quarta-feira, outubro 20, 2004

MAIO

…E quando o tempo passa e os jovens se encolhem, dá-se algo parecido com um furacão e o mar revolta-se contra o Mundo. Chama-se estupidez ou talvez cupidez – se não se chamar outra coisa qualquer. As mulheres perdidas nas transversais do Mundo são piores que os homens perdidos nos cruzamentos da Vida: quando se encontram, há cabeças que rolam para o Paraíso e o céu deixa de ser céu e dá lugar a um qualquer ancoradouro do Diabo.
Outras vezes são as crianças que choram e nem sabem porquê; sentem apenas alívio no vazio ocupado pelas lágrimas pequeninas de crianças grandes como monumentos. Há um assassino na estrada e viajantes na tempestade, dizia ele, um outro poeta suicidado num dia do Tempo.
Há um homem fugido para dentro de si, para dentro das suas entranhas, para dentro de qualquer coisa em si que o defende – pensa ele – dos males do Mundo em redor. E depois há bêbedos, e sóbrios, e inúmeros cadáveres que cheiram mal quando a lua os destapa: o cheiro dos que não têm outro cheiro! E o tal homem enfia a cabeça na areia e finge nada se passar, apenas porque um dia, para ele, o Mundo deixou de girar no seu eixo e ele sentiu-se só! Agarrou-se às grades e passou para fora as mãos, mas a alma, essa, ficou agarrada ao tempo que lá deixou e nunca mais viu de novo. No único dia da sua vida em que teve saudades, chorou baixinho, como as crianças grandes com medo das sombras. Um ursinho brinca com uma almofada e ela cai-lhe entre os dedos... sem ele nada poder fazer ou até dizer....

ML

1 comentário:

shortbow disse...

já o li, e aqui deixo a minha opinião....
o teu texto não têm uma estrada, uma via, enfim… um caminho claro e definitivo… mas vários, e por vezes a mesma via, têm várias alturas ou planos e é necessário lê-lo e voltar a lê-lo. Examina-lo de muitos ângulos até começar a tirar sentido da mensagem… uma mensagem generalista na sua profundidade, mas muito precisa para cada pessoa que o ler, que conseguirá rever pelo menos um pouco de si mesmo, no que escreves.
hoje escolhi, olhar para o passado, vê-lo de todos os ângulos que conseguir... vê-lo bem!!! e depois pousa-lo na prateleira da garagem... como recordação, e já não como uma coisa viva... é o inicio da batalha eu sei... mas também sei que o primeiro passo é o mais difícil
uma bjoca grande dum amigo………