No reino do BDSM, nem sempre toda a gente sabe o que anda a fazer, se quer fazer, ou porque o faz!
Recentemente, alguém me dizia que tinha rejeitado um convite de escrava dum Dominador, por o querer servir por inteiro, como ele merecia. Parece contraditória a questão e a solução, mas não é! Quando li o e-mail com a sua resposta, desejei ter sido eu a escrevê-lo, e fiquei certa de que o Dominador em questão se sentiu deveras realizado! A Dominação não se faz na carne, mas dentro dela... O chicote só faz saltar as lágrimas. O contentamento é sentir o Senhor crescer nos nossos olhos!
“Tenho pensado na eventualidade que me colocou, sem saber bem o que pensar... Aparentemente, sentir não chega!
Desde que falei consigo ao telefone pela primeira vez que confiei em si, desde a nossa primeira sessão que sabia que seria "o tal" Dominador; desde há muito, portanto, que me entreguei a si!
Confesso que imaginei muitas vezes o quanto gostaria de ser sua escrava, que vezes demais usei a imaginação para uma excitação plena consigo como meu Dono, etc... No entanto, depois lembrava-me que "não era livre" por compromisso assumido, e afastava qualquer esperança nesse sentido. Quando há tempos falou na hipótese pela primeira vez fiquei em puro êxtase, e ontem repetiu-se a primeira sensação. Não havia nada que me desse mais prazer... julgo que merecia ouvir isso. Trocámos sms e fiquei com as mãos cheias de coisas e definições, mas infinitamente confusa. Hoje passei o dia a pensar e a repensar, e a sentir muito, demais... uma angústia. Ontem disse-lhe que me desagradava a ideia do segredo (embora compreenda que seja necessário), que nunca me escondi... Continua a ser verdade!
Nada me faria mais feliz no BDSM do que ser sua escrava... mas sem me ter de esconder! Entendo que, por definição, uma escrava só existe enquanto criação do seu Dono - se essa relação vive no segredo, a submissa nunca existirá. Não posso matar, esconder, amarfanhar, uma submissa que se quer entregar por inteiro a quem lhe dê a hipótese de existir.
Sobre o conceito de heróis no BDSM, defendo sermos todos nós na comunidade; toda a gente quer ser herói por umas horas, ter os seus quinze minutos de fama, imaginar-se uma excelente submissa ou o melhor Dom de todos...
Uma submissa em segredo é uma violência, quase uma violação, porque tudo o que quer é dizer o seu Dom um herói - o melhor de todos! Toda a submissa sonha em ser apresentada pelo seu Dono como a sua cadela, a sua coisa, em ser emprestada por ele a outro Dono ou a entrar numa gathering/encontro/workshop acompanhada por quem tenta honrar! É o reconhecimento dele à entrega dela, penso eu, enquanto enaltecendo o seu Dono ele a premia com a sua presença pública...
Sempre lidei mal com o segredo... E neste caso ele mataria a alegria de o ter como Dono, por me fazer deixar de existir - anular-me para lhe dar prazer é uma coisa, nem chegar a existir é o castigo antes da ofensa. Os submissos também querem ser heróis, terem os seus quinze minutos de fama - sentirem-se invejados por o seu Dono ser o melhor, cumprimentados no plurar, considerados um apêndice do Dom X... Acho que preciso disso e conheço-me bem - conseguia fingir que concordava, mas nunca seria o mesmo! Ia olhar para si e em silêncio tentar perceber porque não tinha um Dono que me assumisse, sempre.
Ia ficar triste, cumprir exemplarmente as suas ordens, mas também sentir-me abandonada no anonimato... Sei que não iria sentir prazer e duvidaria da entrega, porque seria a tristeza a dominar-me, não o Senhor.
Resumindo, ficaria muito feliz se um dia me convidasse para sua escrava, e assim fiquei com a hipótese... imensamente contente com a possibilidade de o agradar enquanto meu Dono. Mas seria uma farsa que nesses moldes me empobreceria como submissa, e não o quero desonrar com uma representação... Talvez seja uma excelente actriz se necessário, mas não o quero fazer, muito menos consigo!
E, de um modo muito prosaico, já o estou a honrar e a servir...Se quiser continuar a ter-me em sessões sem fingimento serei sempre sua submissa sem interferir com o seu caminho, desde que isso lhe baste e lhe dê igualmente prazer. Se não fôr o caso, entendo.... em absoluto! Não o rejeito - apenas não me quero dar pela metade!E honro-o
assim... como posso! Não como quero!...
Um beijo dado de olhos baixos!
Uma submissa...”