"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto -
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."
Poesias, Álvaro de Campos
(Fernando Pessoa)
"TODOS SÃO CAPAZES DE DOMINAR UMA DÔR, EXCEPTO QUEM A SENTE!" William Shakespeare
quarta-feira, agosto 31, 2005
terça-feira, agosto 30, 2005
Porque os seixos rolam para o mar e perdem-se na maré alta, para sempre!
Ando afastada daqui e da vida e de mim e dos amigos.
Peço desculpas a todos!
Descobri que na vida tudo o que se pode fazer é tentar!
Nesta fase da minha existência, tento sobreviver - primeiro porque sou cobarde demais para desistir, depois porque"viver é preciso!"
Ultimamente, descobri que as dores são todas iguais, independentemente da causa - o efeito é que doi, lateja como membro decepado por uma lamina afiada! O membro vai-se mas a vontade de o mover está no cérebro e é ele quem comanda os actos, reflexos ou nao!
A minha dádiva ao Mundo não é reflexa - é um prazer dar-me e um prazer receber o amor e o carinho e as dádivas de gente e gente e mais gente! Quando me dão ódio e mentira e desonestidade, morro um pouco e de cada vez doi mais!
Escusado fingir que ando feliz!Não ando, e os meus leitores/amigos/críticos que me ajudam aqui nas horas boas e más a dizer k existo, sabem-no certamente!
Desta vez, a desilusão foi na prática de BDSM, nas entregas que não têm retorno, mas se fosse na vida de todos os dias era igual
Uma dor é sempre uma dor!
A da chibata desaparece com agua e sal.
A da vida nunca passa, nunca cicatriza!
Peço desculpas, porque lamento ter-me dado demais a quem nunca me quis ter e por isso ter roubado aqui um pouco do que vos era devido! Lamento deveras...
Tudo o que se pode fazer é tentar!
E eu sem duvida que me esforço de verdade para ser uma pessoa melhor!
Porque os seixos rolam para o mar e perdem-se ai na maré!
Para sempre!
Peço desculpas a todos!
Descobri que na vida tudo o que se pode fazer é tentar!
Nesta fase da minha existência, tento sobreviver - primeiro porque sou cobarde demais para desistir, depois porque"viver é preciso!"
Ultimamente, descobri que as dores são todas iguais, independentemente da causa - o efeito é que doi, lateja como membro decepado por uma lamina afiada! O membro vai-se mas a vontade de o mover está no cérebro e é ele quem comanda os actos, reflexos ou nao!
A minha dádiva ao Mundo não é reflexa - é um prazer dar-me e um prazer receber o amor e o carinho e as dádivas de gente e gente e mais gente! Quando me dão ódio e mentira e desonestidade, morro um pouco e de cada vez doi mais!
Escusado fingir que ando feliz!Não ando, e os meus leitores/amigos/críticos que me ajudam aqui nas horas boas e más a dizer k existo, sabem-no certamente!
Desta vez, a desilusão foi na prática de BDSM, nas entregas que não têm retorno, mas se fosse na vida de todos os dias era igual
Uma dor é sempre uma dor!
A da chibata desaparece com agua e sal.
A da vida nunca passa, nunca cicatriza!
Peço desculpas, porque lamento ter-me dado demais a quem nunca me quis ter e por isso ter roubado aqui um pouco do que vos era devido! Lamento deveras...
Tudo o que se pode fazer é tentar!
E eu sem duvida que me esforço de verdade para ser uma pessoa melhor!
Porque os seixos rolam para o mar e perdem-se ai na maré!
Para sempre!
quarta-feira, agosto 24, 2005
quinta-feira, agosto 18, 2005
Submissas e Doms Descartáveis!
Por vezes surpreeendo-me com a receptividade dos meus leitores a este despretencioso blog!
Não raramente suregem comentários que me deixam a pensar! Por ser este o caso e por achar que há coments que merecem passar a posts, abro aqui a excepção que confirmará a regra sempre que o ache necessário, não desmerecendo qualquer um dos outros posts! Porque este tema é controverso mas muito constante, aqui seguem as respostas ao post "Como se Reconhece Uma Entrega?"...
TheVanilla:
«A linguagem é uma fonte de mal entendidos» - Saint Exupéry
«O Homem que vê mal vê sempre menos do que aquilo que há para ver; o Homem que ouve mal ouve sempre algo mais do que aquilo que há para ouvir» - Nietzsche
Na confusão do que sentimos, ouvimos e vemos contrabalançado com o que queremos (ou precisamos) sentir, ver e ouvir, que opções temos?Opto sempre pelo que sinto. A linguagem pode de facto ser uma fonte de mal entendidos, mas é-o especialmente porque poucas pessoas se esforçam por ouvir com o coração/alma. A alma... esta coisa que nos faz diferentes dos outros animais e que nos devia permitir reconhecer uma ENTREGA sem que fosse preciso uma palavra. Não deveria bastar para tanto os sinais de entrega, aqueles que mesmo que não se vejam se sentem? Porque é que quase nunca chega o que se diz sem palavras?! Porque é que nem depois de tentarmos dizer as palavras certas (quais serão as palavras certas????) parece chegar?!As pessoas são animais complicados. Pelo menos as que respiram com alma.«Muitas vezes, a alma parece-me apenas uma simples respiração do corpo» - Marguerite Yourcenar
vanderdecken3 :
Como se reconhece uma entrega? Não sei como se reconhece, mas reconhece-se. Acho que tens razão quando escreves que a entrega é interior mais do que exterior «esotérica» mais do que «exotérica», se quisermos exprimir-nos (o que até é apropriado) em termos espirituais.Que a entrega é facilmente reconhecível, e que é uma coisa interior, prova-o um fenómeno que não é de modo nenhum raro; o do escravo que «pune» o seu senhor e se assenhoreia dele cumprindo escrupulosamente todos os rituais da entrega, mas não se entregando de verdade. Qual é o senhor que não se apercebe disto e que não é afectado por isto? O escravo finge que finge a entrega para deixar bem claro que não se está a entregar; e o senhor sabe que está a ser punido porque pela sua parte também não se entregou.A entrega só não se reconhece por cegueira ; e entre senhor e escravo, ou estão ambos lúcidos, ou estão ambos cegos. Não há meio termo.
MissLibido:
Recentemente, soube de uma história que envolve um Dom e uma sub numa relação D/s de um ano de sessões esporádicas. O Dom sempre incentivou o lado SM da relação, a submissa sempre o acompanhou numa entrega total e, um ano volvido, ele desiste dela em prol duma submissa que aprecia hard SM. Apesar do secretismo da relação e do factor distância, era visivel a quantos conheciam o par a entrega da submissa em questão, que o Dom nunca questionou mas sempre reconheceu em teoria. Quando resolve escolher outra sub, sem qualquer bom motivo aparente, a sua primeira sub questiona-o, amargurada: "como vai fazer para me devolver a minha entrega?"Será legítimo um Dom fazer a sua sub avançar numa via por si escolhida e de repente "lançá-la as feras", apesar da entrega? Uma entrega devida e reconhecida não obriga a uma certa ética de dever?
vanderdecken3:
«Como vai fazer para me devolver a minha entrega?»Esta é uma pergunta terrível, que eu nunca ouvi e espero nunca ouvir na minha vida. É claro que a entrega da escrava obriga a uma ética do dever. Se não for um dever do Senhor para com a sua escrava - que por definição não tem direitos - é certamente um dever do Senhor para consigo mesmo.Eu, sinceramente, não sei o que faria na posição do dominante que tu referes. Ou encontrava uma maneira de devolver à minha submissa a sua entrega, ou, se não a encontrasse, não lha devolveria, e obrigaria a minha segunda submissa a aceitar a presença da primeira.O que me colocaria, se a segunda me obedecesse, perante um novo problema: pode um dominante ter duas submissas ao mesmo tempo?É claro que pode, dirão alguns. E até deve, dirão os mesmos : que melhor maneira haverá de deixar claro a uma escrava que ela é que pertence ao seu Senhor, e não ele a ela, do que obrigá-la a uma fidelidade à qual ele não está obrigado? Eu próprio cheguei uma vez a tentar adquirir uma escrava enquanto tinha outra. Não o consegui, e por isso não sei qual teria sido o resultado de ter duas escravas ao mesmo tempo.Hoje, que não tenho nenhuma, não estou para aí virado. Estou de novo à procura duma escrava, mas só de uma. Há alguma coisa em mim, que não sei muito bem o que é mas de que tenho muito a certeza, que se revolta contra a ideia dum harém.Acho que objectivamente o harém teria sido a melhor solução para o dominante que referes, e concebivelmente também para as duas submissas envolvidas; mas tudo depende dos afectos em jogo, e esses não sei quais são. Para mim, na fase a que cheguei, o harém seria uma solução emocionalmente impossível ; teria que escolher entre as duas submissas ; e, tendo que escolher, escolheria provavelmente aquela a quem não tivesse que devolver a entrega.
MissLibido:
O seu texto é contraditório: se por um lado diz k tem de haver sim uma ética do dever, por outro concluiu k escolheria aquela a quem não tivesse de devolver a entrega! Uma submissa descartável não deixa de ter alma, nem deixa de ser menos gente por isso... assim como facto de o Senhor a fazer descartável, por analogia faz dele também um Dom descartável! A ética do dever diz-me que se há respeito na entrega da submissa, espera-se dever no comportamento do Senhor, preparando-a antes para uma liberdade forçada. Por outro lado, quando um Dom escolhe uma submissa a quem não tenha de devolver a entrega, reduz a uma banalidade o conceito de D/s: não faltam relações sem entrega fora do BDSM, em que continuo a acreditar numa Verdade maior que não obrigue à representação. De facto, a primeira submissa foi preterida, mas a unica realidade constatada foi o facto de o seu Dom ter passado a ser mais um homem a precisar da Mentira para se afirmar no Mundo. E mais do que a perda dele, o sentir que ele não era especial e que foi ela que o fez especial dentro dela, merecia certamente um pouco mais de cuidado na hora da fuga... Onde não há entrega de ambas as partes há apenas uma longa masturbação sem orgasmo. Quem não sabe receber uma entrega nunca chega a Dominar, ilude-se apenas com momentos sem nome dos quais não terá de devolver a entrega...
Não raramente suregem comentários que me deixam a pensar! Por ser este o caso e por achar que há coments que merecem passar a posts, abro aqui a excepção que confirmará a regra sempre que o ache necessário, não desmerecendo qualquer um dos outros posts! Porque este tema é controverso mas muito constante, aqui seguem as respostas ao post "Como se Reconhece Uma Entrega?"...
TheVanilla:
«A linguagem é uma fonte de mal entendidos» - Saint Exupéry
«O Homem que vê mal vê sempre menos do que aquilo que há para ver; o Homem que ouve mal ouve sempre algo mais do que aquilo que há para ouvir» - Nietzsche
Na confusão do que sentimos, ouvimos e vemos contrabalançado com o que queremos (ou precisamos) sentir, ver e ouvir, que opções temos?Opto sempre pelo que sinto. A linguagem pode de facto ser uma fonte de mal entendidos, mas é-o especialmente porque poucas pessoas se esforçam por ouvir com o coração/alma. A alma... esta coisa que nos faz diferentes dos outros animais e que nos devia permitir reconhecer uma ENTREGA sem que fosse preciso uma palavra. Não deveria bastar para tanto os sinais de entrega, aqueles que mesmo que não se vejam se sentem? Porque é que quase nunca chega o que se diz sem palavras?! Porque é que nem depois de tentarmos dizer as palavras certas (quais serão as palavras certas????) parece chegar?!As pessoas são animais complicados. Pelo menos as que respiram com alma.«Muitas vezes, a alma parece-me apenas uma simples respiração do corpo» - Marguerite Yourcenar
vanderdecken3 :
Como se reconhece uma entrega? Não sei como se reconhece, mas reconhece-se. Acho que tens razão quando escreves que a entrega é interior mais do que exterior «esotérica» mais do que «exotérica», se quisermos exprimir-nos (o que até é apropriado) em termos espirituais.Que a entrega é facilmente reconhecível, e que é uma coisa interior, prova-o um fenómeno que não é de modo nenhum raro; o do escravo que «pune» o seu senhor e se assenhoreia dele cumprindo escrupulosamente todos os rituais da entrega, mas não se entregando de verdade. Qual é o senhor que não se apercebe disto e que não é afectado por isto? O escravo finge que finge a entrega para deixar bem claro que não se está a entregar; e o senhor sabe que está a ser punido porque pela sua parte também não se entregou.A entrega só não se reconhece por cegueira ; e entre senhor e escravo, ou estão ambos lúcidos, ou estão ambos cegos. Não há meio termo.
MissLibido:
Recentemente, soube de uma história que envolve um Dom e uma sub numa relação D/s de um ano de sessões esporádicas. O Dom sempre incentivou o lado SM da relação, a submissa sempre o acompanhou numa entrega total e, um ano volvido, ele desiste dela em prol duma submissa que aprecia hard SM. Apesar do secretismo da relação e do factor distância, era visivel a quantos conheciam o par a entrega da submissa em questão, que o Dom nunca questionou mas sempre reconheceu em teoria. Quando resolve escolher outra sub, sem qualquer bom motivo aparente, a sua primeira sub questiona-o, amargurada: "como vai fazer para me devolver a minha entrega?"Será legítimo um Dom fazer a sua sub avançar numa via por si escolhida e de repente "lançá-la as feras", apesar da entrega? Uma entrega devida e reconhecida não obriga a uma certa ética de dever?
vanderdecken3:
«Como vai fazer para me devolver a minha entrega?»Esta é uma pergunta terrível, que eu nunca ouvi e espero nunca ouvir na minha vida. É claro que a entrega da escrava obriga a uma ética do dever. Se não for um dever do Senhor para com a sua escrava - que por definição não tem direitos - é certamente um dever do Senhor para consigo mesmo.Eu, sinceramente, não sei o que faria na posição do dominante que tu referes. Ou encontrava uma maneira de devolver à minha submissa a sua entrega, ou, se não a encontrasse, não lha devolveria, e obrigaria a minha segunda submissa a aceitar a presença da primeira.O que me colocaria, se a segunda me obedecesse, perante um novo problema: pode um dominante ter duas submissas ao mesmo tempo?É claro que pode, dirão alguns. E até deve, dirão os mesmos : que melhor maneira haverá de deixar claro a uma escrava que ela é que pertence ao seu Senhor, e não ele a ela, do que obrigá-la a uma fidelidade à qual ele não está obrigado? Eu próprio cheguei uma vez a tentar adquirir uma escrava enquanto tinha outra. Não o consegui, e por isso não sei qual teria sido o resultado de ter duas escravas ao mesmo tempo.Hoje, que não tenho nenhuma, não estou para aí virado. Estou de novo à procura duma escrava, mas só de uma. Há alguma coisa em mim, que não sei muito bem o que é mas de que tenho muito a certeza, que se revolta contra a ideia dum harém.Acho que objectivamente o harém teria sido a melhor solução para o dominante que referes, e concebivelmente também para as duas submissas envolvidas; mas tudo depende dos afectos em jogo, e esses não sei quais são. Para mim, na fase a que cheguei, o harém seria uma solução emocionalmente impossível ; teria que escolher entre as duas submissas ; e, tendo que escolher, escolheria provavelmente aquela a quem não tivesse que devolver a entrega.
MissLibido:
O seu texto é contraditório: se por um lado diz k tem de haver sim uma ética do dever, por outro concluiu k escolheria aquela a quem não tivesse de devolver a entrega! Uma submissa descartável não deixa de ter alma, nem deixa de ser menos gente por isso... assim como facto de o Senhor a fazer descartável, por analogia faz dele também um Dom descartável! A ética do dever diz-me que se há respeito na entrega da submissa, espera-se dever no comportamento do Senhor, preparando-a antes para uma liberdade forçada. Por outro lado, quando um Dom escolhe uma submissa a quem não tenha de devolver a entrega, reduz a uma banalidade o conceito de D/s: não faltam relações sem entrega fora do BDSM, em que continuo a acreditar numa Verdade maior que não obrigue à representação. De facto, a primeira submissa foi preterida, mas a unica realidade constatada foi o facto de o seu Dom ter passado a ser mais um homem a precisar da Mentira para se afirmar no Mundo. E mais do que a perda dele, o sentir que ele não era especial e que foi ela que o fez especial dentro dela, merecia certamente um pouco mais de cuidado na hora da fuga... Onde não há entrega de ambas as partes há apenas uma longa masturbação sem orgasmo. Quem não sabe receber uma entrega nunca chega a Dominar, ilude-se apenas com momentos sem nome dos quais não terá de devolver a entrega...
domingo, agosto 14, 2005
Relato verídico
A caça às bruxas pela Igreja é tema sobrio o bastante para dispensar muitas apresentações. Neste estudo histórico e sociológico, Jules Michelet - o maior historiador da escola romântica - inclui alguns relatos verídicos dessas perseguições e sanções a feiticeiras na aurora do séc. XV...
"(...) Ele foi impiedoso. Disse:
- Porque recusou ser revestida dos dons de Deus, terá de ficar nua. E merecia assim ficar diante de toda a Terra, em vez de diante do seu confessor que nada dirá...
- Mas jure-me segredo... Se falasse disso, perder-me-ia...
Sem ainda a despir completamente, fê-la subir à cama e disse:
- Merecia não esta cama, mas o cadafalso que viu em Aix.
Assustada e a tremer, não discutiu, humilhou-se. Tinha as pernas inchadas e uma pequena enfermidade que devia desolá-la. Então, como disciplina, ele bateu-lhe algumas vezes.
Ela ficara admirada ao ver que no meio de tantas ameaças, ele lhe pusera, no entanto, uma almofada sob cada cotovelo. Mas mais admirada ainda ficou quando o juiz, pai irritado, a surpreendeu com um beijo estranho, impúdico e inesperado.
Monstruosa inconsequência. Adoração louca de que o amor não é aqui desculpa. O que causa horror é que então ele pouco a amava, não a poupava. Viram-se as suas crueis beberagens e vai-se assistir ao seu abandono. Ele detestava-a por valer mais que as mulheres envilecidas. Detestava-a por ter tentado (tão inocentemente) comprometê-lo. Mas sobretudo não lhe perdoava tentar conservar a alma. Só queria dominá-la, mas acolhia com esperança as palavras que ela soltava muitas vezes "sinto que não viverei". Libertino celerado! Cobria de beijos vergonhosos o pobre corpo destruído que desejaria ver morrer!
Ela estava fora de si, não sabia o que pensar. Ele disse-lhe:
- Isto não é tudo. O bom Deus não está satisfeito
Fê-la descer da cama e pôr-se de joelhos, dizendo-lhe que era preciso ficar completamente nua. A isto, ela soltou um grito e pediu clemência... Mas era demasiada emoção, sobreveio um desfalecimento e ficou à sua mercê. Por muito entorpecida que estivesse, sentiu um contacto de "divina doçura", que pouco durou. No momento em que retomou a consciência, ele estreitou-a e causou-lhe uma dor nova que ela nunca sentira.
Como lhe explicou ele estas contradições chocantes de carícias e crueldade? Deu-as por provas de paciência e de obediência? Ou passou ousadamente ao verdadeiro fundo de Molinos: "Que é à força de pecados que se mata o Pecado?" Tomou ela isto a sério? E não compreendeu que estes fingimentos de justiça, de expiação e de penitência eram apenas libertinagem?
Não queria saber, na estranha confusão moral que sentia. Suportava o seu mestre, tendo algum medo dele, com um estranho amor de escrava, prosseguindo na comédia de receber em cada dia pequenas penitências. Girard poupava-a tão pouco que nem sequer lhe escondia as suas relações com outras mulheres. Queria pô-la no convento. Entretanto ela era o seu brinquedo; via-o e deixava-o agir. Frágil e mais enfraquecida ainda com aquelas vergonhas enervantes, cada vez mais melancólica, pouco queria à vida, repetindo as palavras (de algum modo tristes para Girard) - sinto que bem cedo morrerei..."
in "O Castigo das Feiticeiras"
Jules Michelet (1798-1874)
"(...) Ele foi impiedoso. Disse:
- Porque recusou ser revestida dos dons de Deus, terá de ficar nua. E merecia assim ficar diante de toda a Terra, em vez de diante do seu confessor que nada dirá...
- Mas jure-me segredo... Se falasse disso, perder-me-ia...
Sem ainda a despir completamente, fê-la subir à cama e disse:
- Merecia não esta cama, mas o cadafalso que viu em Aix.
Assustada e a tremer, não discutiu, humilhou-se. Tinha as pernas inchadas e uma pequena enfermidade que devia desolá-la. Então, como disciplina, ele bateu-lhe algumas vezes.
Ela ficara admirada ao ver que no meio de tantas ameaças, ele lhe pusera, no entanto, uma almofada sob cada cotovelo. Mas mais admirada ainda ficou quando o juiz, pai irritado, a surpreendeu com um beijo estranho, impúdico e inesperado.
Monstruosa inconsequência. Adoração louca de que o amor não é aqui desculpa. O que causa horror é que então ele pouco a amava, não a poupava. Viram-se as suas crueis beberagens e vai-se assistir ao seu abandono. Ele detestava-a por valer mais que as mulheres envilecidas. Detestava-a por ter tentado (tão inocentemente) comprometê-lo. Mas sobretudo não lhe perdoava tentar conservar a alma. Só queria dominá-la, mas acolhia com esperança as palavras que ela soltava muitas vezes "sinto que não viverei". Libertino celerado! Cobria de beijos vergonhosos o pobre corpo destruído que desejaria ver morrer!
Ela estava fora de si, não sabia o que pensar. Ele disse-lhe:
- Isto não é tudo. O bom Deus não está satisfeito
Fê-la descer da cama e pôr-se de joelhos, dizendo-lhe que era preciso ficar completamente nua. A isto, ela soltou um grito e pediu clemência... Mas era demasiada emoção, sobreveio um desfalecimento e ficou à sua mercê. Por muito entorpecida que estivesse, sentiu um contacto de "divina doçura", que pouco durou. No momento em que retomou a consciência, ele estreitou-a e causou-lhe uma dor nova que ela nunca sentira.
Como lhe explicou ele estas contradições chocantes de carícias e crueldade? Deu-as por provas de paciência e de obediência? Ou passou ousadamente ao verdadeiro fundo de Molinos: "Que é à força de pecados que se mata o Pecado?" Tomou ela isto a sério? E não compreendeu que estes fingimentos de justiça, de expiação e de penitência eram apenas libertinagem?
Não queria saber, na estranha confusão moral que sentia. Suportava o seu mestre, tendo algum medo dele, com um estranho amor de escrava, prosseguindo na comédia de receber em cada dia pequenas penitências. Girard poupava-a tão pouco que nem sequer lhe escondia as suas relações com outras mulheres. Queria pô-la no convento. Entretanto ela era o seu brinquedo; via-o e deixava-o agir. Frágil e mais enfraquecida ainda com aquelas vergonhas enervantes, cada vez mais melancólica, pouco queria à vida, repetindo as palavras (de algum modo tristes para Girard) - sinto que bem cedo morrerei..."
in "O Castigo das Feiticeiras"
Jules Michelet (1798-1874)
A Coisa e a Cadeia
"(...)
E é realmente verdade que o deslizar para a concepção das relações de objecto - como o reconhecia o próprio Fairbairn, embora sendo o seu inventor - traduzia o protesto contra o que era considerado um hedonismo inaceitável: a teoria da líbido. Era necessário recuperar a sensatez e, sem dúvida, também, salvar a moral. Doravante, a busca do prazer será substituída pela do objecto. Com que finalidade? Assegurar que o laço humano social continuará a ser a principal aspiração, reconfortar-se na ideia de que a dependência da tutela do adulto permanecerá como objectivo dominante. Eis o que ao relativizar a ideia da não-educabilidade das pulsões sexuais permite garantir o primado do amor do próximo e, por fim, autoriza a reatar com a exigência de uma domesticação programada, a favor do bem comum das relações comunitárias. Nada disto é apregoado, mas é, efectivamente, neste sentido que evoluirá a teoria das relações de objecto."
in "As Cadeias de Eros" - 2000
André Green (psicanalista)
E é realmente verdade que o deslizar para a concepção das relações de objecto - como o reconhecia o próprio Fairbairn, embora sendo o seu inventor - traduzia o protesto contra o que era considerado um hedonismo inaceitável: a teoria da líbido. Era necessário recuperar a sensatez e, sem dúvida, também, salvar a moral. Doravante, a busca do prazer será substituída pela do objecto. Com que finalidade? Assegurar que o laço humano social continuará a ser a principal aspiração, reconfortar-se na ideia de que a dependência da tutela do adulto permanecerá como objectivo dominante. Eis o que ao relativizar a ideia da não-educabilidade das pulsões sexuais permite garantir o primado do amor do próximo e, por fim, autoriza a reatar com a exigência de uma domesticação programada, a favor do bem comum das relações comunitárias. Nada disto é apregoado, mas é, efectivamente, neste sentido que evoluirá a teoria das relações de objecto."
in "As Cadeias de Eros" - 2000
André Green (psicanalista)
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