quarta-feira, março 08, 2006

SONETO LVII - William Shakespeare

"Sendo Seu escravo que poderia eu fazer a não ser curvar-me, entre as horas e os momentos do Seu desejo? Eu não tenho um tempo precioso a gastar, nem serviços a fazer até que a Senhora mande. Nem ouso reclamar da interminável espera, enquanto eu, minha Soberana, olho o relógio por Si. Nem penso no amargor da Sua ausência. Quando disseste ao Teu servo para sempre adeus, nem ouso indagar com meus pensamentos enciumados onde pode estar, ou seus assuntos supor. Mas como um triste escravo, espero e nada penso. Fique onde está, faça outros tão felizes quanto me fizeste a mim... Bem verdade é que o Amor é um tolo que, sob a Sua vontade, embora faça de tudo para mostrá-lo, não vislumbra o Mal."

...UMA FANTASIA EM DUAS PARTES...

“Estou deitada na cama e olho o tecto.
O Meu Dono acaba de me atar as pernas abertas ao fundo da cama; tenho os pulsos amarrados à coleira bem apertada, por argolas e presilhas. Uma corda força o pescoço a não se afastar da cama. Estou nua e completamente exposta. O silêncio é amigo…
Fito o tecto e não penso sequer.
O Meu Dono surge dos pés da cama com uma placidez que intimida, e coloca-se do lado direito do leito, olhando-me, sem falar. Uma pausa, em que continuo submissamente a respeitar o Seu silêncio, imobilizada, exposta e Sua!
- Hoje vais-Me servir como nunca o fizeste antes…
Vamos ter visitas e quero que sirvas dois Dominadores meus amigos como se me servisses a mim. Não lhes chamarás Dono mas sim Meu Senhor, e obedecerás como se Me servisses…
Eles sabem os meus limites no que te toca e sabem o que não quero que façam e vão-me respeitar; tenho completa confiança neles.
Eu continuava a fitar o tecto e senti-me importante; o meu Dono confiava em mim para não lhe falhar, e cabia-me estar à altura.
Tínhamos uma relação sólida sem violência gratuita mas na base do castigo/recompensa, em que ele era justo e gratificante; com disciplina eu tinha já ultrapassado muitos limites que pensava ter e o Meu Dono sentia-se contente com a minha servidão. Sem grande alarde, tínhamos uma relação sólida e equilibrada de Dono/escrava. Confiava inteiramente Nele e entregava-me por inteiro e ele mantinha exclusividade comigo, excepto quando decidia em contrário, raramente, mas informando-me sempre. Nem sempre fora uma relação nestes parâmetros, mas gradativamente conseguimos construir um duo de cumplicidade e obediência. Éramos ambos felizes no BDSM, e não hesito em dizê-lo.
O Meu Dono silenciou-se e continuou enorme, de pé, a olhar-me, indefesa e entregue aos Seus desejos…
Fez-me uma carícia na teta direita, com carinho, brincando com o mamilo, não me causando dor. Olhei-o e percebi que ele estava simultaneamente contente mas também apreensivo, como se lhe fosse penoso aquele teste. Pensei se não lhe seria mais a ele do que a mim…
- Estarei na sala com as suas escravas, ainda não decidi se virei assistir ou não, não houve condição imposta de parte a parte nesse sentido. Eles trazem as suas escravas – uma é já escrava há muito tempo de um dos Doms, a outra foi iniciada recentemente. Posso usá-las se me apetecer, decidirei na hora! Se precisares de mim em caso extremo, estarei na sala, mas acredito que não será preciso. Entrego-te nas mãos deles em plena consciência, certo que te respeitarão enquanto Minha e Minha escrava.
Voltou a olhar-me em silêncio, afagando-me o rosto como se fosse uma despedida. Eu mantinha os olhos no tecto e o Meu Dono desviou-me o rosto na sua direcção, docemente.
- Estás contente por Me servires hoje?
- O meu prazer é o Seu prazer, Meu Dono.
Disse-o de alma cheia e crente no que sentia – um contentamento cheio de leveza.
- O que és tu?
- Sua, Meu Dono, a Sua cadela que Lhe obedece, o Seu objecto que Lhe dá prazer.
- Que és tu, Minha cadela?
- A Sua escrava para O servir, Meu Dono.
As palavras saíam confidentes e seguras, livres na servidão voluntária.
- Estás feliz por ser Minha, Minha escrava?
- Sou feliz em O fazer feliz, Meu Dono.
- Que és tu?
- A Sua escrava para o servir, Meu Dono.
- Que és tu, submissa?
- A Sua escrava para O servir, Meu Dono.
Senti que o Meu Dono me tinha em pleno, porque se me dava em pleno também. A fantasia era real, eu era Dele e bastava-me isso. Servi-Lo com gratidão e esperar a recompensa no afago que agora me fazia no mamilo esquerdo, torcendo-o e olhando-me nos olhos sempre.
Depois levantou-se, enorme.
- Só te vens em orgasmo com consentimento dos Senhores, entendido? A última semana de cinto de castidade não foi à toa, escrava. – O Meu Dono sorriu com inocência maléfica. Eu sorri por dentro; o Meu Dono conhecia-me bem… e isso dava-me paz, a paz dos escravos, dos submissos, dos que servem.
- Sim, Meu Dono!
Ele levantou-se e caminhou na direcção da porta, tapando-me antes apenas com um lençol. Ficou acesa só uma luz de presença no quarto, difusa, relaxante. Ouvi a porta fechar-se e suspirei. Pensei em tudo e mantive-me serena, mas tentei aliviar a posição dos pulsos nas algemas da coleira. A corda no pescoço não me deixava um centímetro de margem para me mover acima do tronco. As pernas abertas faziam o sexo latejar. Tentei não pensar no que se seguiria, sabia que estava segura, com o Meu Dono na sala…
Passou-se muito tempo, talvez mais de uma hora, e em completo silêncio e quase escuridão, jazi, tranquila mas desejando que tudo acabasse depressa e o Meu Dono me afagasse a Seus pés. Era esse o momento em que a reconciliação com o equilíbrio acontecia, em que o Céu e a Terra voltavam ao lugar!
Ouvi a campainha da porta soar.
Reconstituí mentalmente os passos do Meu Dono em direcção ao hall de entrada, os cumprimentos cerimoniosos aos Doms amigos, a exposição das escravas pela nudez, coleiras e posição de quatro. O ritual da submissão à porta do Mundo, da entrega no servir.
Imaginei tudo sem saber o que acontecia.
Ouvi vozes na direcção da sala e depois a porta do frigorífico na cozinha, gelo nos copos – a hora dos whiskies.
Mas o som das pedras de gelo aproximou-se mais e a porta abriu-se, dando passagem ao Meu Dono com um whisky generoso na mão direita.
Ficou do lado esquerdo da cama, a olhar-me.
Depois, sem falar, destapou-me atirando o lençol para os pés do leito. Ficou a olhar-me, Dele… Eu senti apenas, sem pensar. Calmamente. Em paz… Não O iria desiludir.
- O que és tu, submissa?
- O Seu objecto de prazer, Meu Dono.
- Que és tu, escrava?
- A Sua cadela para O servir e Lhe dar prazer, Meu Dono.
- Que és tu, cadela?
- A Sua escrava, Meu Dono.
- Não te esqueças disso!
Encostou-me as costas da mão direita aos lábios e esperou que a beijasse. Assim fiz, com solenidade.
A escrava prestava tributo ao Seu Dono.
Ele saiu em silêncio.
Passou-se algum tempo em que só ouvi correntes a arrastar na sala e a dança dos cubos de gelo nos copos. Sabia que nenhum dos outros Senhores teria a mesma relação com as suas escravas como o Meu Dono tinha comigo - plena de dedicação mútua e num trabalho de equipa que nos tornava a ambos maiores e menores, dignos e serventes, justos e obedientes, a minha alma à imagem da Sua.
De repente a porta do quarto abriu-se e eu inspirei fundo.
Dois Dominadores rodearam a cama e apresentaram-se como DomX e DomY, avisando que os devia tratar por Meu Senhor, já que o Meu Dono não eram eles nem pretendiam ser. Que só me iriam usar!
Então…”

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

"Há mulheres que só obedecem às ordens dos maridos, os satisfazem e lhes dão prazeres voluptuosos na cópula se a isso forem obrigadas com pancada e maus tratos. Algumas pessoas atribuem esta conduta à aversão que sentem pela cópula ou pelo marido; mas não é o caso: é apenas uma questão de temperamento ou carácter."

in "O Jardim Perfumado" *

* "Tanto quanto se sabe, esta obra foi escrita pelo Xeque Umar Ibn Mohammed al-Nefzaui, e a data de composição ainda não foi acordada pelos críticos: uns datam-na no séc. XVI, outros no início do séc.XV e até mesmo final do séc.XIV. Descoberta em meados do séc.XIX por um oficial do estado-maior francês em serviço no Norte de África, conheceu em francês a primeira versão europeia, para, anos depois ser trazida novamente ao convívio do mundo culto por Sir Richard Burton, que a publicou em edição limitada em Inglaterra.O Jardim Perfumado é um panegírico do amor, um cântico à sensualidade, um clássico do erotismo. Mas, além disso, constitui também uma obra de grande interesse para os estudiosos da antropologia e da etnologia e uma achega de rara importância para o conhecimento e a compreensão da mentalidade árabe. O que o Karma Sutra é para a civilização hindu, é O Jardim Perfumado para a civilização árabe."

"Não temos de recear a comparação entre os prazeres dos
sentidos e os prazeres intelectuais. Não caiamos no erro de acreditar que
há prazeres naturais de duas espécies, uma mais ignóbil que outra: os prazeres mais nobres são os maiores."



"Essai de Philosophie Morale"
Moreau de Maupertuis (Berlim, 1749)