segunda-feira, agosto 09, 2004

Uma mulher pediu a palavra!

Ninguém admite, mas andamos todos a procurar conhecer-nos melhor…
Até morrer, o ser humano deseja mais que tudo saber quem é, o que faz, para onde vai, de onde vem, como fazer! Mas mais do que isso, todos queremos saber porquê. Um blogue só é conseguido quando é lido por alguém, mas é bem conseguido quando recebe feed-back, quando consegue estabelecer comunicação. Aconteceu aqui e faz-me sentir contente. Alguém que leu o meu despretensioso pensar sobre o livro “História d´O” e que se identifica com a prática de BDSM (Bondage, Dominação, Sado-Masoquismo), enviou-me um relato verídico de uma primeira sessão com um Dom (Dominador) que a cativou. Por o sentir verdadeiro, quero partilhá-lo. Por o saber honesto, julgo-o importante. E por talvez desmistificar um pouco o lado negro da BDSM, por falar de alguém que se quis conhecer para além do que julgava saber, e procurar as razões, talvez esse relato faça mais gente anónima querer saber melhor quem é e para onde vai…


“Vou tentar cumprir o prometido, como sempre faço....
Antes de nada, quero que saibas que confiei em ti desde a primeira vez que falamos, por isso o desfecho foi o que foi... A minha intuição é de confiança, e não sou a leviana que poderia sugerir o facto de ter feito algo "perigoso" como sugeriste e com razão; o tal "levar a sério" que sentiste em mim, foi o que senti em relação a ti. Querer descobrir-me e saber os meus limites dando prazer e sentindo prazer - é a minha quest, a minha busca do meu Graal. Acredito em emoções e sentimentos, daí a entrega...
A confiança total chegou quando disseste antes da sessão "faço isto para me divertir!"!!!! Aí senti definitivamente que podia confiar, porque essa sim foi uma exposição tua que revelou honestidade... embora outros pudessem encarar como muito pouco. Aparte isso, tentei não desiludir porque só tenho o que sinto para dar, não certo look ou comportamento extravagante...
Durante a tarde gostei do contexto, gostei de me poder entregar, mais até do que de me entregar (o que nem toda a gente entenderá) e fi-lo com imenso prazer porque eu merecia e tu merecias, claro. Julgava-me repugnada com imensas coisas que me fizeste, mas saber-me entendida deu-me vontade de querer mais. A mordaça, capuz, algemas, açoites, molas no sexo - eram conceitos e situações que me apavoravam, principalmente a dor física, mas descobri-me a apreciar uma nova sensação, a de impotência acalentada, do deixar-me ir, que me deixou soltar. Senti que fizeste tudo para cumprir o que tinhas dito e o que eu tinha pedido, isso desarmou-me e quis honrar o acto, tanto como me senti quase honrada por me teres escolhido.
No carro disseste-me masoquista e não me senti envergonhada, sintomático apenas de que a dor, para mim, julgo agora saber, é apenas mais um sentir que sempre senti, mas não fisicamente... Passei dois dias a entender como se pode racionalizar a dor consentida - não se pode! Ou está lá e é bem aceite porque de certo modo conforta, ou é banida por receio de nos dominar, e os meus medos não são esses...
Obviamente que todas estas situações têm de ser secretivas, mas tenho de admitir que me despedi de ti com vontade de gritar bem alto que me senti livre durante a tarde de sexta. Mas sou ponderada e tenho bom-senso, considero-me adulta e a respeitar os outros como gosto que me respeitem, espero que acredites nisso e em mim.
Estou apreensiva quanto a ver as fotos que tiraste, e coloquei a hipótese de não as querer ver, mas concluí que tenho de as ver; o planar sobre o corpo só prova que o corpo esteve lá, e sei que me vou sentir feliz por ter conseguido superar-me. Fisicamente, fiquei orgulhosamente marcada - gostava que entendesses que nunca senti que o meu corpo fosse importante, nunca lhe dei valor, mas aqui ele é que levou a mente pela mão até onde quis, e isso foi maravilhosamente novo e libertador.
Começo a repetir-me porque estou ainda cheia de uma boa sensação, de um estar-bem que dificilmente consigo sentir quanto mais manter. Embora consciente de que a surpresa nem sempre será a mesma, a minha entrega a ti é um facto consumado... e agradecido. Os jogos são fantásticos quando as regras são respeitadas, e tento sempre ganhar - aqui ganhei amor-próprio talvez.
Tecnicamente, se assim o posso chamar, excitou-me muito saber-me a tua mercê, saber-me a depender de ti, a ser recompensada e castigada com empenho, com a tua justiça. Excitou-me o desconhecido, o apreender as regras na pele, nunca te olhar... a humilhação de nunca me teres penetrado, de me teres provado que o meu prazer era a tua manipulação. Estava preocupada com o teu prazer, isso conseguiu roer-me um pouco, o meu cuidado contigo também - não te conheço suficientemente bem para saber se ou como manifestas o teu prazer, mas confiei que estivesses, de algum modo, a realizar-te. Imaginei-te sempre a olhar-me as mãos, que ali eram os olhos, e isso foi terrível e fantasticamente embaraçoso - não as poder controlar....
Não há mais nada para dizer - deixei-me ir na escrita, como naquela tarde... soltando-me, libertando-me com a tua ajuda, e foi muito bom....
Sei que entendes o que sinto e o que falo, por isso chega.... Silêncio!”


3 comentários:

Paulo disse...

Quem me conhece sabe bem da tendência que tenho de desenvolver analogias, relacionando áreas perfeitamente distintas.
Há uma grande regra do valor da propriedade que nos diz que uma coisa vale o que as pessoas pensam que ela vale. É em função deste facto que a economia está engrenada.

Os estímulos valem aquilo o que as pessoas pensam que eles valem. A própria ausência de estímulo vale aquilo que as pessoas pensam que ela vale.
Os estímulos são a matéria prima. Matéria processada pelo indivíduo - único. A criatividade é o processo.
E o objectivo? Julgo se seja o conforto. Sim! O conforto é a minha quest, o meu santo Graal.
E o conforto o que é? Bem... o conforto é aquilo que as pessoas pensam que ele seja.
E eu não penso sempre igual. Não sou nem quero ser coerente nos meus pensamento nem nos meus sentimentos. Sou aquilo que sou: sou função do momento.
Sou eu e és tu (que me lês). E eu não sou igual a ti. Por isso processo a matéria de modo diferente. Ambos procuramos o conforto. E a legitimidade é plena. (bem... não será universalmente plena, pois ela (a legitimidade) vale aquilo que as pessoas pensam que ela vale). Mas para mim é plena. Sou egoísta e não vivo agrilhoado às directivas da moral e dos bons costumes. O egoísmo leva-me a procurar o conforto - o conforto pleno. Este porém, só é atingido se os "de quem eu gosto" estão em conforto.
Este egoísmo é assim um egoísmo altruísta.
E se a humilhação confortar eu humilho e confortar-me-ei (confortar-nos-emos). Faço-o em plena honestidade. E se a dor for prazer eu provoco-a.
E o sexo vale aquilo que vale: vale aquilo que as pessoas pensam que ele valha.
E penso-o como sendo bom, e é-me bom.
E penso-o como sendo divertido, e é-me divertido.
E penso-o como sendo reconfortante, e é-me reconfortante.

Paulo Silva

shortbow disse...

bem.....
não ficou mt para dizer:))...
mas não resisto e dizer, que o post do blog, tocou-me, houve algo em mim, que mexeu dentro de mim, e vi reflectido algumas coisas que sinto.
igualmente, no comment anterior.. só queria dizer que concordo na totalidade, e que eu não conseguiria dizer melhor.....
Obrigado pelas ideias

Anónimo disse...

Os laços que nos prendem mais são os que não se vêem...
B U