quinta-feira, outubro 20, 2005

ESTILOS DE VIDA ALTERNATIVOS

"Ter uma sexualidade que difere da "normal" pode tornar necessário, ou desejável, um estilo de vida alternativo. Uma orientação sexual menos comum do que a normal pode estigmatizar o indivíduo, levando a pessoa a procurar uma subcultura mais receptiva, por ex. homossexualidade e a formação da comunidade gay."

"Screw The Roses, Send Me The Thorns - The Romance and Sexual Sorcery of Sadomasochism"
Philip Miller & Molly Devon (1995)


"Não se escolhem as coisas em que se acredita! Elas escolhem-nos a nós!"

filme "Relatório Minoritário"

terça-feira, outubro 18, 2005

INCÊNDIO

"Se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra de uma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha - não te assustes.

São os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos
e vêm visitar-te.

Diz-lhes k vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo - diz-lhes k se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas - com eles no chão.

AL Berto - "O Medo"
(1948-1997)





sexta-feira, outubro 14, 2005

Nuvens e contrastes!

Perguntou-me se eu gostaria de chorar numa sessão...
Hesitei e disse que não!
Antes, como me tivesse tirado fotos em sessões anteriores, questionou-me se tinha ou não gostado de me ver nas imagens, nos momentos no Tempo, encarcerados por uma simples máquina fotográfica...
Confessei que demorara muito a decidir se as quereria ver ou não, receosa de a terrível verdade me saltar aos olhos como um morcego na noite, implacável, a colar-se na retina! Para sempre...
Porque durante um encontro entre um Dominador e uma submissa, o Tempo é adiado, a realidade transfigura-se, e o que é, deixa de ser... E a verdade é que na primeira vez que me vi imortalizada nas provas desses encontros senti-me nua, assustou-me ver olhos cerrados e mamilos tumefactos, boca torcida, nádegas marcadas a vergasta, e mãos crispadas.
Ninguém, nunca, vai saber como uma entrega em BDSM se faz, excepto quem se dá ao prazer da dor; quem se deixa ir na correnteza do sentir.
E a cara... o rosto que deixou de ser o meu em esgares de uma dor anunciada e nunca adiada! É o semblante que me apavora - como uma revelação jamais esperada, trazendo à superfície o quê? O melhor da alma, ou o pior dos sentidos?
Tudo é demais numa sessão, tudo é exagerado, é puxado, é levado aos limites... é passado dum lado para o outro da barreira do correcto; Bem e Mal fundem-se, o Mundo faz o pino, tudo muda de lugar...
Triste é sair do casulo das quatro paredes cúmplices para uma existência sem nada de novo, sem contrastes, sem nuvens, com tudo no sítio, a pedir por favor um dia atrás do outro. Patético é subir o colarinho para esconder as marcas. Fantástico é saber que depois de entrar no carro e acelerar vinte minutos para longe do ninho das sensações, o Dominador vai dizer: "Conta-me tudo!"
Porque já ficou para trás, já fechamos a porta do quarto e já entregamos a chave, deixando rugas nos lençóis, mas trazendo as marcas no corpo, na alma. O Dominador cansado de aplicar a sua justiça, satisfeito de ser Senhor no seu mundo privado. A submissa a latejar por dentro e por fora, olhos brilhantes, feliz por fazer parte do mundo do seu Mestre, de quem a orienta para novos prazeres inqualificados, incomensuráveis, inominados... numa corrida contra conformismos e rótulos!
Acaba por ser uma metáfora de vida, resumida a umas horas num quarto de dormir - o Bem e o Mal, numa luta corpo a corpo, em que nunca se sabe se vale a pena, até ao momento de ir embora... Difícil é quando se abandona o local mas se permanece de quatro, nua, aos pés da cama. Fascinante é nunca se chegar a saber quem ganha a luta - se o Bem se o Mal. Mas a consciência de que as marcas nunca sairão da pele do sentir, essa realidade sem fundo, como um poço, não tem nome...

Agora que o Tempo passou e a chave foi entregue de vez, posso adiantar que não valeu a pena!
Nem sempre as entregas são reais de ambos os lados.
Nem sempre a Verdade origina eco.
Este texto foi escrito em Dezembro de 2004.

ML