terça-feira, maio 10, 2005

Descansar Na Sombra

Todos os dias a vida nos carrega as costas!
Descobri uma recordação que me fez sorrir... e porque revivi, fiquei mais cheia! Todos os dias mudamos de pele...


"Agora é a minha vez!
A casa dorme, embalada pelo respirar da minha cadela e pelo sono do meu homem. Eu? Fugi para o escritório para embalar o sono, mas os papéis chamaram-me e a caneta agarrou-se aos meus três dedos da mão direita. Há muito tempo que isto não me acontecia: sair da cama para responder ao apelo da noite e da madrugada!
Estou deitada no catre do escritório, usando uma provocante combinação de seda que pertenceu à noite de casamento da minha mãe. Na rua, o nevoeiro apoderou-se das sombras e dos candeeiros, e novo dia se prepara para atracar nesta vila igual às outras. Na minha vida nada é igual desde há um mês atrás, há seis meses ou há um ano. Morreu família e nasceu uma criança com o meu sangue, feita pelo meu irmão, para perpetuar a loucura da família. Da nossa família de gente agitada não sei bem porquê ou para quê... Gente viva - até demais, para os dias que correm: somos os tais guerreiros que só gostam do prazer da guerra e não do fim, do objectivo, do propósito do sangue derramado. A criança de um mês será assim tão aguerrida? Gostará de questionar as coisas, de fazer o seu próprio mundo, como nós? É uma carta fechada, sem destinatário, com um selo multado por excesso de peso; e o envelope já vem sujo...
E a minha viagem? Também está multada por excesso de bagagem? Que destino terá o meu envelope? Tenho precisado de visitar uma igreja, ou duas, ou até três. Mas só porque no verão são sítios frescos - onde se podem descansar os pés e os olhos - onde não há fumos, buzinas, semáforos, beatas nem cestos do lixo - só a tal Paz de que certos poetas falam, de que precisam.
Dizem que estou a fugir. Não, acho que não! Só a descansar da viagem, dos atropelos da correria desenfreada por um lugar ao sol! Nesta altura do passeio apetecia-me sair: mudar de continente, de língua, de país, e recomeçar...
Uma espécie de purificação Tibetana, de exorcismo Hindú... Acho que não é fugir! É só descansar num qualquer apeadeiro do caminho, numa sombra ao pé de um rio! E caminhar, muito; muitas vezes. Arrastar os pés na água gelada e morrer de medo de cobras-de-água e de répteis em geral. Olhar para montes e vales e nunca estar parada, receando os bichos nas pernas... É sair do combóio para esticar as pernas, porque quinze minutos depois sabemos ter de regressar ao combóio, à viagem! Isto não é fugir! É só procurar outra realidade, porque a anterior se esgotou, apodreceu no seu favo, morreu no seu invólucro enxovalhado.
Chega de viajar. Paramos. Há percursos alternativos, certamente... Mas aqui, às três da manhã, só há um ensaio da Paz das Igrejas - falsa, emprestada e adiada, esta. Mas serve por agora, enquanto o dia não nasce, e regressa o medo de estar a fugir. Enquanto a casa abana sob o sono profundo do meu homem e da minha cadela, tudo está bem!
Ainda que eu esteja moribunda e que o Sol me condene..."
Lx - 1996

1 comentário:

ZeLuiz disse...

«A criança de um mês será assim tão aguerrida? Gostará de questionar as coisas, de fazer o seu próprio mundo, como nós? É uma carta fechada, sem destinatário, com um selo multado por excesso de peso; e o envelope já vem sujo...»
Ah, caríssima, como estamos todos - Eu, tu, todos - ainda tocados pelo mito do pecado original! Lê o que Fernando Sánchez Dragó tem a dizer sobre o assunto, na sua «Carta de Jesus ao Papa»:
"O pecado original: a quem, a que demente, pôde ocorrer tamanho dislate, o maior e o pior, seguramente, da história humana? Ser ocidental significa nascer culpado, sujo, andrajoso, marcado por um estigma do qual só o sofrimento redime. Qualquer barbaridade é, a partir daí, não só possível, como também provável e até inevitável. As crianças orientais são inocentes antes do parto, durante o parto e depois do parto. Oxalá tivéssemos nascido além do Bósforo!"
Não, o envelope não vem sujo. Vem limpíssimo. E dentro dele vem aquela luz que é treva (ou aquela treva que é luz) a que chamamos «kharma».
Nem o bebé que nasceu, nem tu, nem Eu, nem ninguém, temos que expiar os pecados da Humanidade. Temos que sofrer, é certo, mas as escolhas são nossas; e a felicidade, a iluminação, é o nosso destino.
E uma escrava é uma odalisca oriental, iluminada pelo Sol, coberta de sedas coloridas, a dançar, a tocar lira, a cantar e a sorrir; não é uma noviça violentada, num convento soturno, vestida de burel negro, a suplicar, entre lágrimas e sombras, perdão para o pecado de ser feita de carne.