domingo, setembro 25, 2005

A DOR O ODOR O AMOR

Um cheiro acre que rasteja
de joelhos no chão
e a nuca arrepiada
pelo silvo do punho erguido
dos olhos amarelos do instinto
que estarrecidos urram a cada golpe mudo.
Um toque como um trovão
a porta que bate com um baque seco de fogo de artifício
e o ritmado troar do coraçao em sobressalto,
o sangue que parece água em queda sobre rochas mortas na montanha.
As mãos em grilhetas de entrega.
A dor, o odor.
A adrenalina que escorre no suor
o calor, a dor, o amor, cor.
Vermelho-vivo nas espaldas dadas à sorte
à decisão do protector que acaricia em silêncio, com o látego erecto.
Momentos como dias de tempestade.
O conformismo da revolta de quem sai dali
para um mundo distante
só seu, único,
um sotão de solidão ali ao lado.
Silêncio.
O odor que se confunde com os olhos a rebentarem
cheios de uma coisa sem nome,
repletos de uma manhã azul
com verdilhões em voo.
Os ninhos que cabem na palmas das mãos
separadas pela cruz...
as mãos que ela já teve
mas que ofereceu em sacrifício
para acordar a noite!
O cheiro!
A dor...

25/09/2005
ML

3 comentários:

Maria vai c'as ostras disse...

Lindíssimo, inteligente Blog. Gostei...É bom ver que o mundo D/s também é uma realidade no nosso país, e que não se está só. Vou visitar mais vezes.

thevanilla disse...

A natureza colocou o género humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer. Somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na realidade faremos. Ao trono desses dois senhores está vinculada, por uma parte, a norma que distingue o que é recto do que é errado, e, por outra, a cadeia das causas e dos efeitos.
Os dois senhores de que falamos governam-nos em tudo o que fazemos, em tudo o que dizemos, em tudo o que pensamos, sendo que qualquer tentativa que façamos para sacudir esse senhorio outra coisa não faz senão demonstrá-lo e confirmá-lo. Através das suas palavras, o homem pode pretender abjurar tal domínio, porém na realidade permanecerá sujeito a ele em todos os momentos da sua vida.

Jeremy Bentham, in 'Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação'

thevanilla disse...

Por mera ausência de tempo, faltou-me dizer o essencial... Gostei muito do poema. Fez-me pensar na citação anterior que coloquei pois parecem-me palavras fruto do «domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer». Cada um de nós é, à sua maneira, de facto, governado por estes dois 'senhores'.