Todos os dias a vida nos carrega as costas!
Descobri uma recordação que me fez sorrir... e porque revivi, fiquei mais cheia! Todos os dias mudamos de pele...
"Agora é a minha vez!
A casa dorme, embalada pelo respirar da minha cadela e pelo sono do meu homem. Eu? Fugi para o escritório para embalar o sono, mas os papéis chamaram-me e a caneta agarrou-se aos meus três dedos da mão direita. Há muito tempo que isto não me acontecia: sair da cama para responder ao apelo da noite e da madrugada!
Estou deitada no catre do escritório, usando uma provocante combinação de seda que pertenceu à noite de casamento da minha mãe. Na rua, o nevoeiro apoderou-se das sombras e dos candeeiros, e novo dia se prepara para atracar nesta vila igual às outras. Na minha vida nada é igual desde há um mês atrás, há seis meses ou há um ano. Morreu família e nasceu uma criança com o meu sangue, feita pelo meu irmão, para perpetuar a loucura da família. Da nossa família de gente agitada não sei bem porquê ou para quê... Gente viva - até demais, para os dias que correm: somos os tais guerreiros que só gostam do prazer da guerra e não do fim, do objectivo, do propósito do sangue derramado. A criança de um mês será assim tão aguerrida? Gostará de questionar as coisas, de fazer o seu próprio mundo, como nós? É uma carta fechada, sem destinatário, com um selo multado por excesso de peso; e o envelope já vem sujo...
E a minha viagem? Também está multada por excesso de bagagem? Que destino terá o meu envelope? Tenho precisado de visitar uma igreja, ou duas, ou até três. Mas só porque no verão são sítios frescos - onde se podem descansar os pés e os olhos - onde não há fumos, buzinas, semáforos, beatas nem cestos do lixo - só a tal Paz de que certos poetas falam, de que precisam.
Dizem que estou a fugir. Não, acho que não! Só a descansar da viagem, dos atropelos da correria desenfreada por um lugar ao sol! Nesta altura do passeio apetecia-me sair: mudar de continente, de língua, de país, e recomeçar...
Uma espécie de purificação Tibetana, de exorcismo Hindú... Acho que não é fugir! É só descansar num qualquer apeadeiro do caminho, numa sombra ao pé de um rio! E caminhar, muito; muitas vezes. Arrastar os pés na água gelada e morrer de medo de cobras-de-água e de répteis em geral. Olhar para montes e vales e nunca estar parada, receando os bichos nas pernas... É sair do combóio para esticar as pernas, porque quinze minutos depois sabemos ter de regressar ao combóio, à viagem! Isto não é fugir! É só procurar outra realidade, porque a anterior se esgotou, apodreceu no seu favo, morreu no seu invólucro enxovalhado.
Chega de viajar. Paramos. Há percursos alternativos, certamente... Mas aqui, às três da manhã, só há um ensaio da Paz das Igrejas - falsa, emprestada e adiada, esta. Mas serve por agora, enquanto o dia não nasce, e regressa o medo de estar a fugir. Enquanto a casa abana sob o sono profundo do meu homem e da minha cadela, tudo está bem!
Ainda que eu esteja moribunda e que o Sol me condene..."
Lx - 1996
"TODOS SÃO CAPAZES DE DOMINAR UMA DÔR, EXCEPTO QUEM A SENTE!" William Shakespeare
terça-feira, maio 10, 2005
domingo, maio 08, 2005
O Karma
"(...)
O karma é o encantamento (desastroso) das acções (das suas causas e dos seus efeitos). O budista quer afastar-se do karma; quer suspender o jogo da causalidade; quer ausentar-se dos signos, ignorar a questão prática: que fazer? Não deixo, eu próprio, de pô-la a mim mesmo e suspiro por esta suspensão do karma que é o nirvana. Também as situações que, por acaso, me não impoêm qualquer responsabilidade de conduta, por mais dolorosas que sejam, são recebidas numa espécie de paz; sofro, mas pelo menos nada tenho para decidir; a máquina do amor (imaginário) funciona aqui completamente sózinha, sem mim; como um operário da idade electrónica, ou como o cábula do fundo da aula, apenas tenho de estar presente: o karma (a máquina, a aula) sussurra diante de mim, mas sem mim. Na própria infelicidade, posso, num momento muito breve, arranjar um cantinho de preguiça. (...)"
in "Fragmentos de Um Discurso Amoroso"
Roland Barthes (1977)
O karma é o encantamento (desastroso) das acções (das suas causas e dos seus efeitos). O budista quer afastar-se do karma; quer suspender o jogo da causalidade; quer ausentar-se dos signos, ignorar a questão prática: que fazer? Não deixo, eu próprio, de pô-la a mim mesmo e suspiro por esta suspensão do karma que é o nirvana. Também as situações que, por acaso, me não impoêm qualquer responsabilidade de conduta, por mais dolorosas que sejam, são recebidas numa espécie de paz; sofro, mas pelo menos nada tenho para decidir; a máquina do amor (imaginário) funciona aqui completamente sózinha, sem mim; como um operário da idade electrónica, ou como o cábula do fundo da aula, apenas tenho de estar presente: o karma (a máquina, a aula) sussurra diante de mim, mas sem mim. Na própria infelicidade, posso, num momento muito breve, arranjar um cantinho de preguiça. (...)"
in "Fragmentos de Um Discurso Amoroso"
Roland Barthes (1977)
sexta-feira, maio 06, 2005
- ONTEM -
"Por favor, não me deixes cair, pousa-me quando te fores embora! Por favor..." - pediu ela numa voz sumida de quem não se quer despedir.
E ele prometeu! E ela acreditou!
Virou o Mundo do avesso apenas porque acreditava; e não se desilude quem em nós acredita.
Ela transformou as coisas. As coisas floresceram. Criou novas flores, novas cores, novos cactos... Fez de tudo para o ajudar a crescer nessa ideia fantástica de cumplicidade imaculada. Derrubou medos e barreiras apenas porque ele acreditava nela. Foi feliz! E também o fez feliz no micro-segundo que o cérebro demora a tomar o lugar da emoção irreflectida...
Depois ele deixou-a cair!
E ele prometeu! E ela acreditou!
Virou o Mundo do avesso apenas porque acreditava; e não se desilude quem em nós acredita.
Ela transformou as coisas. As coisas floresceram. Criou novas flores, novas cores, novos cactos... Fez de tudo para o ajudar a crescer nessa ideia fantástica de cumplicidade imaculada. Derrubou medos e barreiras apenas porque ele acreditava nela. Foi feliz! E também o fez feliz no micro-segundo que o cérebro demora a tomar o lugar da emoção irreflectida...
Depois ele deixou-a cair!
segunda-feira, maio 02, 2005
A Perda
Dói!
Dói muito e arde na alma porque o espaço ficou lá cheio de imagens e de sentires e de sentimentos... A saudade queima e deixa marca e o gelo não a apaga, nem o secar as lágrimas, nem o fechar os olhos para tentar dormir...
Dói!
Tanto que chega a ser insuportável, infinito porque não há medida para o encaixar num padrão. Fotografias e coisas com cheiro foi o que ficou de palpável, o que não se vê é que não tem lugar onde ser pousado; o coração é agora a moldura.
Dói!
Um latejar de infinito agradecimento pela descoberta de novo sentir e do partilhar do seu sentir, do dar nome a novas maneiras de estar no Mundo dos vivos. Um perpétuo redemoinho de fronteiras pela frente, que agora acabou...
Dói!
Saber que o "que foi não volta a ser!"... Que amar não chega para não perder! Que o Tempo nunca vai apagar o que recebi... porque o mar vai e vem, mas nunca se dá, nunca se entrega. Assim é o Tempo!
Dói!
A ferida ficará sempre e uma ternura imensa pelo que tantas vezes me salvou de ficar só! Assim é a vida. Quem chega e parte ajuda, e nunca voltaremos a ser os mesmos...
Um afago nos olhos mais ternos que não voltarei a ver, pela saudade que deixa e o Bem que fez! Um adeus que não o é!
29 de Abril de 2005
Dói muito e arde na alma porque o espaço ficou lá cheio de imagens e de sentires e de sentimentos... A saudade queima e deixa marca e o gelo não a apaga, nem o secar as lágrimas, nem o fechar os olhos para tentar dormir...
Dói!
Tanto que chega a ser insuportável, infinito porque não há medida para o encaixar num padrão. Fotografias e coisas com cheiro foi o que ficou de palpável, o que não se vê é que não tem lugar onde ser pousado; o coração é agora a moldura.
Dói!
Um latejar de infinito agradecimento pela descoberta de novo sentir e do partilhar do seu sentir, do dar nome a novas maneiras de estar no Mundo dos vivos. Um perpétuo redemoinho de fronteiras pela frente, que agora acabou...
Dói!
Saber que o "que foi não volta a ser!"... Que amar não chega para não perder! Que o Tempo nunca vai apagar o que recebi... porque o mar vai e vem, mas nunca se dá, nunca se entrega. Assim é o Tempo!
Dói!
A ferida ficará sempre e uma ternura imensa pelo que tantas vezes me salvou de ficar só! Assim é a vida. Quem chega e parte ajuda, e nunca voltaremos a ser os mesmos...
Um afago nos olhos mais ternos que não voltarei a ver, pela saudade que deixa e o Bem que fez! Um adeus que não o é!
29 de Abril de 2005
quarta-feira, abril 27, 2005
Uma Pequena Fábula
"- Pobre de mim, o Mundo está a crescer mais pequeno todos os dias. No princípio era tão grande que eu tinha medo e não parava de correr e correr. E fiquei contente quando enfim vi muros ao longe, à esquerda e à direita, mas esses longos muros estreitaram-se tão rapidamente que eu já estou no último aposento, e ali no canto está a armadilha para que devo correr...
- Apenas precisas de mudar de direcção - disse o gato, e comeu-o!"
in "Desiste! E outras histórias ilustradas" - Kafka
- Apenas precisas de mudar de direcção - disse o gato, e comeu-o!"
in "Desiste! E outras histórias ilustradas" - Kafka
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