Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor - muito melhor! -
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma de corpo nu
Que do espelho se vê.
in "A Virgem Negra"
Mário Cesariny
"TODOS SÃO CAPAZES DE DOMINAR UMA DÔR, EXCEPTO QUEM A SENTE!" William Shakespeare
quarta-feira, junho 22, 2005
Dedicado a Paterlómio...
segunda-feira, junho 13, 2005
Era Uma Vez...
Era uma vez...
Um autocarro que fazia diariamente a mesma carreira! Eu seguia nele com prazer, porque o trajecto era simpático e o destino apelativo. Todos os dias passava por zonas degradadas e entravam alguns utentes menos correctos, mas nada de muito grave...
Frequentemente, um dos viajantes usuais, homem dado a alocuções públicas de cariz brejeiro, dirigidas aos utentes com maior ou menor ironia, levantava-se e passava a viagem a causar o riso aos demais com as suas intervenções. Acostumados a ele, os viajantes toleravam-no e a viagem não era prejudicada...
Um dia, um bando de delinquentes entra no autocarro e ofende os demais, decididos a tomar conta do autocarro, à força se necessário; como os habitués daquele trajecto estavam unidos pelo objectivo comum, foram isolados pelo gang, com o intuito conseguido de dividir para reinar. A cena foi deplorável e indiscritível......
Habituados a que o condutor, melhor ou pior, tentasse manter o rumo do autocarro, a comunidade diária do autocarro ainda acreditou que ele tomasse uma posição e se impusesse - talvez travando fundo, ou então acelerando. Mas a desilusão foi total, pois ele nada fez! O bando tomou conta do autocarro, o silêncio desiludido foi uma constante, a viagem deixou de fazer sentido, e alguns passageiros deixaram de viajar naquele trajecto!
Moral da metáfora: A união faz a força!
(ainda que do lado errado da vida)
Um autocarro que fazia diariamente a mesma carreira! Eu seguia nele com prazer, porque o trajecto era simpático e o destino apelativo. Todos os dias passava por zonas degradadas e entravam alguns utentes menos correctos, mas nada de muito grave...
Frequentemente, um dos viajantes usuais, homem dado a alocuções públicas de cariz brejeiro, dirigidas aos utentes com maior ou menor ironia, levantava-se e passava a viagem a causar o riso aos demais com as suas intervenções. Acostumados a ele, os viajantes toleravam-no e a viagem não era prejudicada...
Um dia, um bando de delinquentes entra no autocarro e ofende os demais, decididos a tomar conta do autocarro, à força se necessário; como os habitués daquele trajecto estavam unidos pelo objectivo comum, foram isolados pelo gang, com o intuito conseguido de dividir para reinar. A cena foi deplorável e indiscritível......
Habituados a que o condutor, melhor ou pior, tentasse manter o rumo do autocarro, a comunidade diária do autocarro ainda acreditou que ele tomasse uma posição e se impusesse - talvez travando fundo, ou então acelerando. Mas a desilusão foi total, pois ele nada fez! O bando tomou conta do autocarro, o silêncio desiludido foi uma constante, a viagem deixou de fazer sentido, e alguns passageiros deixaram de viajar naquele trajecto!
Moral da metáfora: A união faz a força!
(ainda que do lado errado da vida)
segunda-feira, junho 06, 2005
A LUA QUE DESPE AS NUVENS...
E o vento.
Leve rocegar da seda
contra os seios.
Virgem e velhaco,
a impôr-se como um tirano.
A discutir com a lua.
E a lua a adorar,
despindo as nuvens sem pudor!
O sexo.
O prazer.
A noite.
Dezembro 2002
ML
Leve rocegar da seda
contra os seios.
Virgem e velhaco,
a impôr-se como um tirano.
A discutir com a lua.
E a lua a adorar,
despindo as nuvens sem pudor!
O sexo.
O prazer.
A noite.
Dezembro 2002
ML
segunda-feira, maio 30, 2005
Se doer, é porque vale a pena!
"Manter o espírito aberto
e absorver toda a experiência;
E se doer
é porque provavelmente vale a pena.
Eu continuo a acreditar no Paraíso.
Mas sei que não é um lugar que possamos procurar.
Não é um sítio onde vamos.
É o que sentimos durante um momento na vida
em que fazemos parte de alguma coisa.
E se vivermos esse momento,
ele durará para sempre..."
filme "A Praia"
inspirado no livro de Alex Garland
terça-feira, maio 24, 2005
O Medo.....
A situação mais estranha que tive a roçar o Medo, aconteceu há anos atrás, muitos anos...
De madrugada, ao subir ao meu quarto, às escuras, descalça para não acordar a casa que sonhava, planeava que no meu quarto os meus sentidos encontrassem primeiro o chão de madeira envernizado, depois o macio tapete de felpo cor-de-laranja rente à cama branca, lacada... Abri a porta sem barulho, entrei, e a sola dos pés arrepiou-se ao sentir uma nova sensação que eu não soube definir. Por décimas de segundo, o coração parou! Fiquei aterrada, porque o meu cérebro não conseguiu computar a informação que os neurónios lhe transmitiam desde a planta dos pés... Chamamos a isso "racionalizar", acho eu, e naqueles segundos foi-me completamente impossivel racionalizar o que sucedia ali!
Sob os pés nús sentia algo a esfarelar-se, frio, sem forma, irregular e pouco agradável. Nunca percebi se fiquei aterrada pela surpresa, pelo choque, pelo medo do desconhecido, ou pela duvida do que fazer a seguir. Era inevitável - tive de acender a luz na mesa-de-cabeceira!!!
Depois veio o riso, pela estupidez e simplicidade da situação! Parte do tecto, em volta de um candeeiro pesado de pingentes de vidro, da caliça do tecto, tinha caído - a maior parte estava sobre a cama, mas parte tinha-se esboroado no chão. Não sei o que pensei então, mas certamente senti-me ridícula por não ter conseguido de imediato racionalizar algo que só poderia ter explicação...
O Medo é isso mesmo - a incerteza sobre algo inesperado que temos no Presente e como lidar com isso, sentindo-nos ameaçados. No BDSM, o Medo - ainda que encapuçado - está sempre lá, e pergunto se será isso que nos repulsa/assusta, ou exactamente o que nos atrai??? Todos os adultos que têm afinidade com a prática de BDSM sabem de antemão que há riscos sempre presentes na prosecução de momentos de BDSM, quanto mais não seja pelos imponderáveis de ocasião - seja o pacemaker que não se sabe que o submisso tem, a epilepsia de que o Dom é portador sem o ter comunicado, a alergia a certo lubrificante anal, o dildo mal fabricado com uma farpa solta que causa um corte assustador, etc, etc, etc.. Todos os maus cenários são possíveis, não bastasse já a carga emocional que torna imprevisiveis os comportamentos - quer de Dom/Domme, switcher ou submissos. Tudo junto seria já a caliça debaixo dos pés, mas falta ainda um pormenor hiper-importante - a capacidade de discernir e de decidir sem hesitar, no momento em que um piscar de olhos revela tudo! Porque razão então continuamos a investir em momentos tão complicados? Pessoalmente, porque o Medo anda de mão-dada com o vencer do Medo!...
Vivemos a enfrentar a Morte, sorrimos com a certeza de espantar o chôro, comemos para sentir fome, andamos para parar, e por aí fora. O Medo existe para que o vençamos, ultrapassamos, reduzamos à sua importância e nada mais do que isso; para lhe dar o lugar que merece! Claro que os sentidos e os sentimentos são o bem-necessário para lá chegar, claro que o Prazer marca a diferença, sem dúvida, mas e o Prazer no Medo, não existe também? Quando se fala em Prazer na Dor, não será mais o Prazer no Medo da Dor? Porque a verdade é que ele nos faz correr para fugir, reagir para não sermos apanhados, racionalizar para não sermos postos à margem e capitularmos. O Medo é o motor de metade do que fazemos, embora as mais das vezes lhe chamemos muita coisa e até, mais frequentemente, "bom-senso"! O Medo auto-define-se, apesar de muitos outros medos particulares e intransmissiveis - mas os que hesitam em experimentar uma cena BDSM, por exemplo, não terão medo de gostar de vencer o medo? Porque quando tal acontece, a submissa (no meu caso) sai completamente realizada de toda a situação que ali viveu, porque conseguiu decidir continuar a calcar a caliça apesar de não a ter identificado, sem acender a luz! É um orgasmo de, à falta de melhor chamemos-lhe coragem, que apenas comporta um perigo maior: até onde sou capaz de ir? Se cheguei aqui, não serei capaz de quase tudo? Não uso drogas pesadas, mas imagino que o efeito de uma sessão de BDSM bem-conseguida seja semelhante a um rush de coca, uma vontade de não parar, de fazer mais e mais, de andar e andar... Mas o certo é que acontece o mesmo pelo lado do Dom/Domme: até onde sou capaz de ir? Se cheguei aqui, não serei capaz de quase tudo?...
Cada um saberá se se deitará de luz apagada, sem saber o que lhe ameaçou a sola dos pés, ou se a acenderá para ter a certeza de que não vale a pena ter Medo!
De madrugada, ao subir ao meu quarto, às escuras, descalça para não acordar a casa que sonhava, planeava que no meu quarto os meus sentidos encontrassem primeiro o chão de madeira envernizado, depois o macio tapete de felpo cor-de-laranja rente à cama branca, lacada... Abri a porta sem barulho, entrei, e a sola dos pés arrepiou-se ao sentir uma nova sensação que eu não soube definir. Por décimas de segundo, o coração parou! Fiquei aterrada, porque o meu cérebro não conseguiu computar a informação que os neurónios lhe transmitiam desde a planta dos pés... Chamamos a isso "racionalizar", acho eu, e naqueles segundos foi-me completamente impossivel racionalizar o que sucedia ali!
Sob os pés nús sentia algo a esfarelar-se, frio, sem forma, irregular e pouco agradável. Nunca percebi se fiquei aterrada pela surpresa, pelo choque, pelo medo do desconhecido, ou pela duvida do que fazer a seguir. Era inevitável - tive de acender a luz na mesa-de-cabeceira!!!
Depois veio o riso, pela estupidez e simplicidade da situação! Parte do tecto, em volta de um candeeiro pesado de pingentes de vidro, da caliça do tecto, tinha caído - a maior parte estava sobre a cama, mas parte tinha-se esboroado no chão. Não sei o que pensei então, mas certamente senti-me ridícula por não ter conseguido de imediato racionalizar algo que só poderia ter explicação...
O Medo é isso mesmo - a incerteza sobre algo inesperado que temos no Presente e como lidar com isso, sentindo-nos ameaçados. No BDSM, o Medo - ainda que encapuçado - está sempre lá, e pergunto se será isso que nos repulsa/assusta, ou exactamente o que nos atrai??? Todos os adultos que têm afinidade com a prática de BDSM sabem de antemão que há riscos sempre presentes na prosecução de momentos de BDSM, quanto mais não seja pelos imponderáveis de ocasião - seja o pacemaker que não se sabe que o submisso tem, a epilepsia de que o Dom é portador sem o ter comunicado, a alergia a certo lubrificante anal, o dildo mal fabricado com uma farpa solta que causa um corte assustador, etc, etc, etc.. Todos os maus cenários são possíveis, não bastasse já a carga emocional que torna imprevisiveis os comportamentos - quer de Dom/Domme, switcher ou submissos. Tudo junto seria já a caliça debaixo dos pés, mas falta ainda um pormenor hiper-importante - a capacidade de discernir e de decidir sem hesitar, no momento em que um piscar de olhos revela tudo! Porque razão então continuamos a investir em momentos tão complicados? Pessoalmente, porque o Medo anda de mão-dada com o vencer do Medo!...
Vivemos a enfrentar a Morte, sorrimos com a certeza de espantar o chôro, comemos para sentir fome, andamos para parar, e por aí fora. O Medo existe para que o vençamos, ultrapassamos, reduzamos à sua importância e nada mais do que isso; para lhe dar o lugar que merece! Claro que os sentidos e os sentimentos são o bem-necessário para lá chegar, claro que o Prazer marca a diferença, sem dúvida, mas e o Prazer no Medo, não existe também? Quando se fala em Prazer na Dor, não será mais o Prazer no Medo da Dor? Porque a verdade é que ele nos faz correr para fugir, reagir para não sermos apanhados, racionalizar para não sermos postos à margem e capitularmos. O Medo é o motor de metade do que fazemos, embora as mais das vezes lhe chamemos muita coisa e até, mais frequentemente, "bom-senso"! O Medo auto-define-se, apesar de muitos outros medos particulares e intransmissiveis - mas os que hesitam em experimentar uma cena BDSM, por exemplo, não terão medo de gostar de vencer o medo? Porque quando tal acontece, a submissa (no meu caso) sai completamente realizada de toda a situação que ali viveu, porque conseguiu decidir continuar a calcar a caliça apesar de não a ter identificado, sem acender a luz! É um orgasmo de, à falta de melhor chamemos-lhe coragem, que apenas comporta um perigo maior: até onde sou capaz de ir? Se cheguei aqui, não serei capaz de quase tudo? Não uso drogas pesadas, mas imagino que o efeito de uma sessão de BDSM bem-conseguida seja semelhante a um rush de coca, uma vontade de não parar, de fazer mais e mais, de andar e andar... Mas o certo é que acontece o mesmo pelo lado do Dom/Domme: até onde sou capaz de ir? Se cheguei aqui, não serei capaz de quase tudo?...
Cada um saberá se se deitará de luz apagada, sem saber o que lhe ameaçou a sola dos pés, ou se a acenderá para ter a certeza de que não vale a pena ter Medo!
Com ou sem lágrimas,
gente é sempre gente.
Aqui e ali
hoje e ontem,
feliz ou triste.
Gente é lágrima
que por deslizar ri,
por cair chora.
Água salgada sem medo,
porque o medo, esse,
é triste,
e como a gente
é uma lágrima infeliz.
Há pouca gente feliz
... sem lágrimas!
Que por ser gente
é triste.
É água!!
Dezembro 2002
ML
gente é sempre gente.
Aqui e ali
hoje e ontem,
feliz ou triste.
Gente é lágrima
que por deslizar ri,
por cair chora.
Água salgada sem medo,
porque o medo, esse,
é triste,
e como a gente
é uma lágrima infeliz.
Há pouca gente feliz
... sem lágrimas!
Que por ser gente
é triste.
É água!!
Dezembro 2002
ML
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