quinta-feira, janeiro 12, 2006

O MASOQUISTA – ou como arranjar maneira de sofrer sempre

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O Dr. E. Pichon-Riviére demonstrou que não se pode imaginar um masoquista sem um sádico que exerce sobre ele um poder, o desvalorize e tenha prazer à sua custa ao desencadear dor física e moral. Tudo está na ligação.

Freud abordou esta perversão em termos de relação: um indivíduo não pode conceber-se fora da relação com outro, inter-funcional e reciprocamente estimulante, mostrando que o retorno, à própria pessoa, de uma pulsão parcial – que é a sua realização mais perfeita – depende da acção que o outro exerce sobre si, no fantasma ou na realidade. No entanto, o Dr. E. Pichon-Riviére convida a pensar cada relação como um triângulo: são dois na aparência mas, inconscientemente, um terceiro está presente. (…)

Tenho (Alberto Eiguer - psiquiatra, psicanalista, especialista em terapia familiar) tendência a pensar que o comportamento sádico imaginado por um masoquista nada tem a ver com aquele que o sádico realmente pratica. (…) No masoquista, a parte imaginativa da sua perversão é importante, tanto mais que a abstinência sexual lhe fornece um complemento de prazer através da insatisfação. Freud propõe expor-nos o modo como nos constituímos a partir daquilo que temos originalmente, a saber, uma torrente de forças insensatas. E Freud consegue inverter integralmente a questão, dado que o masoquismo, uma vez transformado em representação, nos ajuda a viver; mais tarde dirá que é isso que permite ao indivíduo domesticar a sua pulsão de morte, que se funde com Eros, constituindo o masoquismo um compromisso entre estas duas partes. Deleuze assinalou a disparidade entre o funcionamento do perverso sádico e o do masoquista, em que o primeiro se mostra impulsivo enquanto o segundo é sonhador ou até lírico.



AS TRÊS FORMAS DE MASOQUISMO PARA FREUD
Na perversão masoquista a pessoa não pode aceder ao prazer sexual se não experimentar um verdadeiro sofrimento físico, que lhe é infligido de acordo com modalidades por ela decididas – é isto que normalmente se entende por masoquismo. Freud dividiu isso em três categorias, algumas não directamente sexuais:
1) masoquismo sexual
2) masoquismo moral (ou de carácter)
3) masoquismo feminino

A isto opõe-se um sadismo sexual, sadismo moral e um… sadismo naturalmente “masculino”, que podemos associar a activo e dominador, embora estas duas características não cubram integralmente o masculino…

(…)

COMO IDENTIFICAR UM MASOQUISTA
Sob a aparência de docilidade e discrição, todo o masoquista se arrisca a esconder um ser capaz das piores cóleras e até da destrutividade mais insensata, uma aptidão para fazer mal, tanto mais perigosa quanto imprevista. Masoquista é alguém que se queixa de não ter vivido senão desgraças. É um azarado. Só lhe fizeram porcarias. A sua vida é um desfiar de insucessos. Toda a gente abusa dele. Ninguém jamais lhe agradece. No entanto, encontra desculpas para os que foram duros, implacáveis ou destituídos de escrúpulos para com ele. Não diz forçosamente que gosta de ser desprezado, castigado ou rejeitado. Por outro lado, não sabe tirar o menor proveito dos momentos de prazer. Se tem êxito, fica descontente. Por vezes encoleriza-se ou amua; atenção, pode estar à espera de uma reprimenda. Evite pois dizer-lhe que ele é bonito ou que faz bem aquilo que faz: na melhor das hipóteses procurará demonstrar-lhe o contrário, na pior, odiá-lo-á. Teste: dê-lhe um presente muito, realmente muito bonito e valioso. A resposta será: “Não se devia ter incomodado.” Dir-me-á que é uma resposta frequente. A diferença é que o masoquista pensa mesmo isso, sem qualquer falsa modéstia. Sofre com isso. Uma prova: algum tempo depois, como por acaso, o presente estragar-se-á ou partir-se-á.”

(a ser continuado…)


Adaptado de
“Pequeno Tratado das Perversões Morais”
Alberto Eiguer
(1997)

domingo, janeiro 08, 2006

As aparências!

Acabei o ano com saldo negativo.
Muitas perdas irremediáveis e gente que se foi e deixou marca...
Vários sentimentos espalhados pelo chão, quer em BDSM quer na vida real, como gosto de lhe chamar.
Um pouco de tudo!
Não sei porquê nem para quê, mas sei que aconteceu e que fiquei mais pobre por dentro, mas mais forte por fora... Sei que afinal valeu a pena, mas agora, à distância, longe já da espuma dos olhos revoltos.
Falo de gente e falo de pessoas - em grupo, e separadamente. Em almas e corações que nem sempre estão do lado esquerdo, em tanta coisa que nunca entenderei. Falo de dar e não receber, de querer e nao ter para dar, de ter o que nao desejei, de tantas equações em que os nós dos dedos ficam brancos de tanto apertar.
A vida é feita de ciclos e a sabedoria popular diz que o que não nos mata torna-nos mais fortes! Pode ser verdade, também me sucede o mesmo, mas a que preço...
E tudo em nome de aparências, em fazer de conta, em fingir, em "pretender" que se é aquilo k nao se é...
Sinto-me um dos aliens do filme do Carpenter, em que uns oculos desnudam a Verdade e expoem a mentira. Só que mesmo sem oculos continuo a sentir-me alien, extraterrestre, como o Valentine Love Smith do Henlein, estranha numa terra estranha!
Restou-me um ponto positivo no final deste ano maldito, sofrido, castigado, dorido, mas que valerá sempre a pena... Ajudei alguem a crescer por dentro, a enfrentar os seus medos, a decidir se quer viver ou apenas vegetar, resignado a um medo maior. Sorri ao fazer os meus doze desejos porque ele entrava neles, por si e para si, sem mim. Já sabe caminhar... já nao precisa de mim, e eu com a sensação de ter ajudado um pato a bater as asas. Um pato nao é um pinto, para quem nunca viu um pato! Um pato um dia tem de migrar, mas antes disso aprende a caminhar em duas patas, a bater duas asas e a mergulhar para comer. O meu amigo já era pato adulto e fiz tudo para que voasse, limitei-me a abrir-lhe as asas e a tirar-lhes a nafta do Mundo. Depois, quando chegou ao Sul, deixando-me feliz por ele ter conseguido - arrancou as penas das asas, sentou-se num canto da capoeira e jurou jamais voltar a voar; fiquei triste mas os patos tb têm direito a decidir não voar...
"If You Love Someone, Set Him Free!"

terça-feira, janeiro 03, 2006

"(...) Nada está dito. Ainda chegamos muito cedo, depois de haver homens há mais de sete mil anos. No que diz respeito aos costumes, como em tudo o resto, o menos bom é arrancado. Nós, os hábeis de entre os modernos, temos a vantagem de trabalhar depois dos antigos. Somos susceptiveis de amizade, de justiça, de compaixão, de razão. Oh meus amigos! que é entao a ausencia de virtude? Enquanto os meus amigos nao morrerem, nao falarei da morte. Estamos desolados com as nossas quedas repetidas, por vermos que as desgraças conseguiram corrigir-nos dos defeitos.
Não se pode julgar a beleza da morte senao pela da vida.
As reticências finais fazem-me encolher os ombros de compaixão. Haverá necessidade disso para se provar que se é um homem de espírito, isto é, um imbecil? Como se a clareza nao valesse o indefinido, nisto de reticências!"


"Os Cantos de Maldoror"
Isidore Ducasse / Conde de Lautréamont (1846/1870)