"Manter o espírito aberto
e absorver toda a experiência;
E se doer
é porque provavelmente vale a pena.
Eu continuo a acreditar no Paraíso.
Mas sei que não é um lugar que possamos procurar.
Não é um sítio onde vamos.
É o que sentimos durante um momento na vida
em que fazemos parte de alguma coisa.
E se vivermos esse momento,
ele durará para sempre..."
filme "A Praia"
inspirado no livro de Alex Garland
"TODOS SÃO CAPAZES DE DOMINAR UMA DÔR, EXCEPTO QUEM A SENTE!" William Shakespeare
segunda-feira, maio 30, 2005
Se doer, é porque vale a pena!
terça-feira, maio 24, 2005
O Medo.....
A situação mais estranha que tive a roçar o Medo, aconteceu há anos atrás, muitos anos...
De madrugada, ao subir ao meu quarto, às escuras, descalça para não acordar a casa que sonhava, planeava que no meu quarto os meus sentidos encontrassem primeiro o chão de madeira envernizado, depois o macio tapete de felpo cor-de-laranja rente à cama branca, lacada... Abri a porta sem barulho, entrei, e a sola dos pés arrepiou-se ao sentir uma nova sensação que eu não soube definir. Por décimas de segundo, o coração parou! Fiquei aterrada, porque o meu cérebro não conseguiu computar a informação que os neurónios lhe transmitiam desde a planta dos pés... Chamamos a isso "racionalizar", acho eu, e naqueles segundos foi-me completamente impossivel racionalizar o que sucedia ali!
Sob os pés nús sentia algo a esfarelar-se, frio, sem forma, irregular e pouco agradável. Nunca percebi se fiquei aterrada pela surpresa, pelo choque, pelo medo do desconhecido, ou pela duvida do que fazer a seguir. Era inevitável - tive de acender a luz na mesa-de-cabeceira!!!
Depois veio o riso, pela estupidez e simplicidade da situação! Parte do tecto, em volta de um candeeiro pesado de pingentes de vidro, da caliça do tecto, tinha caído - a maior parte estava sobre a cama, mas parte tinha-se esboroado no chão. Não sei o que pensei então, mas certamente senti-me ridícula por não ter conseguido de imediato racionalizar algo que só poderia ter explicação...
O Medo é isso mesmo - a incerteza sobre algo inesperado que temos no Presente e como lidar com isso, sentindo-nos ameaçados. No BDSM, o Medo - ainda que encapuçado - está sempre lá, e pergunto se será isso que nos repulsa/assusta, ou exactamente o que nos atrai??? Todos os adultos que têm afinidade com a prática de BDSM sabem de antemão que há riscos sempre presentes na prosecução de momentos de BDSM, quanto mais não seja pelos imponderáveis de ocasião - seja o pacemaker que não se sabe que o submisso tem, a epilepsia de que o Dom é portador sem o ter comunicado, a alergia a certo lubrificante anal, o dildo mal fabricado com uma farpa solta que causa um corte assustador, etc, etc, etc.. Todos os maus cenários são possíveis, não bastasse já a carga emocional que torna imprevisiveis os comportamentos - quer de Dom/Domme, switcher ou submissos. Tudo junto seria já a caliça debaixo dos pés, mas falta ainda um pormenor hiper-importante - a capacidade de discernir e de decidir sem hesitar, no momento em que um piscar de olhos revela tudo! Porque razão então continuamos a investir em momentos tão complicados? Pessoalmente, porque o Medo anda de mão-dada com o vencer do Medo!...
Vivemos a enfrentar a Morte, sorrimos com a certeza de espantar o chôro, comemos para sentir fome, andamos para parar, e por aí fora. O Medo existe para que o vençamos, ultrapassamos, reduzamos à sua importância e nada mais do que isso; para lhe dar o lugar que merece! Claro que os sentidos e os sentimentos são o bem-necessário para lá chegar, claro que o Prazer marca a diferença, sem dúvida, mas e o Prazer no Medo, não existe também? Quando se fala em Prazer na Dor, não será mais o Prazer no Medo da Dor? Porque a verdade é que ele nos faz correr para fugir, reagir para não sermos apanhados, racionalizar para não sermos postos à margem e capitularmos. O Medo é o motor de metade do que fazemos, embora as mais das vezes lhe chamemos muita coisa e até, mais frequentemente, "bom-senso"! O Medo auto-define-se, apesar de muitos outros medos particulares e intransmissiveis - mas os que hesitam em experimentar uma cena BDSM, por exemplo, não terão medo de gostar de vencer o medo? Porque quando tal acontece, a submissa (no meu caso) sai completamente realizada de toda a situação que ali viveu, porque conseguiu decidir continuar a calcar a caliça apesar de não a ter identificado, sem acender a luz! É um orgasmo de, à falta de melhor chamemos-lhe coragem, que apenas comporta um perigo maior: até onde sou capaz de ir? Se cheguei aqui, não serei capaz de quase tudo? Não uso drogas pesadas, mas imagino que o efeito de uma sessão de BDSM bem-conseguida seja semelhante a um rush de coca, uma vontade de não parar, de fazer mais e mais, de andar e andar... Mas o certo é que acontece o mesmo pelo lado do Dom/Domme: até onde sou capaz de ir? Se cheguei aqui, não serei capaz de quase tudo?...
Cada um saberá se se deitará de luz apagada, sem saber o que lhe ameaçou a sola dos pés, ou se a acenderá para ter a certeza de que não vale a pena ter Medo!
De madrugada, ao subir ao meu quarto, às escuras, descalça para não acordar a casa que sonhava, planeava que no meu quarto os meus sentidos encontrassem primeiro o chão de madeira envernizado, depois o macio tapete de felpo cor-de-laranja rente à cama branca, lacada... Abri a porta sem barulho, entrei, e a sola dos pés arrepiou-se ao sentir uma nova sensação que eu não soube definir. Por décimas de segundo, o coração parou! Fiquei aterrada, porque o meu cérebro não conseguiu computar a informação que os neurónios lhe transmitiam desde a planta dos pés... Chamamos a isso "racionalizar", acho eu, e naqueles segundos foi-me completamente impossivel racionalizar o que sucedia ali!
Sob os pés nús sentia algo a esfarelar-se, frio, sem forma, irregular e pouco agradável. Nunca percebi se fiquei aterrada pela surpresa, pelo choque, pelo medo do desconhecido, ou pela duvida do que fazer a seguir. Era inevitável - tive de acender a luz na mesa-de-cabeceira!!!
Depois veio o riso, pela estupidez e simplicidade da situação! Parte do tecto, em volta de um candeeiro pesado de pingentes de vidro, da caliça do tecto, tinha caído - a maior parte estava sobre a cama, mas parte tinha-se esboroado no chão. Não sei o que pensei então, mas certamente senti-me ridícula por não ter conseguido de imediato racionalizar algo que só poderia ter explicação...
O Medo é isso mesmo - a incerteza sobre algo inesperado que temos no Presente e como lidar com isso, sentindo-nos ameaçados. No BDSM, o Medo - ainda que encapuçado - está sempre lá, e pergunto se será isso que nos repulsa/assusta, ou exactamente o que nos atrai??? Todos os adultos que têm afinidade com a prática de BDSM sabem de antemão que há riscos sempre presentes na prosecução de momentos de BDSM, quanto mais não seja pelos imponderáveis de ocasião - seja o pacemaker que não se sabe que o submisso tem, a epilepsia de que o Dom é portador sem o ter comunicado, a alergia a certo lubrificante anal, o dildo mal fabricado com uma farpa solta que causa um corte assustador, etc, etc, etc.. Todos os maus cenários são possíveis, não bastasse já a carga emocional que torna imprevisiveis os comportamentos - quer de Dom/Domme, switcher ou submissos. Tudo junto seria já a caliça debaixo dos pés, mas falta ainda um pormenor hiper-importante - a capacidade de discernir e de decidir sem hesitar, no momento em que um piscar de olhos revela tudo! Porque razão então continuamos a investir em momentos tão complicados? Pessoalmente, porque o Medo anda de mão-dada com o vencer do Medo!...
Vivemos a enfrentar a Morte, sorrimos com a certeza de espantar o chôro, comemos para sentir fome, andamos para parar, e por aí fora. O Medo existe para que o vençamos, ultrapassamos, reduzamos à sua importância e nada mais do que isso; para lhe dar o lugar que merece! Claro que os sentidos e os sentimentos são o bem-necessário para lá chegar, claro que o Prazer marca a diferença, sem dúvida, mas e o Prazer no Medo, não existe também? Quando se fala em Prazer na Dor, não será mais o Prazer no Medo da Dor? Porque a verdade é que ele nos faz correr para fugir, reagir para não sermos apanhados, racionalizar para não sermos postos à margem e capitularmos. O Medo é o motor de metade do que fazemos, embora as mais das vezes lhe chamemos muita coisa e até, mais frequentemente, "bom-senso"! O Medo auto-define-se, apesar de muitos outros medos particulares e intransmissiveis - mas os que hesitam em experimentar uma cena BDSM, por exemplo, não terão medo de gostar de vencer o medo? Porque quando tal acontece, a submissa (no meu caso) sai completamente realizada de toda a situação que ali viveu, porque conseguiu decidir continuar a calcar a caliça apesar de não a ter identificado, sem acender a luz! É um orgasmo de, à falta de melhor chamemos-lhe coragem, que apenas comporta um perigo maior: até onde sou capaz de ir? Se cheguei aqui, não serei capaz de quase tudo? Não uso drogas pesadas, mas imagino que o efeito de uma sessão de BDSM bem-conseguida seja semelhante a um rush de coca, uma vontade de não parar, de fazer mais e mais, de andar e andar... Mas o certo é que acontece o mesmo pelo lado do Dom/Domme: até onde sou capaz de ir? Se cheguei aqui, não serei capaz de quase tudo?...
Cada um saberá se se deitará de luz apagada, sem saber o que lhe ameaçou a sola dos pés, ou se a acenderá para ter a certeza de que não vale a pena ter Medo!
Com ou sem lágrimas,
gente é sempre gente.
Aqui e ali
hoje e ontem,
feliz ou triste.
Gente é lágrima
que por deslizar ri,
por cair chora.
Água salgada sem medo,
porque o medo, esse,
é triste,
e como a gente
é uma lágrima infeliz.
Há pouca gente feliz
... sem lágrimas!
Que por ser gente
é triste.
É água!!
Dezembro 2002
ML
gente é sempre gente.
Aqui e ali
hoje e ontem,
feliz ou triste.
Gente é lágrima
que por deslizar ri,
por cair chora.
Água salgada sem medo,
porque o medo, esse,
é triste,
e como a gente
é uma lágrima infeliz.
Há pouca gente feliz
... sem lágrimas!
Que por ser gente
é triste.
É água!!
Dezembro 2002
ML
sexta-feira, maio 20, 2005
Elogio da Loucura
"(...) XLVIII - Se julgais que me exprimo com mais presunção do que verdade, considerai comigo a existência dos homens; vereis com clareza a sua dívida para comigo (a Loucura) e a estima que me consagram grandes e pequenos. Não vamos examinar vida por vida, o que seria demasiado longo. Pelas minhas insígnes será fácil julgar das outras. Para quê falar do vulgo e da plebe, que, sem contestação, são inteiramente meus? São tão abundantes as formas de loucura e inventam todos os dias tantas formas novas, que nem mil Demócritos chegariam para se rirem delas. Não conseguiríeis imaginar quantos risos e divertimentos os deuses tiram diarimante desses homens. Passam as horas sóbrias da manhã a atender os votos e pedidos dos seus fiéis. Em breve, porém, atulhados de néctar e incapazes de qualquer ocupação séria, instalam-se no local mais elevado do Olimpo, donde se debruçam para espreitar as acções dos homens. Não há espectáculo mais divertido para eles. Pelos deuses, que comédias! Que agitação e que variedade de loucos!"
In "Elogio da Loucura"
Erasmo de Roterdão (séc. XVI)
terça-feira, maio 17, 2005
Depois do Sono...
Recentemente, alguém me comentava sobre este blog que estava "muito depressivo"...
As perdas na nossa vida tornam-nos depressivos, como as alegrias nos tornam contentes e os sucessos felizes! A tristeza faz parte da vida...
Sempre me recusei a arrumar esqueletos no armário - pelo contrário, trago-os para a luz do dia antes de serem esqueletos, ainda com a carne agarrada aos ossos, e insiro-os no meu quotidiano. Quando lhes limpar o pó como se fossem um qualquer biblot, apenas decorativos, então aí deixam de ser esqueletos e cumpriram a sua função; na limpeza da Primavera dão lugar a outro biblot e assim prossegue a vida!
Enquanto estão ali, à minha vista, a provocarem arrepios, tenho o direito de me arrepiar... Já não sei se tenho o direito de partilhar convosco essa sensação de queda no abismo, de salto no desconhecido, de infinita mudança na minha vida! Da mesma forma, todos temos o direito de nem olhar os biblots pirosos, os quadros de alto relevo chineses ou as flores de plástico nas jarras...
Seja como for, é assim que decoro a minha casa... mas podem sempre dar-me flores verdadeiras, com cheiro e com côr não-artificial. E tudo isso agradeço, porque dessa forma sei que na próxima Primavera nascerá um jardim aqui. Muito em breve!!! Até lá, obrigada por estarem aqui, a ajudar a limpar o pó aos biblots!...
As perdas na nossa vida tornam-nos depressivos, como as alegrias nos tornam contentes e os sucessos felizes! A tristeza faz parte da vida...
Sempre me recusei a arrumar esqueletos no armário - pelo contrário, trago-os para a luz do dia antes de serem esqueletos, ainda com a carne agarrada aos ossos, e insiro-os no meu quotidiano. Quando lhes limpar o pó como se fossem um qualquer biblot, apenas decorativos, então aí deixam de ser esqueletos e cumpriram a sua função; na limpeza da Primavera dão lugar a outro biblot e assim prossegue a vida!
Enquanto estão ali, à minha vista, a provocarem arrepios, tenho o direito de me arrepiar... Já não sei se tenho o direito de partilhar convosco essa sensação de queda no abismo, de salto no desconhecido, de infinita mudança na minha vida! Da mesma forma, todos temos o direito de nem olhar os biblots pirosos, os quadros de alto relevo chineses ou as flores de plástico nas jarras...
Seja como for, é assim que decoro a minha casa... mas podem sempre dar-me flores verdadeiras, com cheiro e com côr não-artificial. E tudo isso agradeço, porque dessa forma sei que na próxima Primavera nascerá um jardim aqui. Muito em breve!!! Até lá, obrigada por estarem aqui, a ajudar a limpar o pó aos biblots!...
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