segunda-feira, março 27, 2006

"Os amigos...
Temos falado tantas vezes dos nossos parceiros em relações amorosas, mas nunca dissemos que os amigos são o alvo sistemático dos estilhaços. Ainda por cima, amigos um pouco (ou muito!) negligenciados durante paixões violentas, omnipresentes, decididos a não partilhar nada, espaço ou tempo. E os amigos não protestam, limitam-se a esperar o amor (por definição mais tolerante) ou a ruptura, ávida de ombros para chorar saudades e rancores. E lá aturam os nossos lutos pelo outro que perdemos e pela parte de nós que se recusa a deixá-lo. Ouvem, até à exaustão, rosários de queixas, silêncios teimosos, esperanças envergonhadas, tiritam debaixo do dilúvio k segue o outro. Os amigos proporcionam-nos o colo indispensável para sobreviver ao fim do Mundo, ou seja, no meu calão, para regredir e ficar enroscados até ganhar coragem para o "regresso à pista". Para novo round com a mesma pessoa ou para tactear outra relação".

"Lançámo-nos ao trabalho de tirar esqueletos do armário e fazê-los dançar, como aconselhava Bernard Shaw.
Digerir, o Passado não se esquece, negoceia-se..."


"O Sexo dos Anjos" - Júlio Machado Vaz
Amigos!
"A TENTAÇÃO PERMANENTE DA VIDA É CONFUNDIR VERDADE COM NECESSIDADE DE ACREDITAR; A DERROTA CONSTANTE DA VIDA É QUANDO O SONHO SE RENDE À REALIDADE!"
anónimo

sábado, março 25, 2006

...DESMISTIFICANDO....

Porque acho que há ainda muita falta de compreensão relativamente ao que é e como se faz a prática do BDSM, e porque aparentemente falhei aqui, apesar das tentativas, ao tentar definir este estilo de vida alternativo, antes de mais considerandos, vou tentar, num resumo mínimo, fazê-lo agora.
Como todos os estilos de vida alternativos, BDSM - Bondage (restrição de movimentos), Dominação e Sado-Masoquismo - depende acima de tudo de uma filosofia de vida e de uma escolha...
Todo o ser humano vive a sua vida sem desenvolver nem metade das suas capacidades físicas e mentais, como é do conhecimento científico. O corpo e a mente são usados consoante as necessidades e não se expandem per si, quer no que toca a exploração sensorial ou/e outra. Dependendo dos obstáculos procuram-se soluções mas, as mais das vezes, numa rotina que apenas satisfaz mas não realiza. Alguns têm necessidade de ultrapassar esse limite, muitas vezes sem consciência do facto, e procuram alternativas, quer no Swing (troca sexual de parceiros, entre casais), outros tornam-se Budistas, outros isolam-se como eremitas, outros adoptam o negro dos Góticos, outros são seja o que for... São estilos de vida alternativos ao socialmente designado "normal" que geralmente é feito pelas maiorias; no entanto, todos são legítimos porque dependem de uma escolha livre de maneira de estar e sentir, sem imposições ao próprio e/ou a terceiros.
Apesar dos rótulos de violência e de distúrbio mental que sempre acompanharam a prática do BDSM, talvez nem todos saibam que as três regras deste estilo de vida assentam em três premissas: SÂO, SEGURO e CONSENSUAL, sendo a última a palavra-chave. Tudo que se passa na prática do BDSM é consentido entre as partes, gerando momentos de intensidade física (com ou sem objectivo sexual) SEGUROS e com perfeita SANIDADE MENTAL!
Há inumeras variantes nesta prática e podem ser mais de cariz erótico/sexual, apenas de Dominação Psicológica, numa vertente de dor (Sado-Masoquismo), tudo junto, ou sem qualquer destes ingredientes, mas... é sempre consensual e provoca sempre sensações novas e únicas, pessoais. Nunca usei drogas mas nsta prática suponho que haja muitas "viagens" semelhantes às experimentadas com drogas pesadas, já que os sentidos (através da libertação de endorfinas) não encontram travões e barreiras à sua total revelação. Tudo o resto só se percebe sentindo...
Alguém aqui comentou que, como eu a descrevo, esta prática parece muito bonita!
Tudo o que se faz com o coração limpo e aberto é bonito, por verdadeiro que é...
Alguns de nós tentam ser sempre melhores no percurso da vida e conhecerem-se melhor e encontrarem um equilibrio; alguns nunca o descobrem, outros nao desistem de o encontrar.
Pessoalmente, saber que há mais gente que se libertou (e não só no BDSM) e cresceu melhor por tal, faz-me sentir bem e ajuda-me a pensar que afinal tudo é mais fácil do que parece, se ao menos as pessoas se dessem uma chance de "arriscar" e procurar mais do que lhes foi dado. Cada escolha é legitima, se livre! Cada caminho é o melhor, se dependeu da vontade! Somos todos apenas gente a tentar...

Para quem quiser tentar entender esta filosofia e/ou estilo de vida alternativo, há imenso material disponível na net, mas recomendo a curiosos/principiantes www.desejosecreto.br.com ou www.bdsmportugal.com ou www.bondage-r-us.com (alguns dos foruns portugueses de canais de IRC com o mesmo nome), onde é feita a discussão, saudável, de quase tudo em volta desta temática, por praticantes e não-praticantes! Neste blog, recuando no tempo, há também inúmeras referências a autores conceituados quer no campo teórico quer na consagração científica, no sentido de definir e avaliar itens referentes ao BDSM em geral. E depois há um sem-número de vossos conhecidos que, decerto, até fazem BDSM sem saberem que Dominar a parceira no "rough sex" não é muito diferente do que se passa com uma submissa que se entrega a um Dominador...

sexta-feira, março 24, 2006

Volatilização

Frequento Foruns e canais de IRC de BDSM há uns anos.
Quando entrei neste mundo paralelo, o frescor da inocência em tudo era o que me movia...
Depois, como em tudo na vida, começamos a assinar declarações de intenções e de factos, e sem sabermos como, já fazemos parte da engrenagem. Dá-se a desilusão e o recuo, o repensar das coisas, o querer isenção... mas é tarde demais. Sem percebermos, já lá estamos e já fazemos parte do puzzle, das mesquinharias e das tonterias e das intrigas; não compactuámos, mas estivemos lá e assistimos e isso faz de nós cúmplices sem retorno.
No começo achava que me conseguiria manter àparte e fiz de tudo para que assim fosse, mas não é possível. A vida e as sub-vidas da vida obrigam-nos a compromissos e à tomada de atitudes, e o que é a nossa conciciência não é uma consciência colectiva.
Hoje perguntaram-me "desencantada?"... e hesitei.
Sim, desencantada pela realidade geral e não pela da gente em torno do BDSM e dos seus meandros mais sórdidos; desencantada com a vida e a gente, comigo e com o que nao faço e com o que faço. Sei que vou continuar em frente, estou de olhos secos e não é muito grave; acho que de cada vez que uma tomada de consciência nos assola se torna mais fácil porque de cada vez é mais previsível. Não estou triste, só sem saber o que fazer quando percebemos que nos estamos a tornar Sanchos Panças a acompanhar Dom Quixotes sem Rocinantes...
Não mudava uma linha na minha vida, excepto numa situação fora do BDSM.
Mas usava mais sinónimos e menos metáforas, fazia menos romance com dias de borrasca que são o que são - dias de borrasca! Não queria voltar atrás, mas gostava de avançar rapidamente.
Descobri que depois dos 40 a vida só é miserável porque nunca mais surpreende, um ciclo de dejá vus e de coisas aquecidas insiste em instalar-se ad eternum. Odeio rotinas. Odeio vidas cheias de rotina. Gente sempre igual. Eu, sempre igual...
Enquanto acreditamos vale a pena, mas depois, como rotular esta permanente, insofismável e quase patética leveza do ser? Porque insustentável sempre soube que era! Mas porque tem o ser de ter leveza?
O BDSM dá-me paz. Uma paz séria e compacta. Não uma paz mole, de faz-de-conta. O BDSM deixa-me ser como sou - liberta-me numa viagem dos sentidos e da alma; ganho alma com consistência, quase com cheiro e textura. Renasço em cada dor e em cada ordem cumprida, em cada humilhação que aguento, em cada silêncio de garganta fechada; sinto-me feliz por não estar triste e atenta ao que se passa fora de mim, dou prazer a quem me Domina, sendo, ao deixar de ser... As funções todas cumpridas e os sonhos todos ao rubro. A volatilização.
E nunca o ser foi tão leve...!