quarta-feira, junho 12, 2013



Penso em estátuas de sal...
Naquelas pessoas que entronizei e se desfizeram com uma vaga de Norte, com uma maré viva.
Penso na noite que não dormi, com a cabeça a estalar para entender o incompreensível.
Nas estátuas de sal que já amei e outras de que só gostei muito - até latejar.
No que já passou e no que não passa.
Neste longo Outono que nos rouba as energias e nas pessoas que nos sugam as energias e seguem caminho, altivas...
Penso em estátuas de sal...
A derreterem-se na areia molhada, como o açúcar na boca.
A escoarem-se por entre os dedos na areia encharcada, sem retorno, sem volta.
A irem-se, devagar porque o Futuro não espera e a maré vai virar a qualquer momento.
Nas estátuas de sal...
Na onda meiga que as abraça até as desfazer, estranho amor que mata quem gosta.
Na escuridão do verde ou do azul nas profundezas.
Nos redemoinhos de algas e criaturas com barbatanas que se surpreendem no afogamento dos átomos dispersos.
Nas estátuas de sal...
Dom Quixotes sonhadores que investem contra o que não está lá.
Contra a sua imagem de ficção.
Penso em mim, Sancho Pança de almas de toda a espécie, de gente de todos os formatos.
Queria deixar de pensar mas não consigo.
Queria ser o que me dizem que sou, mas não é possível porque não sou.
Quero ser inteira e devota como sempre fui!
Única porque imperfeita e perfeita porque uma só.


Penso nas minhas falecidas estátuas de sal com uma piedade infinita.
Lamento...

segunda-feira, junho 03, 2013

Esta noite!



"Esta noite preciso de um verão sobre a boca crescendo.
 Nem que seja de rastos..."

Eugénio de Andrade




Nove anos

este blog foi-me oferecido há nove (9) anos por duas pessoas eternamente importantes para mim

quando vi o que era, disse "e agora o que faço com isto? escrevo lá o quê? não tenho nada para dizer"




nove anos depois, tenho tanto para dizer e, especialmente, agradecer a quem me ajudou a encontrar um 
lugar no Mundo, para o Bem e para o Mal

Parabéns ao meu blog ofertado dia 31/05/2004
pelo carlos e pelo miguel

Parabéns aos meus leitores

Parabéns à bondarina, a mim

(para a Rita)




Uma submissa é também uma Mulher.


Tenho reflectido muito sobre o desejo/vontade e a finalização - em contexto D/s.
Ao fim de quase uma década de BDSM com excelentes e terríveis experiências, sinto que tudo mudou de dentro para fora no que toca a esta submissa que muitos sempre acharam "domme encapotada"...
Ninguém é submisso por ser compassivo, sensível e apaziguador, como ninguém é o oposto por não o ser.
As vivências práticas enquanto detentor de um dos "papeis" auto-definem-no pelo prazer que se tem - em ser  sub ou Dom - e pelo prazer que se dá....


Pessoalmente, ao ver a imagem acima - ocorreu-me que, enquanto submissa, sempre tive o desejo de "ser desenhada" como ideal de um Dom, e que tal nunca aconteceu.
Como muitos outros praticantes de BDSM, entrei sozinha na Comunidade Portuguesa (depois de conhecer alguns amigos com as mesmas afinidades) e fiz-me sozinha, guiada por instinto, bom-senso e procura do que me dava prazer enquanto prazenteava os meus Dominantes. Sem grandes protocolos rígidos, mas adaptando-os à minha maneira de ser e estar - como entendo que todos neste Meio devemos fazer...


Depois, ser submisso não é ser vítima e cada um tem o seu grau de entrega e de ideal BDSMíco; assim o pensei e senti e assim o fiz meu - o meu BDSM em trabalho de equipa e ajustes necessários.
Fui começada a desenhar por alguém logo no começo da minha viagem, mas fiquei em rascunho pela distância e necessidade impossível de empenho total da outra parte.


Hoje, sinto muito a urgência de voltar a ser "desenhada" ao critério do artista, da sua pena e da sua arte - como nunca fui antes, por inteiro, sem dramas nem compaixões, com a maturidade adquirida em anos de "ensaios". Mais do que um querer - sinto a urgência, a necessidade de...e esse sentir traz de volta coisas antigas que não velhas...
A primeira coleira, o primeiro Dono sem que ele soubesse que me tinha na palma da mão, o primeiro Dono de comum acordo e circunstância, o último Dono, o último Dominador a possuir-me em sessões descartáveis - tudo volta com um sorriso pendurado nos lábios...
Nada de sentires dos velhos do Restelo, antes uma viagem pela Memory Lane das nossas sensações e sentidos, com a pele arrepiada e os olhos estreitados no horizonte.


A primeira coleira, presa por mim no tornozelo direito, com guizos. Na primeira sessão e encontro real, o Dom pergunta "essa pulseira no pé tem algum significado especial? Pode-se tirar?" e eu abano a cabeça e minto, digo que não, que não é nada e nada especial. Era a coleira dele, de meses anteriores de diálogo e mind games - mas nunca lhe disse e ele nunca soube. Não sei se feliz ou infelizmente. Nunca cheguei a ter a sua coleira porque me queria escondida e eu recusei. E porque eu já tinha a coleira dele - só que ele não entendeu.


Conheço muita gente que vê além do horizonte, do visível - mas não consegue vislumbrar o que está na palma da sua mão, quem está na sua palma da mão, porque está na palma da sua mão... E os desencontros dão-se - porque sim e porque não.


Nesta noite de Levante, sigo o caminho das pedrinhas...
rastejo para fora das recordações e aninho-me numa fantasia recorrente.

"Como não sei rezar, dou-lhe o meu olhar..." 
 Elis Regina

quinta-feira, maio 30, 2013

Errata




Para quem me pediu para descodificar o texto anterior,
aqui fica...














ERRATA

Pudesse eu, na minha alma estreita,
ter o condão de passar a imensidão do que sinto,
teríeis vós, gente insatisfeita,
apesar dos escolhos e da maleita,
a chave inteira de que a escrever não minto.

Pois se me senti magoada, triste e carregada,
numa vaga intrépida de frémito e dor,
leiam vocês, gente desalmada,
apesar do delírio, da febre e do martírio,
como é possível doer o amor.

Se não me sabeis ler, a preto e branco ou a cor,
Aqui fica a minha dádiva pequenina,
Num esforço calmo, sereno e efémero,
Num mar de serenidade que não se anima,
Numa prosa mais simples para o meu leitor.

Pois se me senti um ponto e na vírgula me encostei,
sabei vós, senhores doutores, 
que, apesar dos rumores e das cantigas de embalo,
nada do que escrevi antes ou escreverei,
tem ou terá a haver com o tão atrevido falo.

De sentimentos escrevo e de sentires que arrepiam,
de bocados retalhados e suspiros arrancados,
de dores de sempre e de bílis, de pus e de feridas abertas,
para quem me lê e sabe, para quem me lê e sente,
como se alivia o fardo, a tortura dos poetas.

Pois quando preciso de esvaziar a minh´alma,
quando é tempo de partir e procurar doce calma,
quando o momento chega e fartos de estarmos sós,
nos atiramos à Vida e nela nos esfregamos,
.... para voltarmos sem medo ao passado dos avós.

Pois se quando é o tempo de os nós os desatar,
quando é profundo o lamento e calada está a voz,
quando vemos que o sexo é a cenoura afinal,
sentimo-nos sem chão nem pátria, sem maré e sem farol,
e vogamos pela Vida como peixe num anzol.

Senti, ri e chorei - uma e outra e outra vez,
e entre as páginas do livro, entre os filmes no ecrã,
por entre as sedas na cama, ou num pequeno divã,
amarrada pela ponta ao candelabro de pé,
fui menina, fui escrava, cumpri um acto de fé.

Se ainda dúvidas restarem, apesar dos meus esforços,
minhas senhoras e homens, meu público atento e audaz,
nunca duvidem que um dia - talvez até amanhã -
podem estar numa redoma, sofridos e sem saída,
ou atados a uma estaca, sem um momento de paz.

Pois que eu sou assim mesmo,
vomito o que em mim dói;
pois que eu sou um momento,
num eterno frenesim;
pois que eu não me contento
com o que não sabem de mim.

Caros e doutos leitores,
na ânsia de vos agradar,
aqui fica este aumento
ao texto que assinei atrás.
Que vos traga bom proveito,
tranquilidade e fulgor,
procedido de preceito,
pois foi escrito a rigor...




terça-feira, maio 28, 2013

um dia faço...



Embalada pelos dias sem noites e noites sem dias, tonta numa vertigem de luz e sombra.

um dia faço...

E fui e cortei os nós e atei os laços e não olhei para trás...
Fui e fui e fui até onde cheguei e não voltei.
Fiquei lá, vou ficando, com os olhos turvos de verdes...

Um dia faço e fiz!
E quero mais e vou fazer mais... e repetir... e não voltar e ficar!
Pedaços espalhados no horizonte e sonhos na ponta dos dedos.
Precisar e não ter, não ter e não pedir, pedir que tenha....



A alma na calma da trama.
A trama entrelaçada na bruma.
A bruma colada no vidro.
A angústia, a dor e o querer e o não ter.
A mulher de quatro no chão.
A escrava feliz ao serão, aninhada no calor da vontade das vontades.

um dia faço...

Que os dias são curtos para tudo.
Que não há retorno.
Que quero.
Que preciso.
Que dou.
Que dói!

um dia fiz!

Os milagres, o sol a penetrar o mar e a mentir.
As nuvens entre o látego e a pele.
As letras gravadas a fogo e a ferro ou metal barato.
O legado, a dádiva e a dívida.
A injustiça e o pecado e a gula e a tristeza.
O sabor...

um dia fiz e um dia vou fazer...

Dar o que não tenho e o que tenho.
Não o olhar, nem pairar nem esperar.
Torcer as mãos e os dedos num espasmo.
Calar o grito na garganta e jorrar num pranto.
Rebentar por dentro que por fora dá castigo;
inventar uma espécie de amor embrulhado



na dor.

Escrava...
Magoada.