sexta-feira, novembro 20, 2009

Quando é que um Dominador/Domme se torna Top e uma submissa/o bottom?
Em que momento na vida se dá esse click?
Quando é que o próprio sabe que nada voltará a ser como era?
Que não há retorno?
Que é para sempre?
É uma maldição ou uma benção?
Será uma responsabilidade ou apenas um jogo para passar tempo?
Quem leva a sério o que sente, ou há quem não sinta e se limite a representar?
Quem precisa de fazer de conta?
Quem sabe o que anda a fazer?
Porque são precisos os rótulos?
Quem se diz Mestre, Tutor, Dom ou Dono - submisso, escravo ou slut ou puta, distinguindo os estádios, e porquê a distinção?
Porquê uma cultura de BDSM?
Porquê a necessidade de "alfabetizar" as práticas?
Alguém saberá o que anda a fazer...?



...Um dia comecei a usar uma pulseira de guizos, metálica, discreta, no tornozelo esquerdo.
Comprei-a no Algarve, de mim para mim.
Não tinha Dono, mas tinha sessões pontuais de SM com um Dom, sem interacção sexual; segundo ele, a escrava dele nao era muito SM e ele sim, e ele precisava de alguém mais hard, e tivemos quase um ano de sessões supostamente com conhecimento dela (o que nao era verdade). End of story.
Foi com ele que aprendi a precisar de mais SM e a crescer no SM. O meu lado D/s já estava anteriormente explorado e nao seria com ele que cresceria.
Sem me aperceber, e só anos depois entendi, tinha com ele uma relaçao de dependencia bem maior do que julgava na altura, mas nao interessa neste texto. Para ele era só um meio para um fim, sem grande valor, como se provou no fim desse periodo, de forma ingrata.
Um dia, um amigo perguntou-me porque razão usava aquela pulseira no tornozelo, porque nunca a tirava, excepto no Inverno, para usar botas, pois os guizos magoavam no cano, contra a pele...
Lembro-me de dizer "Comprei-a de mim para mim, no dia em que percebi que era escrava."
Ele sorriu. Ponto.


Acho que há toda uma mecânica individual e única de pessoa para pessoa, em tudo na vida e ainda bem que assim é.
Nunca perguntei a um Dominador em que dia se percebeu Dom, mas sempre quando descobriu o BDSM - o que não é a mesma coisa... Mas a submissos sim. Talvez por os entender e estar à vontade para ler o processo que conduz alguém a precisar de se submeter.
E é fácil saber quamdo uma entrega acaba - seja de que lado for, porque mais que racionalizar - sente-se, nao pelo que está a mais, mas pelo que falta.
Nunca tive medo.
No dia em que tivesse, tiver, medo - saio de cena!
Nada em BDSM tem de ter a ver com ter medo; com hierarquia e respeito em contexto à pessoa e ao titular da entrega, sempre; medo nunca!
Mas insegurança muita.
A mesma que os Doms têm muitas vezes e jamais confessarão.
As pessoas não são estanques, são frágeis e tremem, se assim não for, são diabólicas e de evitar.
Doms super-heróis... não acredito neles, são band-aids em feridas mal saradas...
Mas é no dia em que acaba a entrega que se fica mais pobre e nada volta a ser como antes.
Dantes acreditava que era recíproco.
Hoje sei que não é, pois Homens e Mulheres não são e não sentem igual - apenas isso.
Abençoadas excepções...


Maldição ou benção?
Já fui muito feliz e muito infeliz na procura do que me complementa e de quem me complementa.
Mas, de novo, acho que é assim em tudo na vida.
Mas porque há riscos graves e sérios - jogos que podem por a vida em risco - a confiança é multiplicada e a entrega redobrada em muitos casos, logo, as apostas muito altas e, se há quem finja entregas "basta juntar água" - há quem se dê por inteiro por dentro e não para teatrices baratas de filmes no You Tube, e quando perde, perde tudo!
E por mais que se pergunte "porquê?" sabe sempre a resposta e vai voltar a fazer o mesmo - "porque eu SOU assim!", não porque só sei fazer assim, mas porque SOU assim...


Identifico-me com algumas, poucas, submissas e submissos do meio que sentem o mesmo.
O peso, o fado, de nao conseguirem ser de outro modo - mais avisados, menos entregues antes de medir terreno, etc., mas regra geral - ninguem dá muito porque não espera muito.
Dou tudo, porque espero tudo; quero descobrir-me toda e que me descubram toda, e só se faz dando tudo, numa descoberta a dois.
Não me parece que o BDSM fizesse sentido de outro modo - o tal BDSM, aquele de arrepiar a coluna vertebral, sem show-off, sem montagem de filmes pagos.
Felizmente há BDSM para todos os gostos e gente feliz a fazer BDSM.
E quem saiba responder a tudo.
Eu não sei.
Sei que às vezes sentir além dos limites é uma maldição.
Sei que, vezes demais, os submissos em BDSM, no fim ficam com "uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma" a tentar colar os pedacinhos da última entrega que lhes foi atirada à cara, rasgada, como um cromo repetido...
Talvez os Doms também passem por isso, mas eles não fazem blogs a dizerem-se humanos... àparte as raras excepções.


Afinal parece que há medo.
Sei que Dor há.
E não é à flor da pele!

5 comentários:

lusitanis disse...

Interessante a forma da tua iniciação de submissa. Mais tarde, como botton, reafirmaste a tua apetência inata.

Interessante, relativamente às dominações D/s T/b,um dia perguntei isso mesmo num meio próprio e, práticamente ninguém soube responder. Isto porque a maioria só vive, e porque não, o sentido erótico do tema; uns vivem a submissão, outros Dominação. Para além disso não há mais filosofias.

Gostei das interrogações Miss Líbido!

BJs
Bjs

Joao disse...

Que olhar triste sobre o BDSM...
Tem a profundidade deste, onde não se sente pela metade, e não se vive de igual modo pela metade.
Vive-se.
Momentos bons que trazem uma felicidade grande e outros maus, que nos deixam infelizes.
Como em tudo...
Compreendo a necessidade de alguns de perceber porque são assim, e a necessidade de dar rótulos ao que se é, com toda a confusão que isso gera.
Porque se é homem? porque se é mulher? talvez seja mais importante sê-lo e viver como tal, do que perdemo-nos no labirinto das interrogações que só a teóricos satisfazem.
BDSM não é só magia, e quando esta não parece existir revela-se uma outra caracteristica importante: a maturidade necessaria para atravessar o deserto.Quer a um BDSMer, quer a uma relação BDSMer, até se encontrar novamente a magia.
Porque esta muda com a maioridade ;)
Sempre bom ler o que escreves bichinha, emotivo e sincero, arrancado do peito como um grito...
e esclarecedor também.

Foxy disse...

A entrega demasiada... sem medo, sem rede
Nao consigo ser assim e a única vez que o quis ser não me aceitaram assim, devota e dedicada!

Lamento mas talvez assim evite a dor...

Isa disse...

Mais uma vez te expões de uma forma sentida e sem rodeios. Parabéns! Colocas questões que poderão ter várias respostas, depende de cada um. Há quem nem sequer se questione. Não sei se é melhor ou pior. Eu questiono-me. Muitas vezes. Gosto de perceber o porquê, e tenho encontrado respostas. Por mim. Gosto de saber quem sou e para onde vou. O BDSM, faz parte de mim. Ter consciência disso dá-me uma certa tranquilidade. Só uma ressalva ao teu texto. Há Dominadores/as que admitem as suas inseguranças e não são "menores" por isso, muito pelo contrário. Admitir as nossas fraquezas só nos faz crescer e BDSM, para mim, é um meio para esse crescimento.
Beijos grandes

Miss Libido disse...

Obrigada...
Mas quanto à ressalva, talvez me tenha feito entender mal, porque penso exactamente assim - seja para quem for - e na Vida em geral.
Admitir fraquezas é crescer por dentro! Beijossssssss *****