domingo, maio 07, 2006

A ESTRUTURA DAS FANTASIAS SEXUAIS MIMÉTICAS
(teoria)

"Uma área da teoria que precisa de desenvolvimento adicional é entender a diferença entre o idioma falado e os rituais miméticos que deram origem à linguagem corporal, e que estão também na génese de algumas vertentes do fetichismo.
Isto levou-me a explorar mais a fundo a ideia de consciência. Rejeito a ideia de que os seres humanos têm consciência e os animais não. Os seres humanos têm uma consciência linguística enquanto os animais têm uma consciência de percepção. Penso que a ligação entre a mente mimética e a mente linguística é a fantasia de narrativa não-linguística. A narrativa pode ser tanto perceptiva quanto linguística. As fantasias miméticas sexuais são narrativas mais perceptuais do que linguísticas.
Durante a longa evolução da mente mimética, os participantes nos rituais miméticos (as Fêmeas como Sujeito; os machos como o Outro), o schadenfreude (alegria na crueldade) desfrutado pelas fêmeas e o prazer da submissão, esta experiência intensa de prazer sexual dolorosa que o macho mimético foi desenvolvendo para ser desejado pelas Fêmeas na selecção sexual, seria criada na mente mais e mais sob a forma de fantasias. A linguagem não seria necessária para isso. As fantasias seguiriam ou mesmo formariam tais “scripts” mentais.
A vida mental do homem contemporâneo envolve muitas fantasias trazidas de experiências miméticas. Há a fantasia do espancamento ou da disciplina, o “queening” ou “facesitting” ou fantasia de sufocamento, a fantasia do pisar, a fantasia do pénis torturado (“CBT”), a fantasia da chuva dourada, a fantasia da adoração anal, a fantasia de castração, e assim por diante.
As histórias imaginárias que os homens submissos postam na rede de websites de Dominação Feminina são formas linguísticas das fantasias. Porém, as imagens (fotos, vídeos, cartoons, etc.) remetem a um pano de fundo. Os vídeos que os homens miméticos compram e que são vendidos em muitos websites de Dominadoras são “scripts” de fantasia com muito pouco diálogo.
É provável que os sinais verbais tenham desenvolvido a partir dos rituais miméticos de desenvolvimento do macho como o outro. Estes sinais verbais activariam uma fantasia de ritual mimético da mesma maneira que as imagens D/s o fazem hoje. Então, é credível que estas narrativas de fantasia formem a ponte entre a cognição mimética e a linguística. A linguagem foi construída partindo-se dessas narrativas não linguísticas das fantasias. As narrativas visuais miméticas assumiram gradualmente cada vez mais características linguísticas pois evoluíram de uma estrutura mítica.
Comentando sobre o interesse expresso por Mulheres em imagens de Dominadoras, a sugestão que pode ser feita é a de que "eu não estou seguro de que elas estejam a responder a algo mais arquetípico (do qual todo esse material moderno é apenas um reflexo) ". Novamente se afirma: "eu penso que se isso acontecesse comigo, não estaria ligado a algo da minha infância ou algo arquétipo”, e então continua a afirmar que eles "parecem não ter raízes em qualquer experiência que eu possa relembrar". Outra mensagem que discute a natureza do fetiche e demais fantasias estabelece a necessidade da presença da Fêmea Dominante. Se Ela for excluída toda a vida/alegria se vai embora".
O fetiche, por outras palavras, obtém o poder erótico da sua função como um símbolo de representação da Mulher como “Sujeito” e o homem como “Outro”. Quando se diz que a vida/alegria “se vai embora” se o símbolo do fetiche não pode ser relacionado com uma Mulher Dominante, pretende dizer-se, então, que o fetiche perde a sua função de representação simbólica, e consequentemente o seu poder mimético como um símbolo ou significado do domínio da fêmea e da submissão do macho.
Também é interessante o comentário visto num canal do IRC: "Agora, a maioria de nós é de Mulheres, mas não todos. Mas chegamos à conclusão de que, pelo menos há muito tempo, o BDSM orientado eroticamente é muito pouco escrito”.
Isto significa que não se activa o nível mimético de cognição. Ou seja, o que falta em muitas histórias BDSM é uma boa narrativa mimética em termos do imaginário simbólico. É claro que uma boa habilidade para a escrita também é importante. Boas histórias que tenham conteúdo mimético-erótico verdadeiro são raras.
Há realmente muita ênfase no fetiche como prova da submissão masculina. Pode dizer-se que, antes de qualquer coisa, o fetiche também pode ser contraproducente. Por exemplo, compare-se Sacher Masoch, Nietzsche, e J.J. Bachoffen:
Sacher Masoch envolveu-se na praxis do fetiche e escreveu um bom romance de fantasias. Tanto Nietzsche, quanto Bachoffen eram machos miméticos mas Nietzsche nunca participou da praxis do fetiche. Certamente Nietzsche terá entendido isso plenamente. Eles usaram a energia mimética de uma maneira transcendentemente positiva como meio de se redefinirem redescobrindo o “Matriplex”. Se o sentido mimético é perdido obedecendo ao desejo masculino, ele (o mimético) não pode ser aproveitado para uma utilização criativa.
A característica do dionísico é que ele pode ser controlado e usado sem fetiche. Porque funciona sem fetiche, o macho dionísico continua forte e livre, e a sua submissão é totalmente voluntária e assim torna-se um verdadeiro sacrifício. O macho mimético, inferior, precisa do fetiche, mas o superior não. Fetiche e “castração” são uma mesma moeda. Os níveis de fetiche correspondem aos níveis de castração. Fetiche é a ferramenta para castrar e controlar o rebanho de machos inferiores.
Ritual mimético é essencial para desencadear a cognição mimética do macho (“efeito Knossos”). O Ritual mimético torna-se entretanto, por repetição um fetiche, quando é feito para satisfazer o desejo masculino em lugar de ser uma metodologia da Mulher para moldar e preparar um macho para ser usado como ela desejar. Se uma determinada prática apresenta a função de um ritual mimético ou de um fetiche depende do contexto e do estado de espírito da Dominadora. Uma Dominadora experiente aprenderá como e quando tirar proveito do fetiche e quando e como usar a prática mimética como ritual. Se formos a um bar SM, veremos fetiche, mas se estivermos a presenciar um macho em escravidão sendo açoitado numa cerimónia pagã de Wicca, estaremos diante de um ritual mimético.
Porém, os masoquistas inferiores podem ter uma importante função como objectos para serem tornados “outros” por Mulheres que precisam fazer dessa prática uma parte do seu próprio processo de transição de ser “outro” para se tornar “sujeito”.
Existe uma tese na qual o autor interpreta Nietzsche em termos de " Masoquismo do Superior " e " Masoquismo do Inferior ". Existem claramente dois tipos de machos masoquistas. Os machos miméticos superiores centram o seu foco de interesse no seu sacrifício para a Fêmea, enquanto o macho masoquista inferior focaliza o seu interesse na procura da satisfação dos seus próprios desejos. O macho superior usa o seu masoquismo para a transformação de seu ego (“self”). Deste modo torna-se a encarnação do cônjuge sacrificado.
Provavelmente deve haver também dois tipos de Fêmeas miméticas: aquelas que usam o “shadenfreude” (alegria na crueldade) para se transformar e se tornar um “Sujeito” e transcendem a dominação masculina dominando o macho, e aquelas que jogam, que brincam e de certa forma apenas querem agradar e satisfazer os machos.

Notas para uma Teoria Científica de Matriarcado - Sacrifício versus Castigo em rituais miméticos.
Há uma diferença entre sacrifício e castigo: Se for razão de disciplina é castigo, então, presume-se que seja merecido, portanto não é um presente voluntário ou sacrifício.
O castigo pode modificar um comportamento masculino mas o sacrifício transforma a psique do macho. É tido que um macho que se submete a um ritual de sacrifício puramente mimético em lugar do somente cenas de castigo, faz isso intuitivamente significando algo mais que somente dar à sua Dominadora o prazer da schadenfreude (alegria na crueldade).
Num mundo tipicamente patriarcal, estas sessões de sacrifício dão poder à Mulher e mantém-na como Sujeito. É um ritual de se tornar e de se transformar. A dor do prazer e o prazer da dor permitem que o macho abrace e interiorize o papel biologicamente determinado para ele.
Num mundo onde o poder, a agressividade e a sexualidade naturais são negados às Fêmeas, o prazer de ministrar a dor desperta a Amazona que vive dentro dela. E ela torna-se capaz de retomar o seu ego biológico natural na sua essência. O castigo pode controlar modos de comportamento, mas é um modo errado de ritual para a transformação.
Uma Dominadora pode controlar um homem pelo castigo, mas não pode transformá-lo em consorte, guerreiro, dono-de-casa, ou em tudo o mais que ela quiser apenas através de rituais de castigo.
Castigo, naturalmente, tem o seu lugar, mas é o tipo errado de ritual mimético para a transformação pelo sacrifício com a reunificação do corpo e da mente masculinas."

“Os escravos são castigados mas os deuses, os guerreiros e os cônjuges são sacrificados.“

Autor indeterminado, fonte: Artemis Creations (Adaptação: ypsilodoris - 2005)
in www.bdsmpt.com tópico ------------------> Fantasias

2 comentários:

hl disse...

Este texto está excelente:)
Beijinhos:)

erolog disse...

Sò para dizer que concordo com o que foi escrito, e bem escrito diga-se