terça-feira, agosto 09, 2005



...A luz na cidade...
(autor desconhecido)

Num Dia Azul

Partiu num dia azul
e não levava nada nas mãos.
No peito
apenas tristeza e sorte..
No coração
vontade de não regressar!

Ia muito só pelos caminhos
- encontrou um beco
e talvez aí também um pouco de beleza,
da tal beleza escondida
em que nos banhamos sempre
como se fosse um jacto de água fria...

Nem sempre só,
porque encontrou aquela mulher -
uma simples mulher de olhos negros,
tão negros como a noite sem estrelas;
olhos como estrelas sem noite
...de ver o Mundo
do lado de cá dos Homens.

E fizeram uma união baseada no Riso
- não lhe chamavam Amor -
diziam "que se riam" e isso resumia tudo:
anos de tentativas, tentativas falhadas de anos
... como se tivessem inventado o Riso -
talvez apenas um bafo quente de necessidade,
como se tivessem criado o Desejo!

Ele havia partido sem levar nada nas mãos.
Agora, tinha preto brilhante nos olhos dela,
um vazio tinha sido preenchido...
Mesmo passados quase dois séculos
ela continua a gargalhar no ombro dele
e afaga-lhe as mãos e os olhos
e beija-lhe os lábios com os olhos
e toca-lhe a face com os olhos sem estrelas!

Só uma vez tiveram medo -
porque a noite estava clara
e os olhos dele não tinham cor...
Tal como a serpente no Paraíso,
um raio todo de luz estourou entre eles
... durante uma noite de Amor!
Ela parou de o olhar,
ele parou de ser dela,
terminaram de se afagar
para chorarem nessa luz.

Luz...
que desapareceu tão subitamente
que se assustaram,
que tiveram medo,
que recearam pelo futuro do que havia entre eles...
Medo desse fruto virgem enfeitado de riso
onde todas as noites pousavam o cansaço
e exploravam novos rios...
Luz...
onde a Morte começava num sussurro
e terminava num suspiro.

Hoje
ambos se odeiam entre risos e gargalhadas
e quase uma Eternidade ecorreu!
Rezam para que um raio de luz
derrame uma pausa,
um silêncio
entre eles,
ou que um riso fútil recorde velhas emoções...
Não vivem no Paraíso e hoje não há serpentes.
Continuam a viver no Mundo,
esperando encontrar um beco
ou uma noite sem estrelas!

Janeiro de 1985
ML

domingo, agosto 07, 2005

Uma entrega dupla!

Nem sempre sei fazer o que sinto! Nem sempre consigo sentir como gostaria aquilo que faço! Nem sempre faço por sentir e nem sempre sinto apenas por fazer...

Li recentemente uma frase que questionava a hipótese de um/a submisso/a poder ter dois Donos no mundo do BDSM! Tenho pensado no assunto não como hipótese mas a tentar resumir o que sinto sobre isso...
Nem hesito em afirmar que sim; obviamente que um submisso pode ter dois Donos, uma vez que há sentires diferentes que damos a gente diferente. Um Dono pode dar-nos a parte técnica no que toca à prática do BDSM, enquanto o outro nos enche a alma e suscita a entrega psicologica. Desse modo talvez se consiga uma entrega completa - tantas vezes posta em causa neste universo alternativo. Pessoalmente acho possivel senão aconselhado, mas não regra - aqui como em tudo, não há regras no que toca a adequar as existências a uma vida o mais prazenteira possivel!
Decerto que tal situação será mais excepcção do que regra, não fosse o ser humano possessivo e territorial por natureza e instinto, mas não será igualmente verdadeiro o facto de todos nós, uma ou outra vez, termos dado connosco a pensar "Gosto disto nesta pessoa e daquilo naquela outra - se pudesse ter os dois..."?!?
Se há um triangulo de aceitação de um facto em partes iguais, também passa a haver a certeza de mais deveres por parte dos Donos para com o submisso/a, certamente num crescendo de dádiva e da subsequente entrega dele/a. O ideal será pois: para uma entrega dupla, um duplo receber de benesses e castigos, consoante a situação... Se agrada a todos e a realização é conseguida - tanto melhor!

quinta-feira, agosto 04, 2005

EU

"Eu sou a que no Mundo anda perdida,
sou a que na vida não tem Norte,
sou a irmã do sonho, e desta sorte
sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa, ténue e esvaecida
e que o destino amargo, trsite e forte
impele brutalmente para a morte...
Alma de luto, sempre incompreendida!

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam trsite sem o ser...
Sou a que chora sem saber porque...

Sou talvez aquela que alguém sonhou,
alguém que veio ao Mundo para me ver
e nunca na vida me encontrou!..."

Florbela Espanca