A caça às bruxas pela Igreja é tema sobrio o bastante para dispensar muitas apresentações. Neste estudo histórico e sociológico, Jules Michelet - o maior historiador da escola romântica - inclui alguns relatos verídicos dessas perseguições e sanções a feiticeiras na aurora do séc. XV...
"(...) Ele foi impiedoso. Disse:
- Porque recusou ser revestida dos dons de Deus, terá de ficar nua. E merecia assim ficar diante de toda a Terra, em vez de diante do seu confessor que nada dirá...
- Mas jure-me segredo... Se falasse disso, perder-me-ia...
Sem ainda a despir completamente, fê-la subir à cama e disse:
- Merecia não esta cama, mas o cadafalso que viu em Aix.
Assustada e a tremer, não discutiu, humilhou-se. Tinha as pernas inchadas e uma pequena enfermidade que devia desolá-la. Então, como disciplina, ele bateu-lhe algumas vezes.
Ela ficara admirada ao ver que no meio de tantas ameaças, ele lhe pusera, no entanto, uma almofada sob cada cotovelo. Mas mais admirada ainda ficou quando o juiz, pai irritado, a surpreendeu com um beijo estranho, impúdico e inesperado.
Monstruosa inconsequência. Adoração louca de que o amor não é aqui desculpa. O que causa horror é que então ele pouco a amava, não a poupava. Viram-se as suas crueis beberagens e vai-se assistir ao seu abandono. Ele detestava-a por valer mais que as mulheres envilecidas. Detestava-a por ter tentado (tão inocentemente) comprometê-lo. Mas sobretudo não lhe perdoava tentar conservar a alma. Só queria dominá-la, mas acolhia com esperança as palavras que ela soltava muitas vezes "sinto que não viverei". Libertino celerado! Cobria de beijos vergonhosos o pobre corpo destruído que desejaria ver morrer!
Ela estava fora de si, não sabia o que pensar. Ele disse-lhe:
- Isto não é tudo. O bom Deus não está satisfeito
Fê-la descer da cama e pôr-se de joelhos, dizendo-lhe que era preciso ficar completamente nua. A isto, ela soltou um grito e pediu clemência... Mas era demasiada emoção, sobreveio um desfalecimento e ficou à sua mercê. Por muito entorpecida que estivesse, sentiu um contacto de "divina doçura", que pouco durou. No momento em que retomou a consciência, ele estreitou-a e causou-lhe uma dor nova que ela nunca sentira.
Como lhe explicou ele estas contradições chocantes de carícias e crueldade? Deu-as por provas de paciência e de obediência? Ou passou ousadamente ao verdadeiro fundo de Molinos: "Que é à força de pecados que se mata o Pecado?" Tomou ela isto a sério? E não compreendeu que estes fingimentos de justiça, de expiação e de penitência eram apenas libertinagem?
Não queria saber, na estranha confusão moral que sentia. Suportava o seu mestre, tendo algum medo dele, com um estranho amor de escrava, prosseguindo na comédia de receber em cada dia pequenas penitências. Girard poupava-a tão pouco que nem sequer lhe escondia as suas relações com outras mulheres. Queria pô-la no convento. Entretanto ela era o seu brinquedo; via-o e deixava-o agir. Frágil e mais enfraquecida ainda com aquelas vergonhas enervantes, cada vez mais melancólica, pouco queria à vida, repetindo as palavras (de algum modo tristes para Girard) - sinto que bem cedo morrerei..."
in "O Castigo das Feiticeiras"
Jules Michelet (1798-1874)
"TODOS SÃO CAPAZES DE DOMINAR UMA DÔR, EXCEPTO QUEM A SENTE!" William Shakespeare
domingo, agosto 14, 2005
A Coisa e a Cadeia
"(...)
E é realmente verdade que o deslizar para a concepção das relações de objecto - como o reconhecia o próprio Fairbairn, embora sendo o seu inventor - traduzia o protesto contra o que era considerado um hedonismo inaceitável: a teoria da líbido. Era necessário recuperar a sensatez e, sem dúvida, também, salvar a moral. Doravante, a busca do prazer será substituída pela do objecto. Com que finalidade? Assegurar que o laço humano social continuará a ser a principal aspiração, reconfortar-se na ideia de que a dependência da tutela do adulto permanecerá como objectivo dominante. Eis o que ao relativizar a ideia da não-educabilidade das pulsões sexuais permite garantir o primado do amor do próximo e, por fim, autoriza a reatar com a exigência de uma domesticação programada, a favor do bem comum das relações comunitárias. Nada disto é apregoado, mas é, efectivamente, neste sentido que evoluirá a teoria das relações de objecto."
in "As Cadeias de Eros" - 2000
André Green (psicanalista)
E é realmente verdade que o deslizar para a concepção das relações de objecto - como o reconhecia o próprio Fairbairn, embora sendo o seu inventor - traduzia o protesto contra o que era considerado um hedonismo inaceitável: a teoria da líbido. Era necessário recuperar a sensatez e, sem dúvida, também, salvar a moral. Doravante, a busca do prazer será substituída pela do objecto. Com que finalidade? Assegurar que o laço humano social continuará a ser a principal aspiração, reconfortar-se na ideia de que a dependência da tutela do adulto permanecerá como objectivo dominante. Eis o que ao relativizar a ideia da não-educabilidade das pulsões sexuais permite garantir o primado do amor do próximo e, por fim, autoriza a reatar com a exigência de uma domesticação programada, a favor do bem comum das relações comunitárias. Nada disto é apregoado, mas é, efectivamente, neste sentido que evoluirá a teoria das relações de objecto."
in "As Cadeias de Eros" - 2000
André Green (psicanalista)
sexta-feira, agosto 12, 2005
Como se reconhece uma entrega?
Muito se fala de entrega, não só em matéria de BDSM como na vida em geral, mas na verdade, além de a definir, como a reconhecer?
A actual sociedade de consumo arrasta em si um milhão de compromissos e escolhas perenes e de acesso fácil que nem sempre dão margem a bases sólidas e alicerces firmes, na generalidade!
No Mundo do prêt-a... em que tudo parece ser feito para um desgaste rápido e uma substituição ainda mais célere, onde ficam então as relações/uniões, sejam elas de que cariz forem?
No universo do BDSM, tudo visa a entrega como reconhecimento final de um suceder de parâmetros mais ou menos comuns. Mas e quando a distância se interpõe ou/e as partes não se conhecem ainda intimamente, e no entanto a entrega esteve sempre lá desde o primeiro contacto!?
Admito que se possa duvidar de relações à distância, de contactos virtuais, de Dominações não-presenciais, etc... mas se a entrega se verificar num primeiro contacto, como pode ser abalizada como genuína ou/e reconhecida pela outra parte? Falo aqui não só de submissos a entregarem-se mas também de Dominadores, porque entendo as relações no BDSM como uma partilha de entregas por ambas as partes! E como em tudo, haverá alguma hipótese de ser facilmente visivel/palpávelque o Dom/submisso se entregou por inteiro numa primeira aproximação?
Não me parece; julgo que tudo o que as partes podem esperar é sentir a entrega e, se for o caso, devolver a dádiva... Seja como for, uma entrega faz-se mais com os olhos a pele e os músculos, do que com fórmulas de bom-comportamento estipuladas para uma sessão ou/e relação com um Dominador/a. Recentemente, defendia que um submisso não o é menos por não apresentar uma coleira (real ou virtual) nem por obedecer/cumprir mais ou menos ordens ou/e tarefas de maior exigência de sacrifício; na verdade, entendo que a entrega de um submisso não é quantificada pelo que ele faz ao entregar-se mas como o sente...
Do mesmo modo, o reconhecer de uma entrega terá de ser sentida e não emoldurada por "avisos" e "atavios" no BDSM, porque nada é mais poderoso do que o olhar, o toque, os silêncios de quem se entrega... Mesmo que o submisso continue sem Dono e não tenha um Dominador em exclusivo, sou de opinião que há entregas que nunca serão ameaçadas, como há coleiras que nunca chegam a sair! No final, o importante é que tenha valido a pena, porque "a vida é feita de pequenos nadas!".
A actual sociedade de consumo arrasta em si um milhão de compromissos e escolhas perenes e de acesso fácil que nem sempre dão margem a bases sólidas e alicerces firmes, na generalidade!
No Mundo do prêt-a... em que tudo parece ser feito para um desgaste rápido e uma substituição ainda mais célere, onde ficam então as relações/uniões, sejam elas de que cariz forem?
No universo do BDSM, tudo visa a entrega como reconhecimento final de um suceder de parâmetros mais ou menos comuns. Mas e quando a distância se interpõe ou/e as partes não se conhecem ainda intimamente, e no entanto a entrega esteve sempre lá desde o primeiro contacto!?
Admito que se possa duvidar de relações à distância, de contactos virtuais, de Dominações não-presenciais, etc... mas se a entrega se verificar num primeiro contacto, como pode ser abalizada como genuína ou/e reconhecida pela outra parte? Falo aqui não só de submissos a entregarem-se mas também de Dominadores, porque entendo as relações no BDSM como uma partilha de entregas por ambas as partes! E como em tudo, haverá alguma hipótese de ser facilmente visivel/palpávelque o Dom/submisso se entregou por inteiro numa primeira aproximação?
Não me parece; julgo que tudo o que as partes podem esperar é sentir a entrega e, se for o caso, devolver a dádiva... Seja como for, uma entrega faz-se mais com os olhos a pele e os músculos, do que com fórmulas de bom-comportamento estipuladas para uma sessão ou/e relação com um Dominador/a. Recentemente, defendia que um submisso não o é menos por não apresentar uma coleira (real ou virtual) nem por obedecer/cumprir mais ou menos ordens ou/e tarefas de maior exigência de sacrifício; na verdade, entendo que a entrega de um submisso não é quantificada pelo que ele faz ao entregar-se mas como o sente...
Do mesmo modo, o reconhecer de uma entrega terá de ser sentida e não emoldurada por "avisos" e "atavios" no BDSM, porque nada é mais poderoso do que o olhar, o toque, os silêncios de quem se entrega... Mesmo que o submisso continue sem Dono e não tenha um Dominador em exclusivo, sou de opinião que há entregas que nunca serão ameaçadas, como há coleiras que nunca chegam a sair! No final, o importante é que tenha valido a pena, porque "a vida é feita de pequenos nadas!".
FOOTFETISH
OS PÉS DE UMA MULHER
"Duas passadas sobre o peito da terra,
Dois indolentes, róseos, ternos pés!
À terra vem a memória de cem primaveras,
O sonho de inumeráveis flores que a tocam;
As florescentes flores vermelhas de cem primaveras
Caíram e misturaram-se com dois pés cor-de-rosa;
A luz do sol nascente e pálido
Pôs-se na sombra destes dois pés.
Eles espalharam pela estrada as canções da juventude
E as pulseiras nos tornozelos soluçam quando as prendem,
E a dança contém um doce encanto.
A terra é cruel e o solo é seco e duro -
Vem, oh, vem ao meu coração onde se inclina
O trevo vermelho do ruborizado desejo!"
Rabindranath Tagore (1861-1941)
terça-feira, agosto 09, 2005
Num Dia Azul
Partiu num dia azul
e não levava nada nas mãos.
No peito
apenas tristeza e sorte..
No coração
vontade de não regressar!
Ia muito só pelos caminhos
- encontrou um beco
e talvez aí também um pouco de beleza,
da tal beleza escondida
em que nos banhamos sempre
como se fosse um jacto de água fria...
Nem sempre só,
porque encontrou aquela mulher -
uma simples mulher de olhos negros,
tão negros como a noite sem estrelas;
olhos como estrelas sem noite
...de ver o Mundo
do lado de cá dos Homens.
E fizeram uma união baseada no Riso
- não lhe chamavam Amor -
diziam "que se riam" e isso resumia tudo:
anos de tentativas, tentativas falhadas de anos
... como se tivessem inventado o Riso -
talvez apenas um bafo quente de necessidade,
como se tivessem criado o Desejo!
Ele havia partido sem levar nada nas mãos.
Agora, tinha preto brilhante nos olhos dela,
um vazio tinha sido preenchido...
Mesmo passados quase dois séculos
ela continua a gargalhar no ombro dele
e afaga-lhe as mãos e os olhos
e beija-lhe os lábios com os olhos
e toca-lhe a face com os olhos sem estrelas!
Só uma vez tiveram medo -
porque a noite estava clara
e os olhos dele não tinham cor...
Tal como a serpente no Paraíso,
um raio todo de luz estourou entre eles
... durante uma noite de Amor!
Ela parou de o olhar,
ele parou de ser dela,
terminaram de se afagar
para chorarem nessa luz.
Luz...
que desapareceu tão subitamente
que se assustaram,
que tiveram medo,
que recearam pelo futuro do que havia entre eles...
Medo desse fruto virgem enfeitado de riso
onde todas as noites pousavam o cansaço
e exploravam novos rios...
Luz...
onde a Morte começava num sussurro
e terminava num suspiro.
Hoje
ambos se odeiam entre risos e gargalhadas
e quase uma Eternidade ecorreu!
Rezam para que um raio de luz
derrame uma pausa,
um silêncio
entre eles,
ou que um riso fútil recorde velhas emoções...
Não vivem no Paraíso e hoje não há serpentes.
Continuam a viver no Mundo,
esperando encontrar um beco
ou uma noite sem estrelas!
Janeiro de 1985
ML
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