sexta-feira, outubro 14, 2005

Nuvens e contrastes!

Perguntou-me se eu gostaria de chorar numa sessão...
Hesitei e disse que não!
Antes, como me tivesse tirado fotos em sessões anteriores, questionou-me se tinha ou não gostado de me ver nas imagens, nos momentos no Tempo, encarcerados por uma simples máquina fotográfica...
Confessei que demorara muito a decidir se as quereria ver ou não, receosa de a terrível verdade me saltar aos olhos como um morcego na noite, implacável, a colar-se na retina! Para sempre...
Porque durante um encontro entre um Dominador e uma submissa, o Tempo é adiado, a realidade transfigura-se, e o que é, deixa de ser... E a verdade é que na primeira vez que me vi imortalizada nas provas desses encontros senti-me nua, assustou-me ver olhos cerrados e mamilos tumefactos, boca torcida, nádegas marcadas a vergasta, e mãos crispadas.
Ninguém, nunca, vai saber como uma entrega em BDSM se faz, excepto quem se dá ao prazer da dor; quem se deixa ir na correnteza do sentir.
E a cara... o rosto que deixou de ser o meu em esgares de uma dor anunciada e nunca adiada! É o semblante que me apavora - como uma revelação jamais esperada, trazendo à superfície o quê? O melhor da alma, ou o pior dos sentidos?
Tudo é demais numa sessão, tudo é exagerado, é puxado, é levado aos limites... é passado dum lado para o outro da barreira do correcto; Bem e Mal fundem-se, o Mundo faz o pino, tudo muda de lugar...
Triste é sair do casulo das quatro paredes cúmplices para uma existência sem nada de novo, sem contrastes, sem nuvens, com tudo no sítio, a pedir por favor um dia atrás do outro. Patético é subir o colarinho para esconder as marcas. Fantástico é saber que depois de entrar no carro e acelerar vinte minutos para longe do ninho das sensações, o Dominador vai dizer: "Conta-me tudo!"
Porque já ficou para trás, já fechamos a porta do quarto e já entregamos a chave, deixando rugas nos lençóis, mas trazendo as marcas no corpo, na alma. O Dominador cansado de aplicar a sua justiça, satisfeito de ser Senhor no seu mundo privado. A submissa a latejar por dentro e por fora, olhos brilhantes, feliz por fazer parte do mundo do seu Mestre, de quem a orienta para novos prazeres inqualificados, incomensuráveis, inominados... numa corrida contra conformismos e rótulos!
Acaba por ser uma metáfora de vida, resumida a umas horas num quarto de dormir - o Bem e o Mal, numa luta corpo a corpo, em que nunca se sabe se vale a pena, até ao momento de ir embora... Difícil é quando se abandona o local mas se permanece de quatro, nua, aos pés da cama. Fascinante é nunca se chegar a saber quem ganha a luta - se o Bem se o Mal. Mas a consciência de que as marcas nunca sairão da pele do sentir, essa realidade sem fundo, como um poço, não tem nome...

Agora que o Tempo passou e a chave foi entregue de vez, posso adiantar que não valeu a pena!
Nem sempre as entregas são reais de ambos os lados.
Nem sempre a Verdade origina eco.
Este texto foi escrito em Dezembro de 2004.

ML

1 comentário:

Vanderdecken disse...

«Rien n'est beau que le vrai». E este post está tão carregado de verdade que assombra pela sua beleza. Aposto que a autora é tão bela no prazer e na dor como nos momentos da mais luminosa serenidade...