sábado, abril 01, 2006

O OUTRO LADO DA FANTASIA

"Os Dominadores rodearam a cama, um pela direita outro pela esquerda.
A minha ordem era manter os olhos no tecto, mas abertos...
Na sala, um mínimo arrastar de correntes lembrava-me que o meu Dono não era meu naquele dia, que alguém o tinha que não eu; suspirei sem ruído. Era aquela a parte difícil - não o saber ali, para tomar conta de mim e, pior, tendo prazer com alguém que não eu. E se ele gostasse mais das escravas dos Senhores que me tinham à disposição? Se descobrisse que, afinal, eu era dispensável porque ele descobrira novos prazeres, novas carnes, novos olhos de entrega cheios? Não é fácil partilhar um Dono, porque a alma se encolhe de medo de o perder - a coleira dá-nos deveres, a nós submissos, mas direitos também, e o maior de todos é o de esperar que o nosso Dono continue nosso, porque entrega é uma rua de dois sentidos; a dádiva é diferente sem dúvida, mas está lá como moeda de troca num compromisso de gente adulta, maior.
Atenta às manchas que o tecto não tinha, senti-me desconfortável por dois completos estranhos me estarem a observar como gaviões - o mais alto, DomX, do meu lado direito, e DomY, mais pequeno e com menos presença, no lado oposto do meu leito de usufruto. Esperava agora o lenço branco que cai a dar a partida - não devia falar, nem queixar-me, nem questionar nada que os dois Senhores intentassem fazer-me, conhecia bem as regras e não era de meu feitio contrariá-las. Iria estar à altura do acontecimento, não desonraria a educação que o meu Dono me dera durante meses, seria a escrava ideal para os Seus amigos, realizar-me-ia na causa e no efeito, dando prazer a quem me tinha como Sua!
Senti um indicador espetado deslizar desde o meu ombro direito até ao dedo grande do mesmo pé, correndo em círculos em redor da mama direita, da anca e das coxas - o momento chegara...
Ouvi na sala um grito abafado e fiquei triste. Triste só por dentro. O tal encolher da alma.
Concentrei-me no que era esperado de mim - estar, para agradar!
O Dom da esquerda soltou-me os punhos da coleira e abriu-me os braços em cruz, murmurando algo que não entendi, mas que percebi ser pra o DomX; voltei a estar imobilizada, mas pelo menos tinha os braços esticados e tornava-se mais fácil. Crispei as mãos fazendo activar o sangue, preguiçoso da espera, indolente, malandro - o maior inimigo de um submisso numa cena de BDSM...
Um apertão súbito no mamilo esquerdo fez-me estremecer com a dor e a surpresa.
Percebi que ia ser partilhada em simultaneo e não em sequência. Esperava aguentar... o Meu Dono merecia.
Subia agora a mão do DomX, espalmada, grande, vagarosa, detendo-se num nicho das coxas, sem tocar o sexo.
- Obviamente que não te é permitido vir sem pedir, nem te queremos molhada sem ordem nossa.
- Sim, Senhores.
Novo esgar de dor, mudo, silencioso, enquanto o mamilo esquerdo era espremido pelo Dom que não era alto. Fixei o tecto com mais vontade, enquanto as minhas caretas de uma certa espécie de dor contida apareciam na minha face. Por reflexo semicerrei os olhos e uma bofetada fez-me acordar. Não havia retorno... A ordem era ter os olhos abertos, porque era ai que os Senhores viam o que eu sentia, não no corpo, mas no poço dos olhos aflitos.
E o silencio, pesado como chumbo, a cair como uma carga nos ombros que tentavam libertar-se sem êxito; aquele silêncio que parecia o calor de Agosto ao bater a uma da tarde. Talvez fosse o que fazia a respiração mais dificil - aquele silêncio da tumba, semelhante a uma mumificação bem feita, a dar tempo para pensar, o segundo inimigo de um acto de entrega como este. Proibido pensar, só sentir!
A mão direita do DomX parou na minha cara, devagar, a deixar as suas impressões como aviso; afagou-a, sufocou-a, disse-lhe que estava ali para ficar. Do outro lado, surgiram molas como dentes afiados, a enterrarem-se na carne da mama esquerda; desta vez ouvi que aquela mama lhe pertencia e que a iria domesticar. Crispei as mãos e retesei os músculos, mas não fazia diferença - a dor era igual senão pior. Muitas molas e muitos esgares e um ligeiro respirar audível reprimido. E uma pancada seca, de cana, na sola do pé direito, que me fez elevar as ancas sem alternativa; e outra, e outra, e outra, e outra, outra, outra, e o meu sexo a contrair-se em espasmos. E a mão esquerda do DomY a acompanhar-me o pensamento e a descer aos meus lábios, a abri-los, a escancara-los, a prepara-los para serem seus; e a marca é posta, no lábio esquerdo os dentes afiados cravam-se e ficam lá a abanar a qualquer gesto mais abrupto, ou tentativa de... Gemo baixinho e não me consigo concentrar, porque há dores diferentes em cada lado do corpo, agito-me o máximo que posso, que é o mínimo possível - aquela corda esticada no pescoço não deixa.
Agora os Senhores falam entre eles mas não consegui perceber.
Até sentir molas cravarem-se entre os dedos do pé direito, que lateja ainda da cana seca que o domesticou. Salto uns centimetros da cama ao sentir ferver a mama esquerda - há cera a solidicar nela e no mamilo erecto, gemo mais alto e devo ter fechado os olhos de novo, porque mais um estalo traz-me de volta ao tecto branco. Sei que não há nada a fazer, sinto o sexo latejar e sei que não vou aguentar; como se me lessem as ideias, ouço - Cadela, se te vieres sem ordem, são 100 chibatadas.
Mirro por dentro, sinto-me sózinha; quero o meu Dono comigo, a Ele dava-lhe tudo com um sorriso, a estes Senhores só dou o corpo... que já nem é meu. E o silêncio que alastrou à sala, como nevoeiro, que não me diz ao ouvido o que se passará lá. O meu Dono e as escravas dos Senhores que me usam hoje, eu, triste.
Fixo o tecto e prometo-me que estarei à altura, nao me posso esquecer disso, faço um lembrete mental para me abstrair do que me espera. Uma ball-gag ataca-me a boca à traição pelo lado direito do leito do flagelo. Um chicote curto e mais suave cai no meu sexo, arrancando as molas por etapas, depois sobe as mamas e faz o mesmo aos dentes afiados do lado esquerdo. Sem hesitar, uma mão direita enterra-se no meu sexo, tres dedos primeiro, entrando e saindo com a furia de uma maré viva de Setembro, quatro depois e só depois da maré cheia, a mão completa. Arfo e babo-me e tento contorcer-me, mas estou presa na minha vontadee há um amargo-doce que finalmente me faz sentir bem - rendo-me e deixo o corpo levar-me pela mão...
Como tenho mordaça não poderei pedir para me vir, e os Senhores sabem disso; as cem chicotadas são garantidas.
A porta abre-se sem ruído e percebo que o meu Dono entra, ouvindo correntes a arrastar na sua peugada. Ele diz - Continuem, é como se eu não estivesse aqui. - O Dom da esquerda responde - Parabéns pela sua cadela, está bem treinada.
- Também gostei das vossas escravas, mas aquela tem de ser domada, se o posso dizer... - O DomX revirava a sua mao direita na minha vagina e dilatou o punho ao ouvir o meu Dono referir-se à sua escrava; respondeu: - É principiante, mas se a quiser ter uns dias consigo, satisfaço-me com esta sua cadela.
Estremeci. - Vou pensar nisso. - disse o meu Dono calmamente. - Continuem, eu fico a ver apenas.
Pelo barulho das correntes, percebi que ele levou uma das escravas até ao canto direito do grande quarto, ouvindo-o mandar sentar e ficar. Recuou entao e no canto oposto sentou-se na sua cadeira de baloiço onde costumava deliciar-se olhando-me atada ou em sofrimento, sempre sem falar. A cadeira queixou-se com o Seu peso, as correntes fizeram barulho e, em voz baixa, um doce "a meus pés, escrava!". A minha alma secou de novo, mirrou, estalou, rangeu... Eu também, e porque fechei os olhos, voltaram a lembrar-me as minhas ordens. Soltaram-me as pernas e dobraram-nas para trás, até os joelhos quase tocarem na cama. Tiraram-me a mordaça e o meu Dono dirigiu-se a mim - Não quero ouvir um gemido, Minha Escrava, entendido?
- Sim, Meu Dono! - disse, entre baba e gemidos abafados.
Tinha uma spread-bar a impedir-me de fechar as pernas, o sexo estava dorido e latejava de varios pequenos orgasmos, a mama esquerda estalava com a cera seca, a boca estava dorida da gag e era dificil respirar naquela posição. Um paddle acertou em cheio numa nádega e três segundos depois na outra - os Senhores já nao tinham lado, uniram-se aos pés da cama e ouvia-os sorrir e comentar, bem-dispostos, algo que também fez rir o meu Dono. Continuei a sentir o paddle acertar-me durante bastante tempo e tentei não gemer mas nem sempre consegui, no entanto sem grande escarcéu; sabia que o meu Dono gostava de me ver naquela posição e estava contente por O agradar. E eu tinha razão...
- Vem cá, escrava, faz-me feliz! - e as correntes de novo a cantarem. O meu Dono estava excitado e queria uma boca que o aliviasse, eu conhecia-o bem. Voltei a sentir uma sombra sobre o peito mas afastei-a, afinal fora a minha submissão que o excitara...
Desde que os Senhores entraram no quarto tinham-se passado umas duas horas, talvez mais, e a madrugada já estava connosco no quarto. O meu Dono gemeu e a cadeira rangeu mais, um estalido e as correntes a voltarem ao chão. No meu anus entrava agora um dildo sem lubrificante. Ouvi os Senhores rir e o meu Dono a arfar de cansaço dizer "Eu nao menti, certo?". Riram todos e eu senti-me corar! O DomY enfiou-me um dedo na boca e mandou-me chupar. Riram mais ainda... O dildo enterrou-se! Alguém o tirou de uma só vez e o meteu de novo, sem qualquer pressa. As nádegas escaldavam do paddle. Chupava o dedo como se o mundo fosse acabar. As correntes da cadela no canto, sozinha, fizeram um murmurio; o Dono dela perguntou ao meu Dono se podia, e ele anuiu. - Vem cá, cadela! - ela obedeceu, deduzi, sempre pelos ruidos que ouvia a olhar o meu céu que era o tecto branco entre as minhas pernas abertas no ar.
O Dono dela deve te-la erguido pelo cabelo, pois ela soltou um gritinho; dobrou-a de pé sobre o meu sexo e disse - Quero que ela se venha, agora!
O dildo continuava a entrar e sair, até ser substituido pelo sexo do DomY que alternava uma palmada seca na nádega esquerda com uma entrada do seu sexo - mecanico e frio, calculado. A escrava rebelde fazia-me agitar e, sem nada na boca, eu suspirava e arfava sem controle, e o DomX resolveu calar-me, ejaculando na minha boca a rir. Vim-me na boca da escrava, sem pedir; afinal, era o que todos queriam k acontecesse, domarem-me o instinto e os sentidos, depois da vontade rendida.
Meia hora depois estava de novo amarrada, mas de costas, com o meu Dono com duas cadelas a seus pés e dois Senhores prontos a castigarem-me pelas ordens desobedecidas. Eram cem chibatadas. Cem dores sem apelo nem agravo, para satisfazer o meu Dono, provando que Ele me fizera uma escrava abnegada, disposta a tudo por ele. Acabaram de me castigar comigo em lágrimas e sairam, sem se dirigirem a mim, levando as escravas pela trela de corrente. O meu Dono levou-os à porta.
Entrou no quarto e sentou-se na cadeira de baloiço, a olhar-me, sempre em silencio. Ficou assim algum tempo e deixou-me acalmar. Quando me viu sorrir, levantou-se. Soltou-me e afagou-me a cara.
- Estou orgulhoso de ti!"

3 comentários:

katrina disse...

Es tao sensivel na forma cm escreves que sempre que te leio saio daqui lavada em lagrimas...

Es uma grande mulher, amiga e submissa...

Beijos

S. disse...

Potente!!!

O Poeta é um fingidor que chega a fingir que é dor que devereas sente! ... so true!

É quando fingimos que somos de verdade!

Beijo enorme ...

Corto Maltese disse...

Ja te disse pessoalmente o que axava deste texto.
Se calhar seria melhor po-lo aqui, sei, mas sou melhor em palavras do que em escrita.
Beijos