domingo, janeiro 16, 2005

Não posso deixar de ser…

Em conversa simpática com um amigo, dei comigo a tentar explicar este universo paralelo onde as diferenças se querem todas e as semelhanças nenhumas com o paraíso dito “baunilha”....
Foi terrível a descoberta!
Dei comigo a titubear alegorias, mas a verdade é que há poucas diferenças, embora aparentemente não existam pontos de contacto...
A confiança é a palavra-chave, em qualquer das situações – embora o “namoro” decorra em situações e tempo real bem diversos, por imperativo condicional. Mas a corte e o enamoramento começam do mesmo modo, pedem-se os dados, tentam-se descobrir afinidades comuns, descobrem-se objectivos paralelos, enfim.... tudo semelhante.
Depois, a imagem – o poder, o valor, a importância da imagem!
Raras vezes o aspecto é descurado neste flirt que, geralmente, é virtual, mas nem assim deixa ao acaso o aspecto visual do “encontro”! Ainda que ninguém admita, o aspecto é muito importante, embora aqui, no reino do BDSM, tenha outra componente, porque os valores estão invertidos. Um aspecto duro e implacável poderá surtir melhor efeito cativador do que um mero olhar complacente, dependo da posição do seu detentor, claro... Mas na verdade, o poder do aspecto é ainda decisivo também aqui... para o Bem e para o Mal!
Segue-se a troca de objectivos que, também eles, são semelhantes senão iguais, a saber: em ambos os universos, além de se perseguir “uma certa felicidade”, quer-se a mesma com tudo a que temos direito. Há sempre quem domina/ cabeça de casal, e quem é dominado/a outra parte – personalidade oblige, e em nome da tal felicidade tudo é permitido... Procura-se a “estabilidade emocional” – no reino baunilha, através de consonância perfeita entre as partes (tantas vezes apenas superficial), e no reino BDSM dando e exigindo aquilo a que temos direito – a partilha!!!!
Fidelidade! A fidelidade/exclusividade do submisso ao seu Dom e do casal baunilha entre si – em ambas as situações falha redondamente as mais das vezes, mas as teorias são por isso mesmo teorias...
Num período de salvação, surgem as tentativas desesperadas para reavivar a ligação – na “vida real” são sexólogos, psiquiatras e conselheiros, o procurar de novo alento em sexo alternativo ou incluindo no casal novos elementos; no outro mundo, é o swing no BDSM – o cansaço disfarçado de novidade!
E, obrigatoriamente... a traição! Quer entre o casal baunilha, quer entre Dominador e submisso, quando as partes não cumprem o estipulado e a confiança se parte em estilhaços malditos! O adultério! A que se segue o divórcio, nem sempre consensual, nem sempre bem-aceite, porque quase nunca pretendido – as dores da separação, o devolver da coleira, da aliança benzida, que também podem ser os “meus discos e livros”, ou o anel com a letra do Dono comprado em Londres!
A dôr! A muita dôr! A estabilidade que se esvai e o vazio que fica....
Contratos e exigências mil (nada de pvts sem autorização do Dono são os ciúmes doentios do homem do talho!) no BDSM, substituem ainda uma licença de casamento e as contas bancárias com duas assinaturas pois a estabilidade rodeia-se de falsas seguranças...
Consensualidade? Em ambos os casos - senão é violência gratuita, violação, etc.... Segurança? Nem sempre o é, mas na comunidade baunilha atira-se ácido à cara de quem nos rejeita!
Sadio? Aqui é que me demoro mais... Curiosamente, acho que é apenas aqui que as coisas mudam e muito!
Ninguém tem de estar casado ou de namorar, se não o quiser. A velha máxima de alguém não se poder divorciar por causa dos filhos ou da herança está completamente desacreditada, por ser irreal...
Mas no BDSM há quem tenha de ser Dominador ou submisso. E se o é por instinto de necessidade emocional (ou até fisica), isso só pode ser bom, sadio e dar-lhe estabilidade e paz – uma designada “felicidade!”....
Recentemente, um Dominador de forte personalidade e muito realizado neste contexto, dizia-me “Eu preciso disto para funcionar bem no dia-a-dia!”... São muitos os casos em que se é o que se tem de ser neste mundo; espero que no BDSM sejam a maioria. Sadio é que cada um saiba que faz o que quer, quando quer, porque o sente imperativo e o satisfaz. Tudo o resto são as plumas e as lantejoulas que douram uma mesma realidade... As empatias não se justificam! Importante mesmo é ser feliz! Forçoso mesmo é sentir!!!! Em paz...

ML

1 comentário:

shortbow disse...

ais uma vez, tu dizes o que toda a gente pensa mas ninguém fala:))))

Penso que há uma grande diferença do BDSM para um relacionamento baunilha... ou nem é diferença. Eu diria evolução...
Evolução nas relações humanas... as pessoas (algumas, mas suspeito que cada vez mais) sentem-se presas ou constrangidas no que é socialmente aceitável... que há algo que lhes faz falta... e a relação dita baunilha, com o selo de aprovação da sociedade, e com tudo o que isso acarreta (aceitarmos indirectamente a moral e bons costumes da sociedade... ) já não satisfaz... há quem queira explorar, descobrir novas sensações, novas brincadeiras...

BDSM, mais do que um tipo de relação humana, mais do que uma perversão, é a liberdade dos constrangimentos morais da sociedade. Em que só ficam o que é realmente necessário... o respeito, confiança, e gostar que se sente por outrem. Tudo o resto... é uma aventura de exploração:)))

_bondarina...
Espero que não demores muito a voltar a surpreender:)))