terça-feira, maio 05, 2009

O subtítulo deste blog é de William Shakespeare "Todos são capazes de dominar uma dor, excepto quem a sente."...

Aplica-se ao BDSM, como em tudo na vida.
Em mim, fits like a glove - o mesmo que dizer - assenta que nem uma luva.
Definitivamente, como não me tenho cansado de o dizer aqui, são as dores de alma que custam a sarar, não as da pele e, apesar de dizerem que o Tempo cura tudo - não partilho o ditado popular.
Curará à superfície, fará uma plástica conveniente e esconderá as rugas, mas por baixo ficam as cicatrizes e as chagas do que já foi e não volta a ser.
Não sou saudosista in extremis, mas sinto saudades sim e com orgulho; não o orgulho bacoco da estupidez, mas um orgulho saudável do que foi bonito e livre, crescendo sem amarras.
Todos tivemos e temos e teremos isso - na Vida, como no BDSM - e todos um dia teremos saudades e saudosismo - uns saberão preencher o lugar rapidamente para não sentir dor - outros talvez não, mas todos fazem o melhor que podem.
Sobreviver na vida e no BDSM (e falo aqui como submissa/escrava) deve ser das coisas mais difíceis de conseguir mas não impossível, e, como tudo, obriga a sacrifícios que, quando por amor, respeito, dever, se tornam um prazer.
Na minha vida fui dando e recebendo por prazer e quando assim deixou de ser, doeu e senti-me magoada.
Há quem ache que por ter 44 anos sou infantil por ainda me sentir "magoada" com o que "os outros" me possam ou não fazer - e lá vem o cliché "se fazem é porque eu deixo" e é verdade!, mas, francamente, é melhor que alguem se sinta seja o que for ate morrer ou que nao sinta nada?
Espero sentir até morrer - no BDSM, na Vida e em tudo que vem por arrasto.
Cada um de nós sentirá de modo diferente - ou nao sentirá nada.
Se ainda me doi é sinal de que valeu a pena e só me resta agradecer!
Afinal, a Vida e o BDSM servem para trazer ao de cima o limbo do que temos escondido numa gaveta do subconsciente, sacudir e arejar para hastear ou não?
Admito, não sou capaz de dominar a minha dor!

http://www.youtube.com/watch?v=U-ieKwJKVrw

(Esta banda sonora é para o Vitor Carlos, por me ter dado este tema há 25 anos, que sempre trauteei no coração e nos arrepios, em noites mais vazias...)


"Eu tenho a minha loucura e levanto-a como um facho a arder na noite escura..." José Régio

4 comentários:

naodigo disse...

A questão não é sentir ou deixar de sentir, mas sim sentir mas não andar a arrastar todas as doras que tivemos ao longo da vida vivinhas da silva como se tivessem acontecido ontem.

A vida avança um dia de cada vez, e deixarmo-nos ficar para trás com mta pena que o tempo passe não é saudável

MISS LIBIDO disse...

"Eu sei que tenho um jeito meio estupido de ser e de dizer coisas que podem magoar e ofender... mas cada um tem o seu jeito meio próprio de amar e de se defender!" - tema de Maria Bethânia

Era esta unicamente a questão.
E saudável é defendermo-nos do que ou quem nos faz mal, senão seremos sempre e apenas uma folha na torrente. Se sou uma ilha na corrente, que seja...

E obrigada pelo coment - tudo é maior que a indiferença - demonstra maturidade!
big kiss, friend *

Joao disse...

É verdade que a dor é uma componente da vida. Também é um facto que aquilo que outro sente mais ninguem pode avaliar, pois não a sente. Nem duas pessoas sentem a mesma dor da mesma maneira.
Imaturidade, não sei, a maturidade é sectorial, e a maior parte das pessoas ganha maturidade em areas diversas e muitas vezes não iguais as de outra pessoa.
Sei no entanto uma coisa acerca das marcas do passado: não desaparecem, apenas se aprende a viver com elas.
Preencher a vida com outras coisas, que a enriqueçam é o truque para seguir em frente.
Digo eu...

MISS LIBIDO disse...

(Texto retirado do blog - A Dama do Pé de Cabra")

"O objectivo para o qual o princípio do prazer nos impele — o de nos tornarmos felizes — não é atingível; contudo, não podemos — ou melhor, não temos o direito — de desistir do esforço da sua realização de uma maneira ou de outra. Caminhos muito diferentes podem ser seguidos para isso; alguns dedicam-se ao aspecto positivo do objectivo, o atingir do prazer; outros o negativo, o evitar da dor. Por nenhum destes caminhos conseguimos atingir tudo o que desejamos. Naquele sentido modificado em que vimos que era atingível, a felicidade é um problema de gestão da libido em cada indivíduo. Não há uma receita soberana nesta matéria que sirva para todos; cada um deve descobrir por si qual o método através do qual poderá alcançar a felicidade. Toda a espécie de factores irá influenciar a sua escolha. Depende da quantidade de satisfação real que ele irá encontrar no mundo externo, e até onde acha necessário tornar-se independente dele. Por fim, na confiança que tem em si próprio do seu poder de modificar conforme os seus desejos. Mesmo nesta fase, a constituição mental do indivíduo tem um papel decisivo, para além de quaisquer considerações externas. O homem que é predominantemente erótico irá escolher em primeiro lugar relações emocionais com os outros; o tipo narcisista, que é mais auto-suficiente, procurará a sua satisfação essencial no trabalho interior da sua alma; o homem de acção nunca abandonará o mundo externo no qual pode experimentar o seu poder."

Sigmund Freud, in 'A Civilização e os Seus Descontentamentos'