Com ou sem lágrimas,
gente é sempre gente.
Aqui e ali
hoje e ontem,
feliz ou triste.
Gente é lágrima
que por deslizar ri,
por cair chora.
Água salgada sem medo,
porque o medo, esse,
é triste,
e como a gente
é uma lágrima infeliz.
Há pouca gente feliz
... sem lágrimas!
Que por ser gente
é triste.
É água!!
Dezembro 2002
ML
"TODOS SÃO CAPAZES DE DOMINAR UMA DÔR, EXCEPTO QUEM A SENTE!" William Shakespeare
terça-feira, maio 24, 2005
sexta-feira, maio 20, 2005
Elogio da Loucura
"(...) XLVIII - Se julgais que me exprimo com mais presunção do que verdade, considerai comigo a existência dos homens; vereis com clareza a sua dívida para comigo (a Loucura) e a estima que me consagram grandes e pequenos. Não vamos examinar vida por vida, o que seria demasiado longo. Pelas minhas insígnes será fácil julgar das outras. Para quê falar do vulgo e da plebe, que, sem contestação, são inteiramente meus? São tão abundantes as formas de loucura e inventam todos os dias tantas formas novas, que nem mil Demócritos chegariam para se rirem delas. Não conseguiríeis imaginar quantos risos e divertimentos os deuses tiram diarimante desses homens. Passam as horas sóbrias da manhã a atender os votos e pedidos dos seus fiéis. Em breve, porém, atulhados de néctar e incapazes de qualquer ocupação séria, instalam-se no local mais elevado do Olimpo, donde se debruçam para espreitar as acções dos homens. Não há espectáculo mais divertido para eles. Pelos deuses, que comédias! Que agitação e que variedade de loucos!"
In "Elogio da Loucura"
Erasmo de Roterdão (séc. XVI)
terça-feira, maio 17, 2005
Depois do Sono...
Recentemente, alguém me comentava sobre este blog que estava "muito depressivo"...
As perdas na nossa vida tornam-nos depressivos, como as alegrias nos tornam contentes e os sucessos felizes! A tristeza faz parte da vida...
Sempre me recusei a arrumar esqueletos no armário - pelo contrário, trago-os para a luz do dia antes de serem esqueletos, ainda com a carne agarrada aos ossos, e insiro-os no meu quotidiano. Quando lhes limpar o pó como se fossem um qualquer biblot, apenas decorativos, então aí deixam de ser esqueletos e cumpriram a sua função; na limpeza da Primavera dão lugar a outro biblot e assim prossegue a vida!
Enquanto estão ali, à minha vista, a provocarem arrepios, tenho o direito de me arrepiar... Já não sei se tenho o direito de partilhar convosco essa sensação de queda no abismo, de salto no desconhecido, de infinita mudança na minha vida! Da mesma forma, todos temos o direito de nem olhar os biblots pirosos, os quadros de alto relevo chineses ou as flores de plástico nas jarras...
Seja como for, é assim que decoro a minha casa... mas podem sempre dar-me flores verdadeiras, com cheiro e com côr não-artificial. E tudo isso agradeço, porque dessa forma sei que na próxima Primavera nascerá um jardim aqui. Muito em breve!!! Até lá, obrigada por estarem aqui, a ajudar a limpar o pó aos biblots!...
As perdas na nossa vida tornam-nos depressivos, como as alegrias nos tornam contentes e os sucessos felizes! A tristeza faz parte da vida...
Sempre me recusei a arrumar esqueletos no armário - pelo contrário, trago-os para a luz do dia antes de serem esqueletos, ainda com a carne agarrada aos ossos, e insiro-os no meu quotidiano. Quando lhes limpar o pó como se fossem um qualquer biblot, apenas decorativos, então aí deixam de ser esqueletos e cumpriram a sua função; na limpeza da Primavera dão lugar a outro biblot e assim prossegue a vida!
Enquanto estão ali, à minha vista, a provocarem arrepios, tenho o direito de me arrepiar... Já não sei se tenho o direito de partilhar convosco essa sensação de queda no abismo, de salto no desconhecido, de infinita mudança na minha vida! Da mesma forma, todos temos o direito de nem olhar os biblots pirosos, os quadros de alto relevo chineses ou as flores de plástico nas jarras...
Seja como for, é assim que decoro a minha casa... mas podem sempre dar-me flores verdadeiras, com cheiro e com côr não-artificial. E tudo isso agradeço, porque dessa forma sei que na próxima Primavera nascerá um jardim aqui. Muito em breve!!! Até lá, obrigada por estarem aqui, a ajudar a limpar o pó aos biblots!...
quarta-feira, maio 11, 2005
terça-feira, maio 10, 2005
Descansar Na Sombra
Todos os dias a vida nos carrega as costas!
Descobri uma recordação que me fez sorrir... e porque revivi, fiquei mais cheia! Todos os dias mudamos de pele...
"Agora é a minha vez!
A casa dorme, embalada pelo respirar da minha cadela e pelo sono do meu homem. Eu? Fugi para o escritório para embalar o sono, mas os papéis chamaram-me e a caneta agarrou-se aos meus três dedos da mão direita. Há muito tempo que isto não me acontecia: sair da cama para responder ao apelo da noite e da madrugada!
Estou deitada no catre do escritório, usando uma provocante combinação de seda que pertenceu à noite de casamento da minha mãe. Na rua, o nevoeiro apoderou-se das sombras e dos candeeiros, e novo dia se prepara para atracar nesta vila igual às outras. Na minha vida nada é igual desde há um mês atrás, há seis meses ou há um ano. Morreu família e nasceu uma criança com o meu sangue, feita pelo meu irmão, para perpetuar a loucura da família. Da nossa família de gente agitada não sei bem porquê ou para quê... Gente viva - até demais, para os dias que correm: somos os tais guerreiros que só gostam do prazer da guerra e não do fim, do objectivo, do propósito do sangue derramado. A criança de um mês será assim tão aguerrida? Gostará de questionar as coisas, de fazer o seu próprio mundo, como nós? É uma carta fechada, sem destinatário, com um selo multado por excesso de peso; e o envelope já vem sujo...
E a minha viagem? Também está multada por excesso de bagagem? Que destino terá o meu envelope? Tenho precisado de visitar uma igreja, ou duas, ou até três. Mas só porque no verão são sítios frescos - onde se podem descansar os pés e os olhos - onde não há fumos, buzinas, semáforos, beatas nem cestos do lixo - só a tal Paz de que certos poetas falam, de que precisam.
Dizem que estou a fugir. Não, acho que não! Só a descansar da viagem, dos atropelos da correria desenfreada por um lugar ao sol! Nesta altura do passeio apetecia-me sair: mudar de continente, de língua, de país, e recomeçar...
Uma espécie de purificação Tibetana, de exorcismo Hindú... Acho que não é fugir! É só descansar num qualquer apeadeiro do caminho, numa sombra ao pé de um rio! E caminhar, muito; muitas vezes. Arrastar os pés na água gelada e morrer de medo de cobras-de-água e de répteis em geral. Olhar para montes e vales e nunca estar parada, receando os bichos nas pernas... É sair do combóio para esticar as pernas, porque quinze minutos depois sabemos ter de regressar ao combóio, à viagem! Isto não é fugir! É só procurar outra realidade, porque a anterior se esgotou, apodreceu no seu favo, morreu no seu invólucro enxovalhado.
Chega de viajar. Paramos. Há percursos alternativos, certamente... Mas aqui, às três da manhã, só há um ensaio da Paz das Igrejas - falsa, emprestada e adiada, esta. Mas serve por agora, enquanto o dia não nasce, e regressa o medo de estar a fugir. Enquanto a casa abana sob o sono profundo do meu homem e da minha cadela, tudo está bem!
Ainda que eu esteja moribunda e que o Sol me condene..."
Lx - 1996
Descobri uma recordação que me fez sorrir... e porque revivi, fiquei mais cheia! Todos os dias mudamos de pele...
"Agora é a minha vez!
A casa dorme, embalada pelo respirar da minha cadela e pelo sono do meu homem. Eu? Fugi para o escritório para embalar o sono, mas os papéis chamaram-me e a caneta agarrou-se aos meus três dedos da mão direita. Há muito tempo que isto não me acontecia: sair da cama para responder ao apelo da noite e da madrugada!
Estou deitada no catre do escritório, usando uma provocante combinação de seda que pertenceu à noite de casamento da minha mãe. Na rua, o nevoeiro apoderou-se das sombras e dos candeeiros, e novo dia se prepara para atracar nesta vila igual às outras. Na minha vida nada é igual desde há um mês atrás, há seis meses ou há um ano. Morreu família e nasceu uma criança com o meu sangue, feita pelo meu irmão, para perpetuar a loucura da família. Da nossa família de gente agitada não sei bem porquê ou para quê... Gente viva - até demais, para os dias que correm: somos os tais guerreiros que só gostam do prazer da guerra e não do fim, do objectivo, do propósito do sangue derramado. A criança de um mês será assim tão aguerrida? Gostará de questionar as coisas, de fazer o seu próprio mundo, como nós? É uma carta fechada, sem destinatário, com um selo multado por excesso de peso; e o envelope já vem sujo...
E a minha viagem? Também está multada por excesso de bagagem? Que destino terá o meu envelope? Tenho precisado de visitar uma igreja, ou duas, ou até três. Mas só porque no verão são sítios frescos - onde se podem descansar os pés e os olhos - onde não há fumos, buzinas, semáforos, beatas nem cestos do lixo - só a tal Paz de que certos poetas falam, de que precisam.
Dizem que estou a fugir. Não, acho que não! Só a descansar da viagem, dos atropelos da correria desenfreada por um lugar ao sol! Nesta altura do passeio apetecia-me sair: mudar de continente, de língua, de país, e recomeçar...
Uma espécie de purificação Tibetana, de exorcismo Hindú... Acho que não é fugir! É só descansar num qualquer apeadeiro do caminho, numa sombra ao pé de um rio! E caminhar, muito; muitas vezes. Arrastar os pés na água gelada e morrer de medo de cobras-de-água e de répteis em geral. Olhar para montes e vales e nunca estar parada, receando os bichos nas pernas... É sair do combóio para esticar as pernas, porque quinze minutos depois sabemos ter de regressar ao combóio, à viagem! Isto não é fugir! É só procurar outra realidade, porque a anterior se esgotou, apodreceu no seu favo, morreu no seu invólucro enxovalhado.
Chega de viajar. Paramos. Há percursos alternativos, certamente... Mas aqui, às três da manhã, só há um ensaio da Paz das Igrejas - falsa, emprestada e adiada, esta. Mas serve por agora, enquanto o dia não nasce, e regressa o medo de estar a fugir. Enquanto a casa abana sob o sono profundo do meu homem e da minha cadela, tudo está bem!
Ainda que eu esteja moribunda e que o Sol me condene..."
Lx - 1996
domingo, maio 08, 2005
O Karma
"(...)
O karma é o encantamento (desastroso) das acções (das suas causas e dos seus efeitos). O budista quer afastar-se do karma; quer suspender o jogo da causalidade; quer ausentar-se dos signos, ignorar a questão prática: que fazer? Não deixo, eu próprio, de pô-la a mim mesmo e suspiro por esta suspensão do karma que é o nirvana. Também as situações que, por acaso, me não impoêm qualquer responsabilidade de conduta, por mais dolorosas que sejam, são recebidas numa espécie de paz; sofro, mas pelo menos nada tenho para decidir; a máquina do amor (imaginário) funciona aqui completamente sózinha, sem mim; como um operário da idade electrónica, ou como o cábula do fundo da aula, apenas tenho de estar presente: o karma (a máquina, a aula) sussurra diante de mim, mas sem mim. Na própria infelicidade, posso, num momento muito breve, arranjar um cantinho de preguiça. (...)"
in "Fragmentos de Um Discurso Amoroso"
Roland Barthes (1977)
O karma é o encantamento (desastroso) das acções (das suas causas e dos seus efeitos). O budista quer afastar-se do karma; quer suspender o jogo da causalidade; quer ausentar-se dos signos, ignorar a questão prática: que fazer? Não deixo, eu próprio, de pô-la a mim mesmo e suspiro por esta suspensão do karma que é o nirvana. Também as situações que, por acaso, me não impoêm qualquer responsabilidade de conduta, por mais dolorosas que sejam, são recebidas numa espécie de paz; sofro, mas pelo menos nada tenho para decidir; a máquina do amor (imaginário) funciona aqui completamente sózinha, sem mim; como um operário da idade electrónica, ou como o cábula do fundo da aula, apenas tenho de estar presente: o karma (a máquina, a aula) sussurra diante de mim, mas sem mim. Na própria infelicidade, posso, num momento muito breve, arranjar um cantinho de preguiça. (...)"
in "Fragmentos de Um Discurso Amoroso"
Roland Barthes (1977)
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