sábado, maio 09, 2009

BDSM na Maior Idade!

Defendo desde sempre que devia haver uma idade mínima para praticar SM dentro do BDSM, talvez na casa dos 30 anos, não apenas porque SM pode implicar riscos e responsabilidade mas também porque a minha vivência de mais de quarenta anos me diz que, regra geral, é necessária alguma consciência de complementariedade e não de causa. No entanto, cada caso é um caso - falo em geral, sempre, e limito-me a opinar!


Há uns anos, um Dominador Inglês contou-me um caso que me deu que pensar - uma antiga escrava dele foi cedida por ele a outro Senhor, com quem esteve anos; quando mais velha (perto dos 50) e doente, o então Dono correu com ela e a escrava viu-se de repente sem emprego, sem enquadramento na actual vida publica inglesa, desfasada da realidade. De referir que a tomada de uma escrava em países em que o BDSM é praticado "à letra" implica destituição total de direitos e total responsabilidade do Dono (saúde, habitação, descontos sociais, enquadramento social, etc), contrariamente a outros países em que os "brandos costumes" imperam numa vertente mais erótico/sensual/D/S e de role/play - logo, menos realista, digamos, ou menos S/M - vidé Portugal.


Assim, a dita escrava viu-se de repente na meia idade, doente, sem familia e sem apoio e apelou ao primeiro Dono que se sentiu indignado com a atitude do "amigo" e o procurou, mas nao conseguiu o pretendido. Chamou então a si a tarefa de ajudar a ex-sua-escrava, anos depois - alugou um pequeno apartamento, arranjou-lhe "escritas" para fazer em casa", levou-a a especialistas médicos e, mais importante para ela que se sentia sem utilidade no que lhe era inato - procurou no seu meio BDSM, quem procurasse uma escrava com experiencia, hard, para vivencias BDSM - e conseguiu, numa base não contínua, mas sempre com a sua supervisão. Aos poucos, restituiu a fé à dita escrava e deu-lhe novamente um "lar" e pelo que sei, tudo se estabilizou.



Evidentemente que este é um caso extremo.
Obviamente que nem todos os Dominadores serão calculistas e insensiveis.
Mas, se reflectirmos em situações de BDSM para sempre - casamentos de Dono/escrava - p.e.,teremos de pensar também, no caso das práticas SM em que a saúde e boa condição física são imperiosas, como lidar com essa vertente.
Qualquer relação se delapida com o Tempo, tendo de se adaptar ou acabando por se esfumar - mas numa dicotomia BDSM em que a componente física dá sentido aos elos e aos laços, não será uma espada de David sobre a cabeça de ambos?





Fui surpreendida no meio BDSM português quando um Dominador me disse "quero uma escrava para sempre, que, quando eu não tiver forças para pegar no chicote, esteja lá para me servir e termos uma relação mental e psicológica igualmente forte!" Foi a segunda vez que despertei para a questão dos limites fisicos/idade no BDSM e, ao viver uma situação de debilidade de saúde numa segunda idade (como acho correcto chamar-lhe), acho cada vez mais ser uma das questões poucas vezes ventiladas e que mais deveriam ser consideradas antes de um Dominador/Domme aceitar um escravo "sinne dia"...

Dir-me-ão que é exactamente igual a uma união baunilha - mas discordo, pois normalmente a parte Dominada abdica de direitos e regalias, corta laços e raízes, chegando inclusivé a mudar de País e vendo-se de repente em situação desesperada.
E quando um dos dois envelhecer? E se um dos dois fica doente? E se a relação depende exclusivamente dos dois e não há apoio de terceiros em caso de injustiça da parte Dominante?

Quid Juris?

5 comentários:

Isa disse...

Uma excelente abordagem de uma questão, que sinceramente, nunca me tinha ocorrido. Na minha opinião, o exemplo k referes só mostra, k independentemente do tipo de relação, nunca devemos colocar-nos 100% numa posição de dependência de outrem. Devemos sempre salvaguardar-nos uma vez k nada é eterno, muito menos nas relações.
bj

Foxy disse...

Por acaso foi algo em que ao longo destes meses tenho pensado. A partir do momento que considerei ter um mordomo, submisso e fazê-lo parte da minha vida, retirando-o do seu país, essa questão esteve sempre na minha mente. A tremenda responsabilidade de roubar a vida a alguém, substituí-la pela nossa vida e depois atira-la para o mundo novamente sem nada!


Até podemos fazer a transposição dessa situação para os animais, temos um animal em casa, a iver connosco, de repente torna-se um empecilho e é descartado no mundo sozinho e doente.

Acontece infelizmente...

Casa de Ladonia disse...

bondarina, excelente comentário e realmente pouco apreciado pelo meio.
Não posso falar por outros, mas aqui também não são tão estranhos casos como este.
Tenho uma vivência 24/7, assim, acredito tanto Eu quanto minha doula, que esta vivência do BDSM ultrapassa os limites do tempo. Contamos penas com três parcos anos neste relacionamento, mas entendo e acredito que seja eterno enquanto dure. Nunca a obrigaria a deixar de lado seus afazeres como profissional que é. Contudo não deixo de manter Meu controle em tudo que ela faz e que sempre reporta. Assim, mantemos uma vida BDSM, permeada por momentos vanilla, certamente, mas na essência, no cerne mesmo, uma D/s.
Feliz com isso até o momento e acredito que a tendência seja evoluir com o tempo.
atentamente
♠ Lestat D´Ladonia

Anónimo disse...

«De referir que a tomada de uma escrava em países em que o BDSM é praticado "à letra" implica destituição total de direitos e total responsabilidade do Dono (saúde, habitação, descontos sociais, enquadramento social, etc), contrariamente a outros países em que os "brandos costumes" imperam numa vertente mais erótico/sensual/D/S e de role/play - logo, menos realista, digamos, ou menos S/M - vidé Portugal.»

Menos realista?! Eu diria muito mais realista. Precisamente porque as relações se desgastam e terminam, precisamente porque é preciso ter em conta o outro e as consequências que os nossos actos têm no outro, é muito mais realista manter as relações dentro de limites que preservem a integridade e a sobrevivência do outro.
Os contos de fadas, mesmo os do BDSM são isso mesmo: contos de fadas. 'E viveram felizes para sempre'?!
Realismo é saber que considerar menos D/S (e não 'menos S/M' como foi escrito) uma relação simplesmente porque se mantém a escrava num contexto em que não é privada de relações sociais e familiares é apenas mais uma forma de ser preconceituoso para com Dominadores que têm os pés assentes na terra, ainda que tenham a cabeça e o coração na lua.

Apenas uma opinião, porque às vezes é preciso pensar em várias perspectivas e se todos concordarem connosco não nos são mostrados os outros caminhos, por vezes muito mais válidos.

Joao disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.