terça-feira, julho 13, 2004

“Os Deuses Bocejam…”


"Os deuses não foram derrotados ou eliminados, continuam imortais como sempre foram, apenas mudaram de nome, adaptaram-se às mudanças…"

“A Casa dos Budas Ditosos”
João Ubaldo Ribeiro


“The Gods Are Bored” era o título de uma canção emblemática de som da frente, nos anos oitenta…
Um amigo meu defende que os deuses dos nossos dias são os Médicos, com os seus milagres de bastidores. Tenho de concordar, quando um moribundo de sábado à noite sai do hospital pelo seu pé na terça-feira seguinte.
Mas será que é mesmo assim? Quem sabe o que esperava aquele moribundo se continuasse a sua viagem impune pelo mundo, sem antes ser avisado quanto à sua mortalidade!?
De quando em vez dispara um alarme qualquer na rotina da existência e nada volta a ser como antes. E ainda bem… Se a imortalidade fosse um dado adquirido não seria tão desejada, precisa, necessária, urgente.
Alguém que recentemente entrou na minha vida diz-me que tudo mudou na sua existência depois de um grande acidente de viação de onde saiu ileso, contrariamente às probabilidades! Quem define as probabilidades?
A verdade é que os deuses somos nós!
Adaptamo-nos às circunstâncias como soe mais adequado à sobrevivência – esse bicho de quatro patas que nem sempre sabe onde se aninhar. Nós – gente feita de carne, sangue e ossos, mas que é tão grande que se permite a leviandade de sonhar. Gente com cheiro, que acredita na vida! Como os deuses – a ta miragem que nos tapa do frio quando adormecemos…
Deuses e homens vivem juntos sob o mesmo céu – fazem dos dias momentos plenos e das noites promessas de outros dias iguais!
Gente precisa de se sentir especial porque a vida é especial e os olhos filtram as maravilhas com ansiedade, escorregam no orgasmo. Pouco mais importa…
Se o Olimpo fica no Hospital S.José ou nas urgências anónimas de qualquer outro país não é importante. Fundamental é que não feche para obras!

“(…) Tal e qual como ele. O búzio gasto pelo rolar das areias de África donde nunca saiu. O homem que se acreditava Deus à sua maneira. O que criava as coisas à sua semelhança, sem desperdício, porque este lhe fazia muita confusão. E que penou até à Eternidade, mas com gozo, o tal gozo da plenitude. Porque se beatificou numa cascata de orgulho, um dia, há muito tempo atrás, antes do Big Bang e da consciência adquirida e do polegar oponente. “A sorte protege os audazes!” Mas não são os audazes que quem a fazem; eles só a carregam, como uma bilha debaixo do braço, útil quando cheia, incómoda quando esvaziada. Mentira e inquietação e ele – todos juntos numa montanha de decisão. Um dia. Entre alvoreceres doentios de ressacas de sono. Um dia sem título. Como as aves a migrarem para o sul. Um dia grande, comprido. A correr desenfreadamente por entre os bosques cerrados de imagens da sua vida. Ele fugiu de vez. Para não mais voltar. Para esquecer. Para renegar tudo. Para se fazer mais Deus e menos homem. Para não ter de acordar no mesmo sítio – só isso. Tudo o resto foi com ele. Até porque não tirava fotografias. Carregava-as marcadas a ferro e fogo por detrás dos olhos e à volta do coração Só ficou o sexo nas suas mãos, nos seus poros, na sua audácia, agarrado mansamente à inquietação. Transformado em um sentir diferente, de outras épocas e outros tempos, de quando aprendeu a ser quase feliz. Enquanto deixou que assim fosse. Enquanto não pôde deixar de assim ser. Armadilha… (…).”
ML



1 comentário:

Binoc disse...

Um beijo, espero voltar a encontrar-te no irc.