raça humana, estávamos afastados...
Tive pena que assim fosse, tinha imaginado celebrar a data com ele, sem alarde... Apesar de eu não ser uma sub fácil, nem uma pessoa de carácter submisso, nunca tive problemas em dizer de quem gosto ou porque gosto, quando o sei. Conjuguei sempre o verbo Amar sem obstáculos - disse muitas vezes ao meu Dono k o amava! Nem sempre o demonstrei, talvez, porque nem sempre é facil, ou o outro não consegue aceitar!

Várias vezes acabámos a nossa relação e várias vezes nos reaproximámos. Várias vezes fomos muito felizes e várias vezes muito tristes.
Houve responsabilidades, mas não culpas.
E o que aqui queria dizer é que não me esqueci, um ano depois.
E deixar a minha homenagem ao meu primeiro Dono, dizendo que nunca me arrependi!

Um ano depois, um olhar de cabeça levantada e olhos baixos para o que passou...

terça-feira, outubro 25, 2005

Z ART

O que é BDSM?

"Em tempos, tudo era chamado de Sado-Masoquismo (SM, S/M ou S&M) e todos nós éramos rotulados de pessoas muito más, doentes e pervertidas. No entanto, éramos apenas pessoas com tanto tesão como as outras, mas com uma pequena tara para nos tornar especiais. Mas alguns de nós não quiseram ser rotulados de "doentes", maus, pervertidos, e então esses inventaram nomes como Dominação e Submissão (D&S, DS ou D/s), Love Bondage e Bondage e Disciplina (B&D), para se convencerem a si próprios e à Polícia do Prazer que o que faziam era diferente do que experimentavam aqueles tristes, retorcidos, desagradáveis e ultrapassados masoquistas; nem pensar...!
Então ficamos todos online com os nossos PCs (bem, nem todos) e começámos a fazer o que as pessoas fazem melhor quando não fazem sexo: discutir! Durante meses, discussões sobre os nomes a dar às nossas taras entupiram as redes informáticas.
Finalmente nasceu o termo BDSM.
O que fez muita gente com taras feliz, já que o termo incluía BD (Bondage e Disciplina), DS (Dominação e Submissão) e SM (Sado-Masoquismo). Então dissemos ao grupo do Love Bondage que os amávamos muito... Para o provar, atámo-los em grupo e despejámo-los num armazém abandonado em Los Angeles, onde os mantivemos em círculo a trauatear as músicas de Barry Manilow por detrás das gags. E as discussões acabaram? Nem pensar!
No entanto, alguns de nós descobrimos outras coisas sobre que discutir, no intervalo entre encontros sexuais..."

"Screw the Roses, Send Me the Thorns-The Romance and Sexual Sorcery of Sadomasochism"
Philip Miller, Molly Devon (1995)

quinta-feira, outubro 20, 2005

RASGANÇO

Ela a dizer não,
com o silêncio a pingar dos olhos
e as pérolas a dançar no pescoço...
Ela a dizer não,
a pedir perdão
a sentir a humilhação
com o rosto baixo, rente ao chão.
Ela a dizer não,
a rasgar-se toda por dentro
atada, dominada, sufocada
e não, não, não!
A mulher, a puta, a cadela,
a fêmea que não se quer dar
e não pode fugir, só rastejar...
A dizer "não" se perdeu...
na confissão se encontrou.
Tocada tremeu, impávida chorou,
silenciosamente morta no que confiança foi
e agora é só temor,
do que foi total entrega,
em nome de um tal Amor!

ML
Porto, 11/04/2005

ESTILOS DE VIDA ALTERNATIVOS

"Ter uma sexualidade que difere da "normal" pode tornar necessário, ou desejável, um estilo de vida alternativo. Uma orientação sexual menos comum do que a normal pode estigmatizar o indivíduo, levando a pessoa a procurar uma subcultura mais receptiva, por ex. homossexualidade e a formação da comunidade gay."

"Screw The Roses, Send Me The Thorns - The Romance and Sexual Sorcery of Sadomasochism"
Philip Miller & Molly Devon (1995)


"Não se escolhem as coisas em que se acredita! Elas escolhem-nos a nós!"

filme "Relatório Minoritário"

terça-feira, outubro 18, 2005

INCÊNDIO

"Se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra de uma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha - não te assustes.

São os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos
e vêm visitar-te.

Diz-lhes k vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo - diz-lhes k se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas - com eles no chão.

AL Berto - "O Medo"
(1948-1997)





sexta-feira, outubro 14, 2005

Nuvens e contrastes!

Perguntou-me se eu gostaria de chorar numa sessão...
Hesitei e disse que não!
Antes, como me tivesse tirado fotos em sessões anteriores, questionou-me se tinha ou não gostado de me ver nas imagens, nos momentos no Tempo, encarcerados por uma simples máquina fotográfica...
Confessei que demorara muito a decidir se as quereria ver ou não, receosa de a terrível verdade me saltar aos olhos como um morcego na noite, implacável, a colar-se na retina! Para sempre...
Porque durante um encontro entre um Dominador e uma submissa, o Tempo é adiado, a realidade transfigura-se, e o que é, deixa de ser... E a verdade é que na primeira vez que me vi imortalizada nas provas desses encontros senti-me nua, assustou-me ver olhos cerrados e mamilos tumefactos, boca torcida, nádegas marcadas a vergasta, e mãos crispadas.
Ninguém, nunca, vai saber como uma entrega em BDSM se faz, excepto quem se dá ao prazer da dor; quem se deixa ir na correnteza do sentir.
E a cara... o rosto que deixou de ser o meu em esgares de uma dor anunciada e nunca adiada! É o semblante que me apavora - como uma revelação jamais esperada, trazendo à superfície o quê? O melhor da alma, ou o pior dos sentidos?
Tudo é demais numa sessão, tudo é exagerado, é puxado, é levado aos limites... é passado dum lado para o outro da barreira do correcto; Bem e Mal fundem-se, o Mundo faz o pino, tudo muda de lugar...
Triste é sair do casulo das quatro paredes cúmplices para uma existência sem nada de novo, sem contrastes, sem nuvens, com tudo no sítio, a pedir por favor um dia atrás do outro. Patético é subir o colarinho para esconder as marcas. Fantástico é saber que depois de entrar no carro e acelerar vinte minutos para longe do ninho das sensações, o Dominador vai dizer: "Conta-me tudo!"
Porque já ficou para trás, já fechamos a porta do quarto e já entregamos a chave, deixando rugas nos lençóis, mas trazendo as marcas no corpo, na alma. O Dominador cansado de aplicar a sua justiça, satisfeito de ser Senhor no seu mundo privado. A submissa a latejar por dentro e por fora, olhos brilhantes, feliz por fazer parte do mundo do seu Mestre, de quem a orienta para novos prazeres inqualificados, incomensuráveis, inominados... numa corrida contra conformismos e rótulos!
Acaba por ser uma metáfora de vida, resumida a umas horas num quarto de dormir - o Bem e o Mal, numa luta corpo a corpo, em que nunca se sabe se vale a pena, até ao momento de ir embora... Difícil é quando se abandona o local mas se permanece de quatro, nua, aos pés da cama. Fascinante é nunca se chegar a saber quem ganha a luta - se o Bem se o Mal. Mas a consciência de que as marcas nunca sairão da pele do sentir, essa realidade sem fundo, como um poço, não tem nome...

Agora que o Tempo passou e a chave foi entregue de vez, posso adiantar que não valeu a pena!
Nem sempre as entregas são reais de ambos os lados.
Nem sempre a Verdade origina eco.
Este texto foi escrito em Dezembro de 2004.

ML

quinta-feira, outubro 13, 2005

O bom uso da língua...

Porque há quem ache que este blog é demasiado sério, e porque defendo que a Língua Portuguesa está nas ruas da amargura, transcrevo aqui um texto que recebi via net, logo de autoria desconhecida. Para ler e pensar! Ou nao...

“Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar "afro-americanos" aos pretos - com vista a acabar com as raças por via gramatical - isto tem sido um fartote pegado! As criadas dos anos 70 passaram a "empregadas" e preparam-se agora para receber menção de "auxiliares de apoio doméstico".
De igual modo, extinguiram-se nas escolas os "contínuos"; passaram todos a "auxiliares da acção educativa".
Os vendedores de medicamentos, inchados de prosápia, tratam-se como"delegados de informação médica". E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em "técnicos de vendas".Os drogados transformaram-se em "toxicodependentes" (como se os consumos de cerveja e de cocaína se equivalessem!); o aborto eufemizou-se em "interrupção voluntária da gravidez"; os gangs étnicos são "grupos de jovens"; os operários fizeram-se de repente "colaboradores"; as fábricas, essas, vistas de dentro são "unidades produtivas" e vistas da estranja são "centros de decisão nacionais". O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à "iliteracia" galopante. Desapareceram outrossim dos comboios as classes 1.ª e 2.ª para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes "Conforto" e "Turística". A Ágata, raínha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira...»; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: «Tenho uma família monoparental...» - eis o novo verso da cançoneta, se se quiser fazer jus à modernidade impante.
Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e «terroristas»; diz-se modernamente que têm um "comportamento disfuncional hiperactivo". Do mesmo modo, e para felicidade dos "encarregados de educação", os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos-cábula; tais estudantes serão, quando muito, "crianças de desenvolvimento instável". Ainda há cegos, infelizmente, como nota na sua crónica o Eurico. Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado "invisual". (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos - mas o "politicamente correcto" marimba-se para as regras gramaticais...)
Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em "implementações", "posturas pró-activas ", "políticas fracturantes" e outros barbarismos da linguagem. E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a «correcção política» e o novo-riquismo linguístico.À margem da revolução semântica ficaram as putas. As desgraçadas são ainda agora quem melhor cultiva a língua. Da porta do quarto para dentro, não há "politicamente correcto" que lhes dobre o modo de expressão ou lhes imponha a terminologia nova. Os amantes do idioma pátrio, se o quiserem ouvir pleno de vernaculidade, que se dirijam ao bordel mais próximo. Aí sim, um pénis de 25 centímetros é um "car**** enorme" e nunca um "órgão sexual masculino sobredimensionado"; assim como dos impotentes, coitados, dizem elas, castiçamente, que "não levantam o pau", e não que sofrem de "disfunção eréctil".”

quarta-feira, outubro 12, 2005

Epithaf For a Greek Sailor

The sea goes on
Till every destiny melts in an
only one face and feeling
Don’t you know all the things you left
behind
they leave a tiny trace
as the boat cut the waves
and then it's
route slowly vanishes.
To go
or to arrive
only the travelling
until
can be told

segunda-feira, outubro 10, 2005

"Ser amigo também é dizer não!"

"Os amigos são a família que escolhemos para nós!"

Há amigos que são tão especiais que raramente falo deles! E porque nem sempre são aqui mencionados, ficam melindrados... À meses que estou em falta com alguns amigos - uns que raramente vêm a este confessionário, planetário da alma, outros que vêm imenso e a quem nunca respondo, porque entendo que aqui não se deve manter diálogo.
A uns e a outros, e a todos, agradeço serem família chegada, irmãos em horas difíceis, primos em horas de luto, avós quando preciso de conselhos.
Não basta dizer que se é amigo, há que fazê-lo! E faz-se quando se está lá para o Bem e o Mal. Quando nos dão uma reprimenda porque nos vai ajudar a crescer ou um elogio porque nos vai dar força para vencer os obstáculos.
Recentemente precisei de toda a família, que estivesse lá, que fosse aquilo que às vezes não consigo ser! Ninguém falhou - todos montaram tenda no meu coração, e foram os meus sentidos e a minha coragem e determinação. Foram tudo o que precisei e não tinha.
Não me esqueço nunca e jamais serei a mesma por isso!
Gostava de lhes poder agradecer condignamente, mas há sentimentos maiores que nao cabem nas palavras.

"Ser amigo também é dizer não!"

Voltei a acreditar, porque se há algo que merece todo o empenho é a família que escolhemos para nós!
Não costumo fazer isto, mas sinto que o devo fazer - mando aqui, publicamente, um abraço dos mais apertados a gente especial, sem ordem de entrada em cena:
Paula, Susana, Her, Artur, Luísa, António, Rafael, João & João, outra Susana, Angela, Ricardo, Miguel e Isa, e outros que me possa esquecer por senilidade apenas.

"O que faz uma vida extraordinária é o facto de se ter cruzado com a nossa!"






domingo, setembro 25, 2005

A DOR O ODOR O AMOR

Um cheiro acre que rasteja
de joelhos no chão
e a nuca arrepiada
pelo silvo do punho erguido
dos olhos amarelos do instinto
que estarrecidos urram a cada golpe mudo.
Um toque como um trovão
a porta que bate com um baque seco de fogo de artifício
e o ritmado troar do coraçao em sobressalto,
o sangue que parece água em queda sobre rochas mortas na montanha.
As mãos em grilhetas de entrega.
A dor, o odor.
A adrenalina que escorre no suor
o calor, a dor, o amor, cor.
Vermelho-vivo nas espaldas dadas à sorte
à decisão do protector que acaricia em silêncio, com o látego erecto.
Momentos como dias de tempestade.
O conformismo da revolta de quem sai dali
para um mundo distante
só seu, único,
um sotão de solidão ali ao lado.
Silêncio.
O odor que se confunde com os olhos a rebentarem
cheios de uma coisa sem nome,
repletos de uma manhã azul
com verdilhões em voo.
Os ninhos que cabem na palmas das mãos
separadas pela cruz...
as mãos que ela já teve
mas que ofereceu em sacrifício
para acordar a noite!
O cheiro!
A dor...

25/09/2005
ML

quinta-feira, setembro 22, 2005

A dor como uma sensação

"Os primeiros modelos da dor descreviam-na num enquadramento biomédico, como resposta automática a um factor externo. Descartes, talvez o primeiro escrever sobre a dor, via-a como resposta a um estímulo doloroso. Descreveu uma via directa da fonte da dor (ex.: um dedo queimado) até uma área do cérebro que detecta a sensação dolorosa. Von Frey (1895) desenvolveu a teoria da especificidade da dor que, uma vez mais, reflectiu este modelo muito simples de estímulo-resposta. Ele sugeriu que existem receptores sensoriais específicos que transmitem o tacto, o calor e a dor, sendo cada um destes receptores sensível a um estímulo específico. (...) Numa visão semelhante Goldschneider (1920) desenvolveu outro modelo de dor chamado teoria do padrão, sugerindo que os padrões dos impulsos nervosos determinavam o grau de dor e as mensagens da área ferida eram enviadas directamente para o cérebro através destes impulsos nervosos. Portanto, estes três modelos de dor descrevem a dor do seguinte modo:
  • Os danos nos tecidos provocam a sensação de dor.
  • A psicologia só está envolvida nestes modelos relacionados com a consequência da dor (ex: ansiedade, medo, depressão), não tem qualquer influência causal.
  • A dor é uma resposta automática a um estímulo externo. Não há lugar para a interpretação ou moderação.
  • A sensação de dor tem uma única causa.
  • A dor foi classificada como dor psicogénica ou dor orgânica. A dor psicogénica era considerada um produto da mente dos doentes, rótulo dado à dor quando não se encontrava nenhuma base orgânica. A dor orgânica era considerada como dor verdadeira, rótulo dado à dor quando podia ser claramente vista uma lesão.

A Psicologia nas teorias da dor

Ao longo do séc.XX, a Psicologia viria a desempenhar um papel importante na compreensão da dor: a)Observando que os tratamentos médicos para as dores só funcionavam para o tratamento de dores agudas (de curta duração) e nao das crónicas (longa duração), concluiu-se que havia mais alguma coisa envolvida na sensação de dor que não estava incluída nos modelos simples de resposta ao estímulo. b) Observou-se que indivíduos com o mesmo grau de lesão dos tecidos diferiam nos seus relatos da sensação dolorosa e/ou respostas dolorosas (II Guerra Mundial). Beecher (1956) sugeriu que isso reflectia que o significado do ferimento desempenha um papel na experiência de dor; para os soldados, o ferimento tinha um significado positivo, pois indicava que a sua guerra tinha terminado. Este significado mediava a experiência da dor. c) A dor do membro-fantasma. 5 a 10% dos amputados têm tendência a sentir dor no membro ausente, que pode piorar após a amputaçãoe pode continuar após a cura completa. A dor do membro-fantasma não possui nenhuma base física, pois o membro está ausente. Nem todos a sentem eos que a sentem não a experimentam no mesmo grau. Conclusão: há variações de dor entre os indivíduos.

Teoria do portão de controlo da dor

Melzack e Wall (1965, 1979, 1982) desenvolveram a teoria do portão de controlo da dor, numa tentativa de introdução da Psicologia na sua compreensão. Sugere que, embora a dor possa ainda ser compreendida em termos de uma via estímulo-resposta, esta é complexa e mediada por uma rede de processos interactivos. Assim, esta teoria integrou não só a Psicologia no tradicional modelo biomédico da dor, como descreveu não só um papel para as causas e intervenções fisiológicas, mas também para intervenções e causas psicológicas.

Entrada de informação no portão

Melzack e Wall sugeriram que existia um portão ao nível da medula espinal que recebia informações das seguintes fontes:

  • Fibras nervosas periféricas - o local da lesão envia para o portão informação sobre a dor, pressão ou calor.
  • Influências cerebrais centrais descendentes - o cérebro envia para para o portão informação sobre o estado psicológico do indivíduo, podendo reflectir o seu estado comportamental (ex: atenção, foco na fonte de dor), o estado emocional (ex: ansiedade, medo, depressão), as suas experiencias ou auto-eficácia anteriores (ex: "já tive isto antes e sei que vai passar").
  • Fibras longas e curtas - estas fazem parte da informação relativa à percepção da dor.

Saída de informação no portão

O portão integra todas as informações destas diferentes fontes e produz uma saída de informação. Essa informação que sai do portão é enviada para um sistema de acção de que resulta a percepção da dor. Assim, o que abre o portão - quanto mais aberto está maior é a percepção da dor - são factores físicos, emocionais e comportamentais. Por outro lado, o que fecha o portão, reduzindo significativamente a percepção da dor, segundo Melzack e Wall, serão factores físicos, emocionais e comportamentais - embora no primeiro caso negativos, neste positivos.

Os factores psicossociais na percepção da dor

A teoria do portão de controlo da dor foi um desenvolvimento de teorias anteriores na medida em que permitiu a existência de variáveis mediadoras e realçou a percepção activa em vez da sensação passiva. A teoria do portão de controlo e as subsequentes tentativas de avaliar as diferentes componentes da percepção da dor reflectem um modelo dos três processos da dor. Os componentes deste modelo são os processos fisiológicos , subjectivos-afectivos-cognitivos*** e comportamentais. Os processos fisiológicos envolvem factores como lesões de tecido, libertação de endorfinas e mudança no ritmo cardíaco.

  • *** Processos de aprendizagem: 1) Condicionamento Clássico 2)Condicionamento Operante
  • Ansiedade
  • Neurose
  • Estado Cognitivo
  • Processos Comportamentais

Desenvolvimentos recentes na teoria da dor

Tem aumentado o interesse pelo papel das cognições da percepção da dor. A investigação tem enfatizado particularmente o papel da auto-eficácia na percepção e redução da dor. Turk (1983) sugeriu que uma maior auto-eficácia relativa à dor podia podia ser factor importante na determinação do grau de percepção da dor. Além disso, o conceito de locus de controlo da dor foi desenvolvido para enfatizar o papel das cognições individuais na percepção da dor (Manning e Wright, 1983; Dolce, 1987; Litt, 1988). Nestes modelos, o papel dos estímulos no mundo exterior é menor e a dor é cada vez mais considerada uma consequencia do autocontrolo e da auto-regulação. Daqui que o controlo e redução da dor sejam discutidos em termos de estratégias cognitivas. (...)"

in "Psicologia da Saúde"

Jane Ogden (1999)

terça-feira, setembro 20, 2005

Pelourinho

Um ano!
O Tempo que não recuou e nos obrigou a prosseguir, empurrados pelo vento e pela chuva de um Inverno dificil... A música que nos uniu e que nos cola ainda, pretexto para ficar! Coisas boas que já marcaram Passados e Presentes. Chibatadas e afagos e recuos e avanços. Mais um homem importante que fez a diferença, que deu o que nao tinha e nao levou nada com ele!
Um ano!
Meses de cumplicidade e de ternura, porque há amigos que nascem na palma da mão, ou na faísca dos olhos. Nunca se deixa de ser amigo, quando não se viram as costas e nos deixamos ficar a velar o sono de quem tem medo de dormir! Sempre a querer estar a altura - mea culpa de quem é exigente faço eu aqui e agora... não saber parar é grave! Quero sempre mais e às vezes quero o que já tenho!
"Estou orgulhoso de ti" disse ele com os olhos a faíscarem de certezas.
Um por-do-sol de testemunha. Um frio gélido com a alma quente. O bem que me fizeste. O bem que te quero. O bem que gostava de te fazer...
Agradeço de olhos baixos e a alma encolhe-se de tanto carinho.
Obrigada por acreditares em mim. Obrigada por seres tu. Tão parecido comigo! De quem me orgulho por não me julgar - o caminho mais fácil de quem não quer perder tempo a investir...
Um ano!
O primeiro do resto das nossas vidas...
Não bastam as palavras.
Silêncio...

21/09/2005

quinta-feira, setembro 15, 2005

O OUTONO (Englyn)

"Por montes e vales, ravinas e prados
Ressoa o pranto da terra
Em despedida do Verão ameno.

Que mais podem fazer os altos ramos
Das frondosas árvores?

E como pode o pranto cessar?"


Thomas Nicholson (séc. XIX)

O fazedor de Vida!

"Até hoje só chorei duas vezes na vida: uma no falecimento de um grande amigo e mentor, outra na morte do meu pai! Aí jurei que só voltaria a chorar pela morte da minha mãe... Ela roubou lágrimas que eram para a minha mãe!..."



Às vezes a vida tropeça em nós!
Ou nós tropeçamos nela.
Porque não há coincidências, e tropeçar estava planeado num plano infinito qualquer...
De vez em quando tropeçam em nós.
Não acredito em coincidências, mas Destino talvez seja apenas a decisão certa na hora certa, ainda que só se saiba depois, quando as ondas recuam e a maré baixa. Talvez tudo esteja decidido e, ao nascer, a vida se faça ao contrário; revive-se o vivido! Assim sendo, morte é apenas renascer noutro plano! Vive-se como se pode, não como queremos ou gostaríamos que fosse, ou como devia ser... E morre-se também como se pode.
À meses atrás, tropeçaram em mim!
Alguém que começou por estar no sítio certo à hora certa. Depois começou a atrasar-se, a chegar fora de horas; sempre... Fiz um amigo que se atrasa sempre!
Um dia o amigo está comigo ao telefone quase cinco horas seguidas. Desiludido, porque alguém especial o tinha traído de forma incompreensível. Ele entendera a situação e perdoara! Mas não compreendia...
A verdade é que passamos metade da vida a tentar compreender tudo, num acto de boa-vontade contraditório. Porque viver é ter de decidir depressa. Nem que não se compreenda. Sente-se e decide-se. Só depois é que saberemos - ou não - se estivemos bem nesse papel de juíz, de fazedor da vida. Só depois! Tanta coisa que não entendemos ao viver...
Alguém famoso, disse na hora da morte: "Meu Deus, que foi que perdi ao viver?"

Sempre achei que a idade da inocência começava no dia da maior desilusão, daquela que nos tira o folêgo e nos faz ficar na cama sem vontade de ir brincar no Mundo. Aí começa a idade adulta, no dia em que temos a certeza que nada voltará a ser como antes!!!! O acreditar é a única coisa que nos poderá salvar, a tábua de salvação que nos dará ânimo para esperar a maré... ainda que as algas nos abracem as pernas e os pés e os dedos. Quando se desacredita, jamais voltamos a ser pequeninos. Passamos a ser mais um porque a crença foi-se, a fé era o anzol no engodo das noites sem sono; um isco difícil num mar agitado por ventos de través. Quando se desacredita, até juramos que os gatos perdem as asas à medida que envelhecem! E porque sim...


Parado a olhar.
A sentir.
Na cripta fria.
Enregelados dedos e alma.
A olhar.
A Primavera que nos vai fazer falta
e o Inverno que nos vai aquecer.
Com a dádiva na mão e um olhar estático
conveniente
adequado
dele.
A perda...

A posse
que se esvai na camisa encharcada.
Ela que foge sem coragem de ficar.
Raptada pela incompreensão.
Um momento de dor.
O fim do Verão e o começo do Outono.
Quente-frio que resvala num prato de sobremesa azeda...
O depois.
Dantes era assim...

Deus no alto e vivam os pobres de boa-vontade!
O homem certo no momento errado.
O jogo adiado.
Azar ou sorte.
Vida ou morte.
Noite e dia.
A infinita grandeza da pequenez!
Decidir é preciso.
A alma que balança sem opção.
O botão.
A mão...
A dor de ser maior!!!!


(Para um amigo especial, um olhar especial!)

segunda-feira, setembro 12, 2005

Os Dois Cúmplices do Prazer: o Desejo e o Erotismo

"A sexualidade humana é uma sexualidade errante: incerta quanto à sua origem, indefinidamente disponível quanto ao seu objecto, o seu único fim, a procura do prazer especifica a pulsão sexual. Noutros termos (mais prosaicos): no domínio da sexualidade todos os meios são bons para se alcançar o prazer, mesmo os piores. Este vagabundear da sexualidade é o mesmo que o da subjectividade, aberta a todos os possíveis.
O célebre aforismo de Freud, segundo o qual "o sonho é a realização de um desejo", mergulha-nos no âmago da subjectividade. Com efeito, que há de mais subjectivo que um sonho?
A linguagem corrente opõe sonho e realidade: diz-se até de uma pessoa que ela toma os seus desejos pela realidade, etc. Assim, desejo e sonho estão do mesmo lado, o não real, em oposição à realidade objectiva: o senso comum e a psicanálise estão de acordo quanto ao carácter eminentemente subjectivo do desejo.
Se o estudo da psicanálise concede ao desejo uma dignidade e uma realidade muito particulares, o senso comum deixa transparecer uma nota pejorativa, rica de ensinamentos. O desejo: é o sonho, o impossível, a origem de miragens, e tem por função o logro, etc. Tomar os seus desejos pela realidade é o cúmulo da inconsequência, da ingenuidade; é mesmo loucura. Temos assim tres vizinhos: o desejo, o sonho e a loucura.
Uma espécie de intuição leva-nos a considerá-los como constituídos por um elemento comum, caracterizado pela sua imaterialidade, pela sua irrealidade, embora existam segundo uma outra realidade. (...) "

"Para Uma Sociedade Erótica" (1972)
Bernard Muldworf
"(...)
Acaso não nos surpreendeu nas áticas estrelas funerárias a contensão dos gestos humanos?
Não pousavam amor e despedida nos ombros tão levemente,
como se fossem feitos de matéria diferente da nossa?
Recordai-vos das mãos, suavemente apoiadas sem pressão,
ainda que nos torsos haja força.
Senhores de si, cientes: isto é o nosso limite,
isto é nosso - tocarmo-nos assim;
os deuses é que nos comprimem com mais força.
Mas é próprio dos deuses.

Ah, pudéssemos nós encontrar algo humano,
puro, contido, simples,
uma estria nossa de terreno fértil, entre rios e penhascos.
Porque o nosso coração nos excede tal como neles.
E não podemos segui-lo com os olhos em imagens que o apaziguem,
nem em corpos divinos em que, maior , se contém."

"As Elegias de Duíno"
Rainer Maria Rilke (1875/1926)

domingo, setembro 11, 2005

Um Adeus menor...

Tenho uma varanda e estou a olhar o mar, sob um sol escaldante de Setembro. É o fim do Verão e o fim de parte da minha vida. Todos os dias se morre um bocadinho mais. Todos os dias temos um bocadinho mais de medo. Todos os dias enlouquecemos uma e outra vez.

Há semanas que faço luto.
Por uns e por outros! Por mim...
De vez em quando arrancam-nos à força um pedaço de nós; outras vezes somos nós que o damos sem retorno. Vezes demais somos apenas o que os outros querem que sejamos.
Chamam-nos importantes e acreditamos. Chamam-nos grandes e especiais e indispensáveis; usam expressões como "para sempre" e um dia acordamos a acreditar que o somos. Depois queremos mais, e quem nos fez foge, e quem nos teve dispensa-nos e surge o Amigo e a Amizade. Tudo em nome de um Adeus menor.
Sou gente. Com o coração do lado esquerdo. Falho porque dou tudo e quero mais. Falho porque sinto tudo demais e sofro demais. Ou tudo ou nada! Gosto de pensar que sou honesta, embora a palavra tenha laivos de paleolítico nos dias que correm. Mas sei que o sou! Faço amigos para sempre e nunca lhes viro as costas; raramente hasteio a bandeira do "sou teu Amigo", no entanto. Quem me gosta não foge de mim, e eu não preciso de lhe lembrar.

Hoje estou de luto por amigos que foram e não vão voltar, e não sei quando partiram porque não se despediram. Qaundo viajo mando postais aos amigos e trago-lhes um souvenir; fico em pulgas para partilhar as descobertas; desejo muito voltar a casa e sentir o carinho de quem me conhece a olhar-me nos olhos

Estou de luto!
A alma mirrada.
Os olhos tristes.
As mãos vazias.
As palavras ocas que não fazem festas na cabeça...
Há sentimentos que não se descrevem com palavras.
Há coleiras de cão que se transformam em cadeados em volta do coração, no lado esquerdo da gente...
Há pessoas de quem nunca se recupera.
O único homem a quem eu beijava as mãos. Como se fosse Rei. Ou meu Dono. Para sempre! Na imortalidade de um amor maior!
Meu!

"...Como não sei rezar só queria mostrar o meu olhar..."

quinta-feira, setembro 08, 2005

Acto de amor e de entrega

"(...)
Desapertei os botões das calças e baixei a delicada peça de roupa, deixando nu o seu soberbo traseiro branco. Naquele momento parecia mais bonito do que nunca, voltado para cima, emoldurado na parte superior pelas dobras brancas de neve e por baixo pelo azul-claro das calças debruadas com renda. Olhei para ele deliciado, com os olhos brilhantes, e o meu pau tão rijo como um atiçador, pensando ao mesmo tempo que tão bonitas bochechas eram mais próprias para receberem os suaves beijos de um amante do que os beijos cortantes de um chicote. Depois passei a minha mão várias vezes pela superfície branca de alabastro da sua pele macia e fresca que os meus golpes em breve tornariam vermelha, áspera e quente. Mas não sentia piedade e, levantando o chicote, fi-lo silvar no ar, dizendo:
- Agora, Frances, vou flagelar-te severamente.
Ela estremeceu e contraiu as bochechas do traseiro até a fenda entre as meias-luas de carne roliça parecer uma linha fina.
- Oh, Charley... - exclamou ela num tom de medo - ...não sejas muito severo comigo!
Baixei o chicote com um golpe rijo sobre o seu traseiro despido, fazendo que imediatamente a sua pele delicada e branca ficasse com várias riscas vermelhas; ela encolheu-se convulsivamente, a sua carne estremeceu, soltou um abafado grito entrecortado e enterrou a cara na almofada do sofá. Uma vez e outra e outra descarreguei o chicote com força sobre o seu traseiro encrespado, que se foi tornando cada vez mais vermelho a cada golpe e também salpicado de manchas vermelho-escuras provocadas pelas duras pontas das franjas do chicote; ela atirou a cabeça para trás com um salto, de forma que o seu comprido cabelo se soltou, e começou a gemer dolorosamente. Continuei a flagelá-la lentamente, pousando o chicote em diferentes zonas; os longos e escuros vergões surgiam por todo o lado na sua carne que tremia e ela começou a gritar com dores. O prazer da crueldade tomava agora total conta de mim e, sem dar atenção aos seus gritos, continuei a flagelá-la. Ela agitava-se de um lado para o outro tanto quanto os laços que a atavam lho permitiam, arqueando os rins num momento e no seguinte espalmando-se em cima do sofá numa vã tentativa de escapar aos cortantes golpes do chicote.
Voltando a cabeça, olhou para mim por cima do ombro com uma expressão de súplica nos olhos dilatados pelo medo, com os rolos desfeitos do cabelo escondendo parte do seu rosto distorcido pela dôr; as lágrimas corriam-lhe pelas faces vermelhas e os lábios tremiam-lhe de angústia.
- Oh, pára! Pára! - balbuciou entre os gritos - Eu... não... consigo aguentar! Oh!... Oh!... Não... aguento! Oh... Tem... piedade... de... mim! Oh... estás... a cortar-me... em pedaços! Oh! Oh! Ah!... Oh!...
Parei uns instantes. Tinha estado a flagelá-la da esquerda para a direita e dei então a volta aos sofá para a flagelar da direita para a esquerda, para as duas bochechas do seu traseiro receberem igual castigo. Ela pensara que a flagelação tinha acabado mas enganava-se e, quando me viu levantar novamente o chicote, soltou um longo grito de terror, implorando-me nos tons mais causadores de dó que não a flagelasse mais.
Voltei a aplicar o chicote no seu marcado, vermelho e dorido traseiro; os seus gritos tornaram-se cada vez mais fortes - fora uma sorte eu me ter lembrado de mandar as criadas saírem de casa. Debatia-se e contorcia-se com maior violência e torcia-se e estremecia, gemia e gritava, rogava e implorava misericórdia.
Parei e, atirando o chicote para o chão, inspeccionei o traseiro da rapariga. Toda a superfície desde os rins até às coxas estava coberta com uma rede de vergões vivos e toda salpicada de manchas vermelhas, havendo algumas gotas de sangue em cada uma das bochechas, nos sítios em que a pele fora rasgada. Não a tinha flagelado com uma extraordinária severidade, mas a sua pele era tão delicada que facilmente se ferira com o látego e ela sofrera profundamente. (...)"

"Frank e Eu"
autor anónimo

terça-feira, setembro 06, 2005

O Sexo

"...Que ele também fez! Indistintamente: quer com ele, com ela, com ambos... Que ele também fez, sem o saber, talvez; ou talvez não...

Criou o sexo entre eles na primeira vez que tentou evitá-lo... logicamente.
Dessa vez os outros dois não estavam sentados embasbacados em cadeiras, não havia tempestade, mas precisavam já de estar perto e longe e perto de novo. E ele sentiu também essa necessidade - estar perto da vida que não conheceu e da filha que não teve! Então, tentou sair do quarto onde todos existiam (e só aí) - mas não conseguiu, ficou preso à vontade de ficar num qualquer sítio com alguém - fôra para isso que se mudara, depois de ter enlouquecido. Ficou no quarto a ouvi-los. Só a ouvi-los, e no entanto a entrar neles, devagarinho primeiro e cadenciadamente depois, a ficar neles, a gostar deles, a emaranhar-se numa teia de desejo que bem podia ser outra coisa qualquer, que importava?
E como dessa vez não teve medo, não conseguiu dormir.
Mas não precisava de dormir, agora... só de aprender o que era novo... e precisava de pedir que lhe ensinassem se ali havia sonho, e como fazer para sonhar."

"A Maçã de Eva"
ML
ORGASMO, sm (fr.orgasme; ing.orgasm).
Ponto culminante do acto sexual; no homem, coincide com a ejaculação. (adj: orgásmico, orgástico)

quarta-feira, agosto 31, 2005

"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto -
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."

Poesias, Álvaro de Campos
(Fernando Pessoa)

terça-feira, agosto 30, 2005

Porque os seixos rolam para o mar e perdem-se na maré alta, para sempre!

Ando afastada daqui e da vida e de mim e dos amigos.
Peço desculpas a todos!
Descobri que na vida tudo o que se pode fazer é tentar!
Nesta fase da minha existência, tento sobreviver - primeiro porque sou cobarde demais para desistir, depois porque"viver é preciso!"
Ultimamente, descobri que as dores são todas iguais, independentemente da causa - o efeito é que doi, lateja como membro decepado por uma lamina afiada! O membro vai-se mas a vontade de o mover está no cérebro e é ele quem comanda os actos, reflexos ou nao!
A minha dádiva ao Mundo não é reflexa - é um prazer dar-me e um prazer receber o amor e o carinho e as dádivas de gente e gente e mais gente! Quando me dão ódio e mentira e desonestidade, morro um pouco e de cada vez doi mais!
Escusado fingir que ando feliz!Não ando, e os meus leitores/amigos/críticos que me ajudam aqui nas horas boas e más a dizer k existo, sabem-no certamente!
Desta vez, a desilusão foi na prática de BDSM, nas entregas que não têm retorno, mas se fosse na vida de todos os dias era igual
Uma dor é sempre uma dor!
A da chibata desaparece com agua e sal.
A da vida nunca passa, nunca cicatriza!
Peço desculpas, porque lamento ter-me dado demais a quem nunca me quis ter e por isso ter roubado aqui um pouco do que vos era devido! Lamento deveras...
Tudo o que se pode fazer é tentar!
E eu sem duvida que me esforço de verdade para ser uma pessoa melhor!
Porque os seixos rolam para o mar e perdem-se ai na maré!
Para sempre!

quinta-feira, agosto 18, 2005

Submissas e Doms Descartáveis!

Por vezes surpreeendo-me com a receptividade dos meus leitores a este despretencioso blog!
Não raramente suregem comentários que me deixam a pensar! Por ser este o caso e por achar que há coments que merecem passar a posts, abro aqui a excepção que confirmará a regra sempre que o ache necessário, não desmerecendo qualquer um dos outros posts! Porque este tema é controverso mas muito constante, aqui seguem as respostas ao post "Como se Reconhece Uma Entrega?"...


TheVanilla:
«A linguagem é uma fonte de mal entendidos» - Saint Exupéry

«O Homem que vê mal vê sempre menos do que aquilo que há para ver; o Homem que ouve mal ouve sempre algo mais do que aquilo que há para ouvir» - Nietzsche

Na confusão do que sentimos, ouvimos e vemos contrabalançado com o que queremos (ou precisamos) sentir, ver e ouvir, que opções temos?Opto sempre pelo que sinto. A linguagem pode de facto ser uma fonte de mal entendidos, mas é-o especialmente porque poucas pessoas se esforçam por ouvir com o coração/alma. A alma... esta coisa que nos faz diferentes dos outros animais e que nos devia permitir reconhecer uma ENTREGA sem que fosse preciso uma palavra. Não deveria bastar para tanto os sinais de entrega, aqueles que mesmo que não se vejam se sentem? Porque é que quase nunca chega o que se diz sem palavras?! Porque é que nem depois de tentarmos dizer as palavras certas (quais serão as palavras certas????) parece chegar?!As pessoas são animais complicados. Pelo menos as que respiram com alma.«Muitas vezes, a alma parece-me apenas uma simples respiração do corpo» - Marguerite Yourcenar

vanderdecken3 :
Como se reconhece uma entrega? Não sei como se reconhece, mas reconhece-se. Acho que tens razão quando escreves que a entrega é interior mais do que exterior «esotérica» mais do que «exotérica», se quisermos exprimir-nos (o que até é apropriado) em termos espirituais.Que a entrega é facilmente reconhecível, e que é uma coisa interior, prova-o um fenómeno que não é de modo nenhum raro; o do escravo que «pune» o seu senhor e se assenhoreia dele cumprindo escrupulosamente todos os rituais da entrega, mas não se entregando de verdade. Qual é o senhor que não se apercebe disto e que não é afectado por isto? O escravo finge que finge a entrega para deixar bem claro que não se está a entregar; e o senhor sabe que está a ser punido porque pela sua parte também não se entregou.A entrega só não se reconhece por cegueira ; e entre senhor e escravo, ou estão ambos lúcidos, ou estão ambos cegos. Não há meio termo.

MissLibido:
Recentemente, soube de uma história que envolve um Dom e uma sub numa relação D/s de um ano de sessões esporádicas. O Dom sempre incentivou o lado SM da relação, a submissa sempre o acompanhou numa entrega total e, um ano volvido, ele desiste dela em prol duma submissa que aprecia hard SM. Apesar do secretismo da relação e do factor distância, era visivel a quantos conheciam o par a entrega da submissa em questão, que o Dom nunca questionou mas sempre reconheceu em teoria. Quando resolve escolher outra sub, sem qualquer bom motivo aparente, a sua primeira sub questiona-o, amargurada: "como vai fazer para me devolver a minha entrega?"Será legítimo um Dom fazer a sua sub avançar numa via por si escolhida e de repente "lançá-la as feras", apesar da entrega? Uma entrega devida e reconhecida não obriga a uma certa ética de dever?

vanderdecken3:
«Como vai fazer para me devolver a minha entrega?»Esta é uma pergunta terrível, que eu nunca ouvi e espero nunca ouvir na minha vida. É claro que a entrega da escrava obriga a uma ética do dever. Se não for um dever do Senhor para com a sua escrava - que por definição não tem direitos - é certamente um dever do Senhor para consigo mesmo.Eu, sinceramente, não sei o que faria na posição do dominante que tu referes. Ou encontrava uma maneira de devolver à minha submissa a sua entrega, ou, se não a encontrasse, não lha devolveria, e obrigaria a minha segunda submissa a aceitar a presença da primeira.O que me colocaria, se a segunda me obedecesse, perante um novo problema: pode um dominante ter duas submissas ao mesmo tempo?É claro que pode, dirão alguns. E até deve, dirão os mesmos : que melhor maneira haverá de deixar claro a uma escrava que ela é que pertence ao seu Senhor, e não ele a ela, do que obrigá-la a uma fidelidade à qual ele não está obrigado? Eu próprio cheguei uma vez a tentar adquirir uma escrava enquanto tinha outra. Não o consegui, e por isso não sei qual teria sido o resultado de ter duas escravas ao mesmo tempo.Hoje, que não tenho nenhuma, não estou para aí virado. Estou de novo à procura duma escrava, mas só de uma. Há alguma coisa em mim, que não sei muito bem o que é mas de que tenho muito a certeza, que se revolta contra a ideia dum harém.Acho que objectivamente o harém teria sido a melhor solução para o dominante que referes, e concebivelmente também para as duas submissas envolvidas; mas tudo depende dos afectos em jogo, e esses não sei quais são. Para mim, na fase a que cheguei, o harém seria uma solução emocionalmente impossível ; teria que escolher entre as duas submissas ; e, tendo que escolher, escolheria provavelmente aquela a quem não tivesse que devolver a entrega.


MissLibido:
O seu texto é contraditório: se por um lado diz k tem de haver sim uma ética do dever, por outro concluiu k escolheria aquela a quem não tivesse de devolver a entrega! Uma submissa descartável não deixa de ter alma, nem deixa de ser menos gente por isso... assim como facto de o Senhor a fazer descartável, por analogia faz dele também um Dom descartável! A ética do dever diz-me que se há respeito na entrega da submissa, espera-se dever no comportamento do Senhor, preparando-a antes para uma liberdade forçada. Por outro lado, quando um Dom escolhe uma submissa a quem não tenha de devolver a entrega, reduz a uma banalidade o conceito de D/s: não faltam relações sem entrega fora do BDSM, em que continuo a acreditar numa Verdade maior que não obrigue à representação. De facto, a primeira submissa foi preterida, mas a unica realidade constatada foi o facto de o seu Dom ter passado a ser mais um homem a precisar da Mentira para se afirmar no Mundo. E mais do que a perda dele, o sentir que ele não era especial e que foi ela que o fez especial dentro dela, merecia certamente um pouco mais de cuidado na hora da fuga... Onde não há entrega de ambas as partes há apenas uma longa masturbação sem orgasmo. Quem não sabe receber uma entrega nunca chega a Dominar, ilude-se apenas com momentos sem nome dos quais não terá de devolver a entrega...