terça-feira, julho 17, 2012

bondarina vs bondarina VI



BONDA - escrito em cera por Cruela
sobre knife play de Necrosavant

6) O que mais gostas de sentir tendo o BDSM como modo de vida, ou é apenas um mundo imaginário de menina que realizas quando podes, apenas porque sim? (Lunatik)


Nunca faço nada porque sim!
Não sou impulsiva e até demoro a dar-me, a entregar-me - as poucas vezes que o fiz por acção/reacção senti que nao o devia ter feito...

Tenho na minha cabeça infinitas páginas de sessões por realizar e de contextos de plays que ninguém sonha, que encheriam vários livros...
Sou uma Mulher que gosta da casa e da lida da casa, gostaria de ter tido filhos e netos - mas não é o caso. Se pudesse ter um Dono a quem, num contexto familiar, me entregasse 24/7 - seria o meu ideal.


O mel e o fel escorrem dos olhos dos submissos

NOTA: Geralmente as pessoas assustam-se ao falar de 24/7 - pois visualizam as práticas SM antes da D/s. Evidentemente que ninguém consegue estar 24/7 a fazer plays - mas há mais componentes na Dominação que podem perfeitamente encaixar, sem dolo para terceiros ou em demasiada exposição familiar. O Domínio começa na cabeça e pode, ou não, ter o corpo como complemento... Já tive um "ensaio" nesse sentido, mas então faltou honestidade da parte do meu Dono, e as suas fantasias não me foram partilhadas e acabou num caos. Se ele tivesse revelado todo o seu ser e desejo, o céu teria sido o limite, pois eu confiava  nele a 100% e estava entregue por Amor; teria feito de tudo (mais) para o fazer feliz.


"Tia Hook"
Sepia toned Silver Gelatin Print
Copyright 2002
VICTOR

O que mais gosto de sentir? A cumplicidade de alma, corpo e mente entre as partes, num ponto de clash que não tem nome, numa fusão em que bastam os olhares para saber que estamos protegidos e bem entregues. Que alguém vela o meu sono e toma conta de mim - mesmo a marcar-me a fogo, que seja. Esta é a minha versão idealista do BDSM - uma espécie de amor que cola e funde as partes, quebrando limites e abrindo horizontes.
A versão realista?
Pobre, muito pobre - enquanto a hierarquia não for abalada pelo princípio de que não é por ser Dom/Domme que já ganhou o jogo e eles se vão instalando confortavelmente atrás de chicotes e chibatas sem mais adoçantes e sem entrega, continuará a ser o que temos mais no Meio.
E com a mudança de mentalidade que permitiu que de voyeurs todos se tenham tornado participantes - a coisa piora; passou-se a fogueiras de vaidades e competição pela teatrialidade dos actos perpetuados em concursos fotográficos sem fim. De um extremo a outro. O que levanta a pergunta - é preciso "mostrar currículo" para se ser Dom/Domme ou sub?
Não critico, mas tenho consciência que quem chega de novo, adquire a noçao de que se nao tiver umas 500 fotos para partilhar jamais será aceite e conhecido e poderá perder acessibilidade ao Meio.
Já caí na armadilha também; durante anos tive fotos minhas, em sessão, escondidas e, por arrasto, recentemente acabei por expor algumas, por variadas razões - para agradecer a quem me submeteu, porque gostei das fotos e naquele momento faziam sentido e por questões pessoais que, reconheço agora, foram o pior motivo de todos. Mas quem não o fez já?

Não faço BDSM quando posso.
Todos tivemos uma endurance de sessões descartáveis no começo do nosso percurso e fizeram sentido, mas a partir de certo ponto - chega e há outro nível a ascender.
Já tive vários Donos e coleiras em relações mais ou menos prolongadas - desde 1 ano a quase 4 anos...
Não sou submissa de saltar de Dom para Dom - porque não é o SM que me move, mas o BDSM e esse carece de emissor/receptor a tempo inteiro. Mas já fiz SM em contexto amigavel de festa, sempre com alguem que sei não me deixará cair... nao sessão, mas olhos a brilhar e corpo à espera e alma a borbulhar.
Adianto até que o último Dono que tive, recentemente, nem sonhou que fui sua, sem sexo, coleira ou futuro. Mas enquanto durou foi assombroso...


Há Doms/Dommes que não reconhecem um submisso que se lhes entrega nem que eles o escrevessem na sua testa - a febre da dor altera a visão da entrega.

(Continua...)

sábado, junho 30, 2012

bondarina Vs bondarina V


("escrava" em dialecto Kenji/Japão)


5) Quando descobriu o BDSM na Internet, assumiu logo, visualmente, ser submissa?  
Ao pesquisar online, descobri um paraíso escondido, especialmente no tão famoso (por mérito) site "Desejo Secreto" (BR) e por indicação "INSEX" (EUA).
Pelo lado gráfico, visual, relativamente à minha descoberta virgem, a primeira indicação fez-se com as Dominadoras, curiosamente.Imagens poderosas de mulheres fortes em roupa sexy e com o Poder na mão, em oposição às desgraçadas nuas, descalças e a rastejar num chão sujo - as submissas. Não reparei na parte masculina - nem nos submissos, nem nos Dominadores. E senti total aversão por imagens mais fortes de SM - a beleza do acto de Dominar e ser dominado fascinou-me - digerir a dor em contexto visual nao me seduziu, causando até alguma aversão.
Tendo eu uma personalidade forte no quotidiano, numa primeira impressão não me atraíu minimamente a imagem física passada das mulheres dominadas; de imediato avaliei (erradamente, soube depois) falta de dignidade e auto-estima.
Portanto, não arquivei a ideia de submissa, até passar das imagens aos textos (especialmente relatos na 1ª pessoa) e quando finalmente senti a luxúria entrepernas, a instalar-se como um vírus, a ganhar caminho.
Nessas descrições, a imediata colagem ao que sentia nas minhas fantasias e até no ocasional rough sex emergiram e ganharam forma.

E a concretização das fantasias aconteceu de ânimo leve e rapidamente?
Não. Talvez pelo facto de ser uma pessoa de forte personalidade e tímida, retraída (apesar de disfarçar bem), o processo foi moroso. Continuei a querer saber e perceber mais e mais, especialmente nos Canais temáticos de IRC/MIRC (então em voga) e ao fazer amizade nética com "veteranos/as" no BDSM Português.
Ainda hoje reconheço ter tido muita sorte, numa primeira fase, ao conhecer as pessoas certas, algumas que até hoje se mantiveram Amigas, anos volvidos.
Complementava a aprendizagem com leituras temáticas clássicas, idas a sites e blogs do tema; ainda hoje considero os últimos, generalizando, os espaços mais credíveis para se entender o que é, na pele, o BDSM. Na altura não havia a febre nética que se verifica agora, nem tanta oferta, donde, todos líamos e conhecíamos, inevitavelmente, as mesmas referências e "nicks".

...One Lock One Key...

Que idade tinhas quando tiveste a tua primeira sessão? (fear)
Trinta e nove anos.
Depois de me informar imenso e com consciência, vontade e determinação.
Aliás, defendo que a prática do BDSM ou/e do B, D/s e do SM - deveria ter uma idade mínima reconhecida, pelos 30 anos e nunca menos.
Não se trata de maturidade quantitativa, mas de experiências vividas, auto-conhecimento de desejos e rumos, e capacidade de auto-controle.
A Dominação/submissão mexe profundamente com alma e mente e o SM com o corpo e os limites individuais; em qualquer das vertentes, o vício da adrenalina instala-se e o horizonte muda de sítio a cada hora. Pode ser perigoso e deixar marcas eternas.
Jovens a iniciar o seu caminho, sem referências pessoais, não terão a mesma couraça ou/e consciência de perigo ao colocar a sua Vida na mão de outrem ou terceiros.
Nem falo agora nos motivos que levam alguém a praticar BDSM, senão o SEXO acessível estaria no topo da lista - e eu refuto essa tendência...

Como descobriste a tua posição no BDSM? E nunca duvidaste da mesma? (Cruela)
Curiosamente através de swingers - um casal e um single, separadamente. Com o meu mentor (do casal) eram noites infinitas a debater o assunto e a trocar info para beginners (até ao primeiro encontro com ambos), com o single, além da inicial conversa aprazível e útil trocada e uns laivos eróticos via MSN, só in loco ele tirou as dúvidas, numa abordagem que deveria ser meramente sexual mas que ele explorou para um soft D/s e eu correspondi. Considero esse o momento carnal da revelação e primeira sessão, embora sem esse título no momento...



Se já duvidei da minha tendência submissa? Não.
Como todas as mulheres enganadas ou traídas, há um dia na Vida em que amaldiçoamos o Homem e até verbalizamos que o mataríamos de pancada, mas isso é teoria e passa depressa.
Não tive nem tenho tendência Dominadora, mas já experimentei SM em homens, duas ou tres vezes e gostei - a prática do SM per si, em que, vendo bem, estou igualmente a dar ao Homem o que ele deseja, não me assusta nem me baralha.
Dominação não é SM e eu jamais tive interesse/necessidade em ser a Dona da Alma dum Homem Submisso.
As práticas SM podem ser estanques e isso soube-me muito bem, enquanto fiz o parceiro feliz; noutro contexto, seria impensável. Claro que, como sucede com muitas ex-subs, seria mais fácil "vingar-me dos gajos" e passar a arrear-lhes, porque sim - não acontece comigo e se depender de mim, jamais acontecerá.
Portanto, com mais ou menos chibatada a pedido de Amigos homens submissos, para os fazer felizes - não, nunca me ocorreu ser Domme! Apesar de me dar prazer essa interacção...

(continua)

quinta-feira, junho 28, 2012

bondarina Vs bondarina IV


(foto Sir LancelotLX, montagem Aerelon)


4) Como te observas dentro e fora da bondarina? (pulga perguntou)

Deveria ser igual, mas por vicissitudes do caminho, não foi bem assim...

Continuo a mesma pessoa, embora no quotidiano tenha personalidade forte e imposta - o que não altera a minha submissão em contexto. No entanto não me considero uma "submissa de cartilha" - não compactuo num "play/sessão" se estiver desmotivada ou a representar, interrompo-as mesmo; não me entrego facilmente enquanto não sentir total confiança em quem ponho a minha Vida nas mãos; detesto injustiças e se um Dom diz que me vai castigar por uma situação inexistente faço o reparo, embora aceite o que se segue; etc, etc.  Não acredito que ser submisso signifique ser vítima ou "o sacrificado" - entendi sempre e defendo que BDSM é um jogo que começa a dois, e as fantasias de ambas devem ser realizadas na medida do possível; se um dos pares apenas e egoisticamente encarna um papel de omnipotente e tirano, para mim deixa de ser BDSM e há sim uma certa "violentação" dos parâmetros.

Porque na minha jornada me deram latitude e adjectivaram e projectaram como "famosa" (suponho que no sentido de gostarem do que afirmava e das minhas posições públicas sobre temas tabú até), porque integrei o Projecto Dominium com visibilidade, porque a certo ponto cheguei a sofrer o "peso da fama" - necessariamente a bondarina fora das entregas a um Dom/Dono teve de se adaptar e fazer mil malabrismos para agradar a gregos e troianos - com muita perda pelo meio, embora valesse a pena!

Mas na essência a bondarina é só uma e será sempre; mantive-me fiel a princípios de que jamais abdicarei e continuo a ajudar quem precisar. Inimigos? Claro que os fiz, mas quem não faz. ao longo da Vida, em qualquer micro-cosmos...
A bondarina/eu fez tudo que tinha a fazer - em público e em contexto BDSM, sem remorsos, culpas ou arrependimentos. O que saiu bem, excelente, o que nao saiu tão bem - faz parte de aprender!
Se a bondarina tivesse de mudar - teria morrido!