segunda-feira, julho 19, 2004

A Vida - um mito insensato?

"O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez e que essa repetição se há-de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito! Que significado terá este mito insensato?
O mito do eterno retorno diz-nos, pela negativa, que esta vida, que há-de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais voltar, é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso, que, de hoje em diante e para todo o sempre, se encontra morta e que, por muito atroz, por muito bela, por muito esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor não têm qualquer sentido. (...)"
 
in "A Insustentável Leveza do Ser"
     Milan Kundera
 
 
Não quero acreditar que a vida é uma sombra sem peso, morta e sem sentido depois de vivida! A Imortalidade é o objectivo de toda a Humanidade, seja plantando a árvore, escrevendo o livro ou tendo o tal filho. A Teoria do Caos está em tudo o que acontece, e nós apenas fazemos escolhas, umas certas outras erradas; mas tudo isso surge a posteriori, como a avaliação que se pode fazer do que existimos, do que fomos. Só com provas dadas é que as coisas se vestem, se rotulam, de boas ou más, acertadas ou desastrosas; as provas dadas são pois a nossa vivência, anos de investir em velhos muros de conformismo ou de tradicionalismo ou de qualquer outro ismo que, as mais das vezes, nem tem nome... A pior de todas as curas surge com a doença imaginária, é a mais dificil de todas, a que exige o sacrifício da imaginação em prol da existência. Quando falamos do que sentimos, aí entra a imaginação, o poder de criar uma ideia, de transformar uma sensação/emoção/comoção/acto em teoria, afinal... e tudo isso porque há coisas que não podem ter nome ou não encaixam numa definição! O processo é inverso, portanto - parte-se do dado concreto para a definição, a teoria, e o que se perde nessa elipse? Geralmente a magia, neste caso, a magia da vida, se for considerada um mito primeiro e insensato depois! O que tem nome é mais cinzento do que o que não tem - acho eu... As bolhas de sabão e as cores do arco-íris fazem sentido para montar a ideia mas, se esta estiver na prateleira da arrumação conceptual, vemo-la, sentimo-la a preto e branco, magoa-nos com o duro espigão da realidade. Ninguém deseja isso, nem quando diz que é realista - aí o que se quer é outra coisa, é a defesa do jogador de soccer americano, a protecção contra os rigores da definição, da teoria, da normalização afinal.
Não creio na teoria do eterno retorno de Nietzsche porque a minha vida não é a preto e branco, nem se pode arrumar na prateleira das catalogáveis. Nem a vida seja de quem fôr! Uma vida é sempre um acontecimento único, colorido e musicado, cheio de contradições e más apostas por vezes, mas por isso mesmo imperfeita - logo, não-normalizável! A sombra de cada vida é mais longa ou curta, gorda ou magra, cinzenta ou preta, mas não termina num ultimo suspiro exalado, nem nos olhos fechados por alguém. Talvez até comece aí... pelo menos acredito que sim...
 
ML

2 comentários:

zezilo disse...

Ainda bem que a vida não é propriedade de filosofos :)
tudo é uma corrente que nunca se sabe onde vai acabar, tal como o rio desagua no mar, nós desaguamos noutro lado qualquer. Até o curso dos rios muda e uma onda nunca é sempre igual.
DE qualquer forma temos a teoria da entropia que diz que tudo se encaminha para a desordem. Para tentar alterar esse estado temos de gastar muita energia.
Tens essa energia poderosa, green eyes girl
beijo
~zezilo _))

shortbow disse...

sou mt pragmático, e com pouco jeito para as palavras, por isso vai curto e grosso....

não acredito que se possa dizer: a vida de sicrano não tem/tem sentido. cada um é que têm de sentir se a sua vida ou não têm sentido para si mesmo. a opinião dos outros sobre a vida dos outros é irrelevante e inconsequente. e no fim, quando morremos, a nossa opinião é no fundo a unica que importa, pois, afinal que nos importa, se depois de termos ido, os que cá ficam consideram a minha vida com ou sem sentido?

bejos, e continua a filosofar:))))